Icon Lupa Icon Menu
Início
icon seta icon seta icon seta icon
Comunicação na Igreja: desafios e oportunidades (sendo Cristo o critério)
Imagem do artigo Imagem do artigo
Cardeal-Patriarca de Lisboa

Comunicação na Igreja: desafios e oportunidades (sendo Cristo o critério)

Intervenção nas Jornadas de Formação Permanente do Clero


O cristianismo é essencialmente comunicação

1. O cristianismo é essencialmente comunicação e assim deve ser a vida da Igreja, como “corpo eclesial de Cristo”. Escrevo “essencialmente” porque é comunicação do próprio Deus na pessoa de Cristo, Verbo de Deus incarnado, isto é, comunicado em palavras e gestos concretos. Palavras e gestos que se reproduzem nos herdeiros do seu Espírito: «Quem vos ouve é a mim que ouve» (Lc 10, 16), diz aos 72 que havemos de ser todos nós, a Igreja.

Os textos joânicos são muito explícitos neste sentido, em relação a Cristo e também aos seus discípulos, de então e de agora. Logo no prólogo do Quarto Evangelho: «E o Verbo fez-se carne [isto é, palavra audível e gesto entendível] e habitou entre nós» (Jo 1, 14).

Depois, de nós para os outros, com o mesmo realismo de palavras e gestos, na Primeira Carta de João: «O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, e que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida […], isso vos anunciamos, para que também vós estejais em comunhão connosco. E nós estamos em comunhão com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Escrevemo-vos isto para que a nossa alegria seja completa» (1 Jo 1, 1-4).

Reparemos como neste trecho se consegue abarcar em poucas linhas a comunicação cristã e eclesial na sua totalidade, quer na transmissão existencial do que se viu, ouviu e experimentou, quer no arco total da comunhão com o próprio Deus e com os outros. Notemos também a alegria que daí resulta para quem comunica. E isto em qualquer circunstância, nem sempre fácil e até hostil, como acontecia naquela altura.


O modo de comunicar de Jesus

2. Tenha-se em conta o modo de comunicar de Jesus, único modelo da sua Igreja: comunica-se na Igreja quando se comunica à maneira de Cristo. Contrasta muito com o que geralmente acontece em termos de “publicidade”.

Lembremos o chamado “segredo messiânico”, especialmente acentuado pelo Evangelho de São Marcos. Jesus recusa a popularidade fácil que desviaria as atenções do que realmente pretendia, para o bem integral das pessoas, muito além de qualquer desígnio político ou triunfalismo “religioso”.

É uma nota a reter para toda a ação pastoral, se quiser manter-se na órbita cristã propriamente dita. São vários os trechos nesse sentido. Todos eles insistem nesta reserva de Jesus, embora acrescentem que dificilmente era respeitada…

Em relação a um leproso que curou: «Imediatamente a lepra deixou-o, e ficou purificado. E logo o despediu, dizendo-lhe em tom severo: “Livra-te de falar disto a alguém […]”. Ele, porém, assim que se retirou, começou a proclamar e a divulgar o sucedido…» (Mc 1, 42 ss).

Também no episódio com a filha de Jairo, que tomavam por morta: «Tomando-lhe a mão, disse: “Talitha qum!”, isto é, “Menina, sou Eu que te digo: levanta-te!”. E logo a menina se ergueu e começou a andar, pois tinha doze anos. Todos ficaram assombrados. Recomendou-lhes vivamente que ninguém soubesse do sucedido e mandou dar de comer à menina» (Mc 5, 41-43).

No caso do surdo-mudo, o contraste entre a ordem de Jesus e o que aconteceu depois ainda é mais acentuado: «Erguendo depois os olhos ao céu, suspirou dizendo: “Effathá”, que quer dizer “abre-te”. Logo os ouvidos se lhe abriram, soltou-se a prisão da língua e falava corretamente. Jesus mandou-lhes que a ninguém revelassem o sucedido; mas quanto mais lho recomendava, mais eles o apregoavam» (Mc 7, 34-36).

É certo que estes trechos se referem à atuação pré-pascal de Jesus e ao seu cuidado em não ser tido como mais um “messias” político-religioso de êxito imediato e fácil. Lembrados na primitiva tradição e passados a escrito nos Evangelhos que temos, aparecem como sinais do Reino que implantou e nos recupera totalmente em Deus e para Deus.

