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2ª Catequese Quaresmal - D. Nuno Brás, Bispo Auxiliar de Lisboa
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2ª Catequese Quaresmal - D. Nuno Brás, Bispo Auxiliar de Lisboa

“A mim o fizeste”


Catequese Quaresmal - II Domingo

Sé Patriarcal, 16 de Março de 2014


Se necessário fosse, o clima pascal destas catequeses quaresmais ficou este ano decididamente marcado pela passagem do Senhor Patriarca D. José Policarpo para a eternidade. Como ele próprio disse nas exéquias do seu antecessor, «A Páscoa perene, revive-a a Igreja de Lisboa, com a morte do seu pastor. A vida oferecida do nosso Patriarca, unida à de Cristo, Cordeiro Pascal, será uma fonte de graça para todos».


O Evangelho não pode nunca ser dissociado da caridade. E o anúncio realizado na "alegria do Evangelho" não pode deixar de conduzir à novidade de um novo agir — aquele que encontra na sua raiz o amor de Deus. Aliás, este mesmo agir, que encontra a sua origem em Deus e que espelha a vida divina, é antes ele próprio anúncio, alegre e perene, da Boa Nova do Reino.


Não se trata esta apenas de uma convicção ou da conclusão de um qualquer raciocínio humano, ou cuja afirmação decorra de um qualquer pensamento, mesmo aquele que encontra na sua origem uma afirmação de fé. É o texto das Escrituras quem claramente o afirma, como reconhece o Papa Francisco na Exortação Apostólica, que este ano nos serve de pano de fundo para as catequeses quaresmais. O Santo Padre di-lo expressamente no início do n. 179: "Este laço indissolúvel entre a recepção do anúncio salvífico e um efectivo amor fraterno exprime-se nalguns textos da Escritura, que convém considerar e meditar atentamente para tirar deles todas as consequências".


Em vez de fazermos a exegese pormenorizada dos textos que o Papa refere (Mt 25,40; 7,2; Lc 6,36-38), olhemos antes para algumas das suas afirmações centrais.



1. "Fazer"


"Sempre que fizestes isto

a um dos meus irmãos mais pequeninos

a mim mesmo o fizestes"

(Mt 25,40)


A primeira consideração não pode deixar de ser sobre o convite que Jesus nos faz a agir. Quase poderíamos dizer: o anúncio do Evangelho não se resume, decididamente, a um conjunto de palavras pronunciadas, ainda que belas e cheias de novidade, mas traz sempre consigo um agir.


Em primeiro lugar, notemos que o Santo Padre faz referência a uma afirmação de Jesus que se insere na chamada "narração do juízo final", que ocupa os versículos 31 a 46 do capítulo 25 do evangelho de S. Mateus.


S. João da Cruz, na sua obra Avisos e sentenças, não deixa de nos recordar a propósito desta passagem: "No entardecer da vida, seremos julgados no Amor” (n. 57).


Jesus descreve, quase como o artista relata uma sua obra, o momento definitivo e último. E se o faz em primeiro lugar para aqueles que O escutam, não deixa de sublinhar que o julgamento se dirige a "todos os povos", reunidos diante do Filho do Homem. Porque foi precisamente para todos que Ele veio. Não apenas para aqueles que O acolheram. Não serão pois apenas os discípulos a serem julgados. Estes serão, quando muito, confrontados no Amor de um modo mais severo, pois que muito lhes foi dado. Mas todos, sem excepção, não deixarão de comparecer diante do Amor. O Amor julga com Amor acerca do Amor. Mas, precisamente por ser Amor, não deixa nunca de iluminar, de interrogar e de erguer publicamente a sua voz.


E o critério do seu julgamento, o critério que distinguirá, em definitivo, todos os seres humanos será apenas um: aquilo que fizeste a um dos meus irmãos mais pequeninos.


