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Homilia na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo
21 de Novembro de 2021
Homilia
Homilia na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo

A verdade e o exercício do Reinado de Cristo 

Caríssimos irmãos no episcopado, sacerdócio e diaconado; caríssimos consagrados e fiéis leigos:

Celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo e bom será que lhe guardemos o significado completo, como a Liturgia o apresenta. O nome próprio é Jesus, a qualificação é Cristo, o reconhecimento é como Nosso Senhor e a amplitude é o universo inteiro.

O nome próprio é Jesus, já de si revelador, pois significa “Deus salva”. A qualificação foi sua, quando na sinagoga de Nazaré afirmou cumprir-se em si mesmo a antiga profecia messiânica (Messias é Cristo em grego e Ungido em português). O reconhecimento fê-lo Tomé, quando, já rendido à sua presença ressuscitada, exclamou por todos nós: “Meu Senhor e meu Deus!”. A amplitude universal do seu reino é a que nos surpreende na imensa Galileia do mundo.

Confessá-Lo assim e celebrá-lo hoje é certificar em cada um de nós e testemunhar a todos aquilo mesmo que O ouvimos dizer a Pilatos: «É como dizes: sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.» Definição essencial do seu modo próprio de reinar. Não se impõe exteriormente, por qualquer forma de mando ou coação, como acontecia com o império daquele tempo e nos de antes e depois. Melhores ou piores no que conseguem, duram enquanto duram e deixam o que deixam de memória positiva ou nem isso.

O certo é que o império que Pilatos representava tinha expansão intercontinental e um poder imenso. Diante dele estava apenas um homem condenado. No entanto, ao poder exterior e impositivo contrapunha-se a verdade íntima, essencial e livre de tudo o que Jesus trazia em si mesmo, de Deus para o mundo. Não tardou muito que o império exterior começasse a ruir e a verdade de Jesus começasse a reinar. Precisamente a que aqui confirmamos, gratos e convictos.

Convictos, permito-me insistir. Faço-o especialmente, porque revivemos hoje o cinquentenário da entrada nesta sé de D. António Ribeiro, como patriarca de Lisboa. Mantendo bem vivas na nossa memória tantas qualidades pessoais e pastorais que o ornavam, ressalta decerto a da convicção que mantinha e nos ajudava a manter da verdade cristã, viesse o que viesse. Lembro como insistia em que, além de sinceros, importava sermos verdadeiros.  

Durante o seu ministério patriarcal sobrevieram de facto muitas e variadas coisas. Os anos setenta foram caraterizados pela receção do Concílio, que ele nunca hesitou em levar por diante, no respeitante à vida eclesial em si mesma e na relação com o mundo, mas resistindo sempre à intromissão de critérios mundanos na esfera eclesial propriamente dita. No Patriarcado foram anos de relançamento da formação sacerdotal e de planificação pastoral alargada, para corresponder ao que o Concílio indicara e as novas condições sociais e políticas exigiam. Serenamente, convictamente, D. António Ribeiro nunca deixou de prosseguir nessa senda.

Os anos oitenta, entre tudo o mais, foram muito férteis no campo da pastoral juvenil. Quando nos preparamos agora para a próxima Jornada Mundial da Juventude, cabe relembrar que o método de convocar periodicamente um grande número de jovens para se confirmarem na fé e celebrarem em uníssono a presença de Cristo neles e para todos foi ensaiado aqui pelo Cardeal Ribeiro e pode não ter sido alheio à iniciativa das Jornadas, como São João Paulo II as alargou depois. 

E assim prosseguiu, quando dos anos oitenta para os noventa subiram de tom e mau efeito as propostas fraturantes, atingindo o âmago da vida de cada um, da conceção à morte natural, e das próprias bases familiares da sociedade. Mas também no largo campo das necessidades humanas, outras tantas fronteiras onde o Reino de Cristo nos coloca. Nunca nos faltou a sua palavra certa, a lucidez da análise e o testemunho pastoral. Sereno e convicto como sempre.



É oportuno voltar a ouvi-lo, para exemplificar o que vai dito. A partir daqui, será a sua voz a ressoar, nesta sé que tanto serviu e honrou. Como num trecho de 13 de abril de 1979, celebrando a Paixão do Senhor. Trecho em que acentua a verdade de Cristo, substância do Reino, para logo a aplicar à verdade do homem, que há de ser respeitada e servida: «Dar testemunho da verdade. Este constitui, realmente, o objetivo da presença de Jesus Cristo no mundo. Dar testemunho destemido e claro da verdade de Deus e da verdade do homem. […] Não nos podem ser indiferentes a realização e a promoção humana integrais. Onde há um homem, há uma imagem de Deus, um santo pelo menos em vocação, um ser pelo qual Jesus Cristo derramou o seu sangue. Onde se ofende um homem, ofende-se Cristo, injuria-se o Céu.» E especificava, para situações que continuam a reclamar-nos, aos obreiros do Reino: «Nesta celebração da Paixão do Senhor, tenhamos presentes todos os homens do mundo, especialmente os mais desfavorecidos, os pobres, os doentes, os presos, os atribulados, os que não têm casa nem pão, os que são vítimas da injustiça.» 