Assim são legitimamente proclamados sobre os terraços, mesmo que acontecidos discretamente (cf. Mt 10, 27). Creio, ainda assim, que a reserva messiânica de Jesus nos continua a indicar algo de importante para a nossa comunicação cristã, que deve ser muito testemunhal e evitar êxitos fáceis. O chamado “tempo real”, com que apressadamente se propala o que afinal nem se conhece, não é o tempo “pessoal” de ninguém. Espanta ou distrai, mas não converte nem transforma.


O magistério e a comunicação social

3. Lembrando que entre 1776 e 2009 se contam mais de duzentos documentos do magistério eclesiástico sobre a comunicação social, Angelo Bertani refere quatro etapas na relação entre a Igreja e os mass media: 1º) de hostilidade; 2ª) de descoberta; 3ª) de autossuficiência; 4ª) de diálogo (cf. Il Mar Rosso da attraversare, in L’era della comunicazione. Introduzione a Inter Mirifica, a cura di A. M, Valli e M. Ronconi, Milano, Periodici San Paolo, 2009, p. 18 ss).

O jornalismo e a imprensa em geral, acompanhando a liberalização da sociedade e a extinção da censura prévia, mesmo em matéria religiosa, provocou naturalmente reações do magistério papal e episcopal, ao longo do século XIX, em termos de auto-defesa e mesmo condenação.

Com o tempo, foi-se descobrindo e valorizando o papel da “boa imprensa”, que com armas iguais podia defender e apresentar a doutrina e a moral católicas.

Entretanto, as clivagens culturais, sociais e políticas, aumentaram ainda mais no século XX, parecendo não haver espaço senão para acentuar a autossuficiência da proposta católica nos vários meios de comunicação agora disponíveis e próprios quando possível.

Do Concílio em diante, prevaleceu outra mentalidade, sendo os media uma ocasião de partilha e diálogo onde os católicos hão de participar também, face a problemas e aspirações que são em grande parte comuns à humanidade em geral.


A comunicação social e eclesial é mais do que uma técnica

4. O mais importante, porém, será percebermos que a comunicação social é hoje muito mais do que um conjunto de meios técnicos, em evolução constante, para transmitir ideias e influenciar a sociedade neste ou naquele sentido, comercial ou cultural.

É um “meio” sim, mas sobretudo no sentido de “meio ambiente” em que todos coabitamos e sem margem de auto-exclusão. Ou intervimos ou sofremos pela ausência.

É certo que a espontaneidade e a simplicidade de quem intervém a partir do que vive e do que crê são importantes e tornam-nos credíveis. Porém, no que respeita à comunicação como exercício, as sociedades como a nossa só aparentemente são simples e espontâneas, antes denotam de modo mais ou menos claro, grande sofisticação de técnicas e processos. Assim sendo, a comunicação tanto exige disponibilidade como preparação.

Os últimos Papas tanto nos alertam para os desafios como para as oportunidades da comunicação social, na sociedade e na Igreja. Se dizemos que “viver é conviver”, também podemos dizer que “viver é comunicar”. As comunidades cristãs deviam ser boas “escolas de comunicação” no sentido existencial e relacional do termo. Aliás, assim começou a ser com Jesus e a sua “escola dos discípulos”.

E assim continuou com São Paulo, que soube escolher os locais mais propícios para a difusão da mensagem e deu indicações precisas para a sua circulação. Por exemplo, neste trecho da sua Carta aos Colossenses: «Quando esta carta tiver sido lida entre vós, fazei com que seja lida também na igreja de Laodiceia para que também ali seja lida. Lede também a que receberdes da igreja de Laodiceia» (Col 4, 16).

No que à vida da Igreja diz respeito, a insistência atual na sinodalidade vai nesse sentido, porque um “caminho conjunto”, só se realiza com gosto e capacidade de participar. É também uma questão de presença e de linguagem adequada para comunicar realmente. E capacidade de escutar e de dizer. No plano interno é fundamental a educação para a corresponsabilidade e a participação comunitária, quer nas instâncias previstas (conselhos pastorais e económicos, por exemplo), quer nas iniciativas eclesiais que vão surgindo.