Isto significa que todo o valor do agir humano sobre a terra, quer dizer: o agir de cada ser humano em concreto (porque mesmo o agir das sociedades tem rostos e nomes), há-de ser medido por este agir pessoal. Tudo o que for progresso económico; tudo o que foram realizações científicas e técnicas; tudo o que for progresso humano, os direitos, a forma humana de convivência; tudo o que for progresso espiritual e no conhecimento de Deus; e tudo o que for a vida de cada homem e mulher — tudo, enfim, terá como critério último aquilo que cada um realizou não em seu favor, nem sequer em favor de uma humanidade tomada em abstracto, mas em favor de "um dos meus irmãos mais pequeninos".


Mas notemos pois que não se tratam aqui das "obras valorosas" dos heróis que, por se elevarem acima do comum dos mortais, se hão-de libertar da lei da morte. Nem sequer daquelas outras que pela sua característica religiosa ou por se reclamarem do louvor divino terão já por si garantida a salvação de quem as realiza. O valor do viver humano tem uma media: a obra realizada em favor do outro mais pequenino.



2. O irmão mais pequenino


Quem é o irmão mais pequenino? Não raras vezes, esta expressão (ou semelhante) é usada pelo primeiro evangelho para falar dos discípulos, senão mesmo dos missionários (cf. Mt 18,3-5). É assim, por exemplo, em 10,42 ("Quem der de beber a um destes pequeninos, ainda que seja somente um copo de água fresca, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo, não perderá a sua recompensa"): o acolhimento prestado àqueles que são enviados é  acolhimento prestado Àquele que os envia.


Não é o caso em Mt 25,40. Aqui, os diferentes comentadores são unânimes em afirmar que a expressão "ao meu irmão mais pequenino" se refere a todos os necessitados, quem quer que eles sejam.


Aliás, se dúvidas existissem, o Senhor elenca um conjunto de situações onde o cuidado pelo "mais pequenino" é claro e necessário: os famintos, os que têm sede, os peregrinos, os que não têm que vestir, os doentes e os presos. Juntamente com a obra de "enterrar os mortos", o agir em favor daqueles deu origem ao elenco das chamadas obras de misericórdia corporais, quer dizer, aquelas que dizem respeito ao cuidado pelos que se encontram em situação de necessidade no que toca à sua condição corporal.


A elas acrescentou a tradição as outras sete obras de misericórdia espirituais: dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os aflitos; perdoar as injúrias; sofrer com paciência as fraquezas do próximo; pedir a Deus pelos vivos e defuntos.


Dado o lugar em que nos encontramos, não podemos ignorar que precisamente estas 14 obras de misericórdia (corporais e espirituais) e a bem-aventurança que a elas se encontra associada (cf. Mt 5,7) que estão na origem das Santas Casas da Misericórdia, associações de fiéis, que têm por objectivo primeiro a união de esforços em favor dos "mais pequeninos" do Evangelho. A primeira delas, sob o patrocínio da rainha D. Leonor, surgiu precisamente em 1498, na capela de Nossa Senhora da Piedade, situada nos claustros desta Sé de Lisboa.


De igual modo, não podemos esquecer hoje as palavras do Papa Francisco na sua mensagem para a Quaresma que estamos a viver, e que relê e actualiza aquelas listas evangélicas e da tradição eclesial, introduzindo ao lado da "miséria material", aquilo a que o Santo Padre chama "miséria moral" e a "miséria espiritual". Diz o Papa:


"A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural".



E o Santo Padre acrescenta acerca da miséria moral: "Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança!"


Quanto à miséria espiritual, diz ainda o Papa Francisco que ela "nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência".


Isto significa que não se trata simplesmente de tomar como um elenco fechado, completo, aquele que Jesus enuncia no Evangelho, mas que ele se deve antes tomar como uma enunciação daquelas situações que, claramente, requeriam o nosso agir imediato. Poderíamos, aliás, encontrar nos textos evangélicos outras tantas referências, seja à miséria moral, seja àquela espiritual.


