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Homilia na Solenidade de São Vicente
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Homilia

Homilia na Solenidade de São Vicente

Como mártir e diácono que foi


São Vicente está há muito ligado à nossa diocese, na devoção e no padroado. Depois de Lisboa ser portuguesa e muito antes, com os cristãos moçárabes que aqui viviam – ou sobreviviam. Terá sido mesmo este facto a motivar D. Afonso Henriques a trazer-lhe as relíquias do cabo algarvio onde se guardavam e veneravam, ainda sob domínio árabe.

Guardaram-se depois nesta Sé, onde hoje estão, no pouco que delas resta, suficiente para lhe lembrar a memória. Melhor dizendo, o que elas significam e reclamam da nossa parte, para sermos verdadeiras testemunhas de Cristo, como ele o foi em Valência, na última grande perseguição romana.

O seu martírio foi sobremaneira violento, pois se o fizessem renegar a Cristo seria uma grande vitória para os pagãos. Venceu-os ele – como o seu nome já prometia – e o cristianismo que encarnava triunfou assim e perpetuou-lhe a memória.

Aos textos bíblicos que escutámos, também ele os conhecia. Certamente lhe ressoavam na alma, mesmo naquelas circunstâncias, as palavras de Ben-Sirá: «Cercavam-me de todos os lados e ninguém me socorria. Lembrei-me, Senhor da vossa misericórdia e das vossas obras das eras passadas, porque livrais aqueles que esperam em Vós e os salvais das mãos dos inimigos». Daria a estas palavras o sentido absoluto que ganharam em Cristo, cuja morte não foi vida a findar, antes a ressuscitar.

Por isso repetiria as palavras que ouvimos a São Paulo: «Assim como abundam em nós os sofrimentos de Cristo, também por Cristo abunda a nossa consolação». E sobretudo as do próprio Jesus: «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto». Porque os verdadeiros mártires cristãos – como hoje continuam a ser tantos, por esse mundo além – vencem a dor pelo amor e assim mesmo alcançam a vida, para si e para os outros.

Tudo isto significa, para quem venera São Vicente e o tem como padroeiro, um apelo forte à fidelidade evangélica, testemunhada na vida, traga esta o que trouxer, de modo ou cruento ou incruento.



Não se trata de sermos muitos ou poucos, mais ou menos do que em outras épocas supostamente seríamos. No tempo de São Vicente os cristãos ainda eram relativamente poucos, na larga Ibéria romana. Mesmo aqui na nossa Olissipo, onde guardamos notícia de mártires desse tempo, temos de esperar pela segunda metade do século IV para encontrarmos o primeiro bispo conhecido, sinal duma comunidade minimamente estruturada. E assim avançávamos.

Trata-se de sermos autênticos e claros, hoje como ontem, como foi Vicente, mártir e diácono, ou seja, testemunhas de Cristo e servidores de todos, com especial atenção aos mais pobres, de todas as pobrezas que sejam.

Precisamente assim, venha o que vier e custe o que custar. Os relatos do martírio de São Vicente, os sermões que cedo lhe dedicaram, acentuam que era o próprio Cristo que nele prolongava a sua cruz e assim mesmo lhe assegurava a vitória. Como cantamos no hino: «Morrendo nos vossos mártires, em todos viveis Senhor!» Impressiona confirmar, em tantos relatos de martírios mais recentes, a mesma convicção triunfadora.

Celebrar São Vicente neste tempo que é o nosso, significa muito mais do que uma efeméride litúrgica. Significa revermo-nos nele e assim nos reencontrarmos com o Evangelho a que aderiu. Os ritos e as cores que aqui trazemos traduzem isso mesmo – ou não seriam quase nada.

O serviço mais urgente que temos de prestar é o de comprovarmos, por palavras e por obras, que tudo quanto Cristo trouxe ao mundo continua bem vivo na vida dos cristãos, herdeiros do seu Espírito. Na vida de Cristo em nós, poderemos também dizer. É esse o martírio, o testemunho a dar, tão esperado hoje como sempre o foi e sempre será.

Próximos de todos, com a proximidade com que Deus nos alcançou em Cristo e nós devermos prolongar em relação a cada um, família a família, ocupação a ocupação, local a local. Aí mesmo, na extensão da nossa diocese, como foi Vicente de Saragoça a Valência, na extensão do seu martírio.

Há muito Evangelho a pôr no mundo, como também há muito mundo a resistir-lhe, sem precisarmos de sair de nós mesmos e do que nos falta converter a sério, em pensamentos e palavras atos e omissões.

Falta sempre muito, falta sempre mais. Celebrar São Vicente como nosso padroeiro é um apelo forte e decisivo à conversão, pois ou se vive o Evangelho como ele o viveu ou não corresponderemos ao padroado que nos presta.


Graças a Deus e com a graça de Deus, não faltam na diocese atitudes e expressões em que São Vicente decerto se revê. Não faltam testemunhos sérios de Evangelho vivo em exemplos sacerdotais, diaconais, consagrados e laicais, que irradiam a luz de Cristo. Graças a Deus e certamente com a intercessão de Vicente.

Mas reconheçamos que há muito a fazer, para que o Evangelho que ele testemunhou e serviu chegue a muita gente no nosso espaço, seja a antigos residentes, por vezes já esquecidos da fé dos seus antepassados, seja aos que chegam agora e não conhecem a Cristo nem o que Ele trouxe ao mundo. Sim, reconheçamos o que Cristo trouxe ao mundo, em termos de realização humana e de horizonte divino tão inteiramente ligados.

No que se pensa - ou nem sempre, infelizmente - em relação à dignidade da vida humana e do que esta inclui no seu arco natural completo; e do que esta requer, desde a educação integral, que nos liga à criação e ao Criador, até a tudo o que é preciso como habitação, trabalho, saúde e companhia, para sermos uma sociedade digna deste nome: pessoas com pessoas, todos com todos e cada um.

Poucas “relíquias” nos restam do que Vicente foi neste mundo. Muitas mais seremos nós próprios, se o continuarmos agora, como ele continuou a Cristo. Somos hoje muitos mais do que eram naquela altura. Não sejamos menos, no testemunho que dermos!

Não esqueçamos ser ele um dos padroeiros da próxima Jornada Mundial da Juventude, tão especialmente nossa, no acolhimento e no serviço que prestarmos à multidão juvenil que aí virá. Outro modo de o lembrar como mártir e diácono que foi, ou seja, como testemunhas de Cristo e servidores solícitos. – Só assim retribuiremos o padroado que nos dá!


Sé de Lisboa, 22 de janeiro de 2023

+ Manuel, Cardeal-Patriarca


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