Convicção também da necessidade de resolver com Deus o que Deus quis resolver connosco na vida de Jesus, Sua palavra incarnada. Assim advertia a 3 de abril de 1983, Domingo de Páscoa: «Certo é que os homens devem falar e discutir uns com os outros […]. Mas igualmente deveriam nunca esquecer que há problemas fundamentais, os grandes problemas do homem e do sentido da vida humana, que não se resolvem se não forem conversados com Deus. Muitos diálogos são estéreis e até geradores de angústia porque lhes falta um interlocutor necessário: Nosso Senhor Jesus Cristo.» 

Lembrando o ministério patriarcal de D. António Ribeiro, com presença significativa de sacerdotes por ele ordenados, cabe retomar algo do muito que disse sobre a nossa identidade e missão. Um tópico recorrente da verdade em que insistia, tão necessário na altura como continua a ser hoje. A dificuldade está na escolha, pois são muitos e luminosos os trechos que dedicou ao tema. Como o que segue, de redobrada atualidade, para não dizer profecia. É da Missa Crismal de 19 de abril de 1973, ainda nos começos do seu ministério patriarcal: «O problema da identidade e da missão do sacerdote só se esclarece à luz da fé. Não conseguirá ver o padre quem para ele dirigir apenas os olhos míopes de um pensamento crítico e racionalista que liminarmente rejeita toda a presença sobrenatural de Deus na história dos homens e reduz o cristianismo a uma moral universal. […] Quando se pretende reduzir Jesus Cristo à dimensão do simples homem, embora genial, e a Igreja à categoria sociológica de mera agremiação humanitária, ainda que credora de relevante papel no desenvolvimento da consciência moral, de admirar seria que a imagem do padre, moldada em Cristo e na Igreja, não sofresse o impacto da mesma agressão.»

Não poderia ser mais lúcido o diagnóstico, nem mais certeira a conclusão. Não para afastar o padre da humanidade que compartilha, nem para o afastar do todo eclesial, mas sim para o habilitar no serviço próprio que Cristo lhe confia, para o bem de todos. Oiçamo-lo mais de vinte anos depois, na Missa Crismal de 13 de abril de 1995: «A afirmação clara da alteridade do padre não o segrega, nem o desvincula do conjunto dos fiéis. Os padres não constituem uma tribo, nem são membros de uma casta seleta. São cristãos entre os cristãos e para estes são padres. […] A convergência, porém, não dissolve as diferenças, antes as pressupõe. E será sempre próprio e exclusivo do ministério ordenado, em virtude do carisma apostólico, de que só ele é portador, fazer as vezes de Cristo no seio da comunidade, gerar e formar na fé o povo sacerdotal, e conduzi-lo, na comunhão de um único povo peregrino, até à Casa do Pai.» E concluía com palavras indispensáveis no caminho conjunto que prosseguimos hoje, entre o Sínodo Diocesano que realizámos e o Sínodo dos Bispos que preparamos: «De nenhum modo, todavia, os ministros ordenados podem absorver, no seu carisma, todos os demais dons que o Espírito concede aos outros membros da Igreja, quando e como quer. Pelo contrário, é dever da hierarquia respeitá-los, promovê-los e coordená-los adequadamente. O carisma hierárquico não é a síntese dos ministérios, mas sim o ministério da síntese.» 


Quando tudo nos encaminha sobremaneira para a próxima Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, deixemos ainda ecoar a voz de D. António Ribeiro
, em 1995, a propósito de idêntica realização. Reparemos como é sempre da verdade que ele trata, como havia de ser para cada jovem e de cada um deles para todos, jovens e outros em geral: «Sei que tendes fome e sede de verdade. O vosso coração anda inquieto e por vezes perturbado, sem saber em quem confiar, em quem pôr a sua esperança, em quem lançar a sua aposta. […] Não vos esqueçais, todavia de que a Igreja é vossa companheira de viagem. Quer caminhar convosco e convida-vos a meter os pés ao caminho […]. A Igreja tem para vos oferecer o que de melhor podeis encontrar: Jesus Cristo e o seu Evangelho. E confia-vos a tarefa, realmente apaixonante, de levardes Cristo e a sua mensagem aos homens e mulheres do nosso tempo.» Reparemos na sequência programática, para o que havemos de fazer também: Corresponder ao anseio juvenil com a verdade evangélica e mobilizar os jovens para a levar a todos. É esta a verdade e o exercício do Reinado de Cristo.

Termino com a última frase que ouvi ao Cardeal Ribeiro, já no seu leito de enfermo: «Estou à espera que Ele venha…». Lembrar-se-ia então da promessa que escutámos há pouco, no Apocalipse: «Ei-Lo que vem entre as nuvens, e todos os olhos O verão…». E assim aconteceu com ele, para agora nos inspirar a nós. Agradeçamos a Deus ter-nos dado tão grande pastor e saibamos honrar o legado que deixou. 


Sé de Lisboa, 21 de novembro de 2021


+ Manuel, Cardeal-Patriarca          



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