Notemos ainda que a Mensagem do Papa coloca a miséria espiritual ("quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor"; quando "julgamos não ter necessidade de Deus [...] porque nos consideramos auto-suficientes") num plano semelhante ao da "miséria material", a requerer o agir cristão, inadiável, sem olhar a mais nada que não à situação daquele que necessita, e empenhando todas as nossas forças. Também ele, ainda que materialmente rico, e julgando-se auto-suficiente, se encontra naquela situação de pequenez a que não podemos voltar as costas.



3. "A mim o fizestes"


À primeira vista, a narração de Mt 25 constitui, apenas, uma descrição do juízo final: Jesus, como Filho do Homem glorioso, que, no fim dos tempos, repleto de majestade,  faz, por meio sempre do Amor e nele, o discernimento das vidas humanas, a partir do Amor com que os sofrimentos dos "mais pequeninos" foram acompanhados, vividos e resolvidos.


Contudo, se lermos bem, em Mt 25 não encontramos simplesmente uma referência ao momento do juízo definitivo, final. É verdade que ele domina toda a narração. Mas é também verdade que ele se encontra radicalmente determinado pelo hoje, pelo momento presente e pelo modo como o vivemos, dando-nos ou não conta dos sofrimentos alheios, e procurando ou não ir ao seu encontro e minorá-los ou resolvê-los.


O juiz daquele dia final, em que o Amor terá a última palavra, outro não é senão aquele que hoje vem ao nosso encontro em todo e qualquer ser humano que sofre material, moral ou espiritualmente. O juízo desse dia definitivo é aquele com que cada um de nós se confronta, diariamente, perante a presença do Senhor no faminto, no pobre, no doente ou no preso, e também naquele que está sujeito ao domínio de um qualquer vício que o aprisiona, ou ainda diante daquele que se julga auto-suficiente, e padece de miséria espiritual.


"A mim o fizeste". De facto, Jesus não se destaca daquele que sofre, utilizando uma comparação. Não diz: "é como se o tivesses feito a mim". Pelo contrário: Ele identifica-se completamente com o "irmão mais pequenino". Este é, tenha ou não disso consciência, o Filho do Homem que nos julga a todos, cristãos ou não.


Tal identificação não tem a ver com qualquer atitude subjectiva do pobre, com qualquer seu merecimento ou com qualquer atitude de maior ou menor religiosidade que possa aparentar ou que possa realmente viver, mas antes com a realidade objectiva que ele sofre neste momento. A sua pequenez real — material, moral ou espiritual: é ela que determina a sua identificação com o Filho do Homem. É este quem se identifica com ele, e não o contrário. Trata-se, afinal, de um prolongamento do dinamismo da encarnação, do Deus que se faz homem, e que o conhecido hino da Carta aos Filipenses (Filp 2,6-11) bem retrata: "Esvaziou-se a Si mesmo, tomando a condição de servo [...] até à morte e morte de cruz".


Mas, se assim é, então o agir presente traz consigo uma dimensão eterna. O agir no momento presente não é uma mera realidade passageira e inconsequente. Pelo contrário: é neste agir, em particular na atenção e no actuar em relação aos "mais pequeninos" que se decide a vida eterna. Em cada decisão, em cada gesto, em cada atitude que todos os seres humanos são chamados a tomar em cada momento da sua existência dá-se o confronto com Aquele que a todos julgará no momento final. Crentes ou não. Porque, crentes ou não, o olhar para o "mais pequenino", a capacidade de sair de si mesmo e dar atenção àquele que mais necessita, bem longe de ser uma realidade que apenas os crentes são capazes de realizar, constitui antes uma atitude a que todos são chamados. E de um modo ou de outro, nela cada um encontra o Filho do Homem, que distingue com justiça e misericórdia.


O momento que vivemos tem pois sempre um peso de eternidade, que ninguém será capaz de lhe retirar. É nele que somos julgados no Amor.



4. A medida usada



Poderemos, então, questionar: vale a pena ser discípulo, se em cada momento e no final todos seremos julgados no Amor, crentes ou não? Acrescentará a fé algo à condição de ser humano? Acrescentarão algo as atitudes religiosas que todos e cada um de nós é chamado por Deus a tomar?