O que Jesus nos ensinou quanto à linguagem

5. Quanto às linguagens, também Jesus nos ensinou muito. Sabia escutar e por isso comunicava bem com qualquer interlocutor, tanto precisando a pergunta que lhe faziam, como alargando a resposta que dava, para que servisse a todos, como ainda nos serve a nós.

Sabia usar imagens fortes e contar histórias breves e tão sugestivas que criaram cultura, muito para além do espaço confessional estrito: “bons samaritanos”, “filhos pródigos” ou “talentos” entraram na linguagem universal para designar atitudes básicas e comuns.

Sabia comunicar por palavras e atitudes realmente marcantes, fazendo pensar, mesmo quando guardava silêncio. Silêncio com que reagia a expetativas e perguntas descabidas, como perante Herodes: «Ao ver Jesus, Herodes ficou extremamente satisfeito, pois havia bastante tempo que o queria fazer, devido ao que ouvia dizer dele, esperando que fizesse algum milagre na sua presença. Fez-lhe muitas perguntas, mas Ele nada respondeu» (Lc 23, 8-9). Silêncio, quando o que já dissera era resposta bastante, como perante Pilatos: «”Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.” Pilatos replicou-lhe: “Que é a verdade?”» (Jo 18, 37-38). Não obteve outra resposta que não fosse a própria pessoa de Jesus à sua frente… Diante da inflação verbal em que estamos, convém sublinhar que quem comunica vale antes de mais por si próprio. A pessoa já é mensagem.

Em tudo isto se revelava perfeito comunicador do que dizia trazer-nos de Deus Pai, sua primeiríssima escuta e garantia da universalidade da mensagem, mesmo quando aplicada caso a caso. Como é claro neste trecho: «Eu não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, é que me encarregou do que devo anunciar. E Eu bem sei que este seu mandato traz consigo a vida eterna; por isso, as coisas que Eu anuncio, anuncio-as tal como o Pai as disse a mim» (Jo 12, 49-50).

Este ponto é muito de reter na comunicação interna e externa que fizermos, para que siga a do próprio Cristo. Comecemos sempre por ouvir a Deus, na Palavra que nos dirige em Cristo e no eco com que ressoa no nosso íntimo em cada tempo e circunstância. Os grandes comunicadores cristãos foram pessoas de escuta interior, tanto ou mais do que exterior. Falaram de dentro, para dizerem realmente alguma coisa importante.


O essencial é tornar as pessoas verdadeiramente melhores

6. O essencial é sempre a pessoa humana e o seu aperfeiçoamento.

Concluo com uma citação do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 415 que tendo em conta a evolução da doutrina neste campo – do decreto conciliar Inter Mirifica, nº 3, de 1964, à exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, nº 45, de 1976, à encíclica Redemptoris Missio, nº 37, de 1991, às instruções pastorais Communio et Progressio, nº 126-134, de 1971, Aetatis Novae, nº 11, de 1992, e Ética na Publicidade, nº 4-8, de 1997 – nos lembra o critério fundamental neste campo: «Os meios de comunicação social devem ser utilizados para edificar e apoiar a comunidade humana nos vários setores – económico, político, cultural, educativo, religioso».

Edificar e apoiar a comunidade humana, para que ela seja isto mesmo, “comunidade” no âmbito eclesial e da sociedade em geral, de todos para todos e a partir de cada um, respeitado e valorizado como tal.

E o Compêndio adianta, no mesmo número: «A questão essencial concernente ao atual sistema informativo é se ele contribui para tornar a pessoa humana verdadeiramente melhor, isto é, espiritualmente mais madura, mais consciente da dignidade da sua humanidade, mais responsável, mais aberta aos outros, sobretudo aos mais necessitados e aos mais pobres. Um outro aspeto da grande importância é a necessidade de que as novas tecnologias respeitem as legítimas diferenças culturais».

Em cada um destes itens temos desafios e oportunidades no campo da catequese e da formação para comunicarmos na Igreja e nos projetarmos no mundo. O modelo é sempre o próprio Cristo e o seu modo de comunicar, com os discípulos ou com quem quer que fosse, poucos ou muitos.


Seminário dos Olivais, 24 de janeiro de 2023

+ Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa


© 2023 - Patriarcado de Lisboa. Todos os direitos reservados.
Patriarcado Simbolo