Ao lado de Mt 25,40, que temos vindo a tomar como base para as nossas reflexões, o Santo Padre Francisco refere duas outras passagens evangélicas, também elas relacionadas com o julgamento (o mesmo é dizer: com a destrinça do nosso agir e do nosso ser) e com a medida desse julgamento, mas onde Jesus se dirige claramente aos discípulos: Mt 7,2 ("Com a medida que medirdes, assim sereis medidos") e Lc 6,36-38: "Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai, e ser-vos-á dado. [...] A medida que usardes com os outros será usada convosco".


Se em Mt 25 a identificação era realizada entre Jesus e os "irmãos mais pequeninos", agora o discípulo do Senhor é convidado a ser, como Jesus, espelho, Palavra do Pai: o discípulo é convidado a encher-se de misericórdia e a ser acolhedor para com todos — e não pode deixar de nos vir à mente a parábola do Filho Pródigo, não sem razão por muitos chamada a Parábola do "Pai misericordioso" — e a suspender o julgamento, pois que ele não lhe pertence, mesmo aos discípulos (ao contrário, seremos igualmente julgados no Amor, como vimos antes), mas apenas Àquele que se sentará como juiz no final dos tempos. E uma vez mais o nosso agir em cada momento se mostra cheio de consequências eternas. Agora somos convidados a não julgar, a não condenar, a ser misericordiosos e a perdoar, sabendo que essa é a medida que será usada connosco.


Não se trata, simplesmente, de um "negócio" como poderia parecer à primeira vista. Trata-se antes de, como o Pai, suspendermos o juízo. Isso mesmo convida o dono da seara aos seus trabalhadores que, apressadamente, queriam distinguir o trigo do joio (Mt 13,25-30), e isso mesmo é expresso pelo autor da Carta aos Hebreus (4,7): "[Deus] fixa de novo um dia, hoje, dizendo por David, depois de tanto tempo, como acima se disse: Hoje se escutardes a sua voz, não endureçais os vossos corações".


"Hoje" o discípulo é convidado à conversão. E isso é possível pela paciência de Deus, que não cessa de esperar pelo filho que se afastou, nem desiste do seu regresso. É assim que o Pai trata o discípulo: pacientemente; é assim que o Pai trata o mundo: pacientemente. É assim que o discípulo não pode deixar de estar, também ele presente no seio do mundo, mesmo que a ele não pertença. Se, por um lado, vive inquieto e na esperança da última vinda do Senhor, por outro não pode deixar de semear com todo o entusiasmo a semente da Palavra, na consciência de que a própria semente, porque é de Deus, é capaz de transformar a terra onde cai, e de a converter em terreno frutuoso.


Essa é a medida grande, usada pelo Pai para com os discípulos — aquela boa medida,  "cheia, recalcada, trasbordante", lançada no regaço de cada um de nós. É a medida da graça divina — aquela medida de que nunca seremos merecedores — o mesmo é dizer: a medida do Amor com que Deus nos amou, e que já hoje nos oferece como fonte de vida, para nós e para o mundo inteiro.


É certo que, se os discípulos não anunciarem, gritarão as pedras (Lc 19,40). Mas é igualmente verdade que aos discípulos é confiada a missão de fazer ecoar o Evangelho ao longo dos tempos. E o Evangelho proclamado (aquele que anuncia o amor divino que a todos quer envolver) não é outro diferente daquele que se faz, abundantemente, eco da misericórdia divina, olhando as necessidades de quantos vivem à nossa volta, sem esperar qualquer recompensa que não aquela de poder trabalhar na vinha do Senhor.


Ou, como diz o Santo Padre Francisco: "Assim como a Igreja é missionária por natureza, também brota inevitavelmente dessa natureza a caridade efectiva para com o próximo, a compaixão que compreende, assiste e promove" (EG 179).


+ Nuno, Bispo Auxiliar de LIsboa

 

 


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