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Homilia na Solenidade da Dedicação da Sé
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Homilia

Homilia na Solenidade da Dedicação da Sé

Um templo vivo, comunitário e expansivo 

Irmãos caríssimos

Celebramos a Dedicação da nossa Sé Patriarcal de Lisboa com renovados sentimentos de unidade e missão.
Unidade para a missão, como sequência inevitável e recíproca, pois não há missão que não seja conjunta, mesmo quando pessoalmente efetivada, e porque nada nos une mais e melhor do que uma tarefa comum.
Nisso mesmo se reconhece sinodalmente a Igreja, como aquela “caravana” (sunodía) em que o jovem Jesus foi a Jerusalém com Maria e José (cf. Lc 2, 44). Ou como aquele grupo dos Doze e algumas mulheres que com ele seguiram mais tarde, de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus (cf. Lc 8, 1-2).
Fixemos estes dois pontos absolutamente inseparáveis: Caminhavam juntos e transmitiam o Evangelho vivo que consigo levavam e era o próprio Cristo. Todo o caminho sinodal que estamos a fazer, do nosso sínodo diocesano (2014-2021) para o sínodo dos bispos (2023), é muito mais do que mera reforma de estruturas, em que aliás continuaremos a insistir, para todos sermos mais corresponsáveis em ministérios e serviços. Define-se e concretiza-se como caminho com Cristo, necessariamente comunitário e teologicamente orientado. 
Necessariamente comunitário, não só para evitar subjetivismos e protagonismos desenquadrados, mas sobretudo porque a comunidade é o lugar por excelência do encontro de Cristo vivo entre os seus: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18, 20). E teologicamente orientado, por ser caminho para Deus Pai, realizado e celebrado «por Cristo, com Cristo e em Cristo, na unidade do Espírito Santo». Também a própria vida divina se poderá considerar “sinodal”, em si mesma e no que faz, como Jesus esclareceu: «O meu Pai continua a realizar obras até aqui, e eu também continuo!» (Jo 5, 17).      
São muito sugestivas estas imagens evangélicas, para nos entendermos como Igreja na cidade e no mundo. É de um grupo em movimento que se trata, mesmo que com pausas e lugares certos de encontro e celebração. Sem esquecer que a celebração se conclui sempre com um “Ide…”. Esta própria sé tem inscrito no pórtico um versículo missionário: «Por toda a terra se expandiu o som…», lembrando as Igrejas que diretamente ou indiretamente tiveram origem em Lisboa.



Hoje em dia, com imigrantes e residentes de mais de uma centena de povos e variadas religiões e culturas
, temos ao pé da porta uma missão de torna-viagem, que nem nos dispensa de olhar para mais longe nem nos exime de trabalhar bem perto. Mais uma vez relembro e aplico à nossa diocese o número 46 da exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa, de São João Paulo II: «A Europa faz parte já daqueles espaços tradicionalmente cristãos, onde, para além duma nova evangelização, se requer em determinados casos a primeira evangelização. […] Mesmo no “velho” continente existem extensas áreas sociais e culturais onde se torna necessária uma verdadeira e própria missio ad gentes».
Somos Igreja sinodal, porque assim nos redescobrimos e com maior urgência, em comunhão e missão. E aqui mesmo, na cidade e seus arredores, onde se concentra tanta variedade de povos e culturas. Temos de colaborar com a sociedade em geral, tecendo uma interculturalidade que nos aproxime, com mútuo respeito e partilha, e não ficando por uma mera pluriculturalidade que nos tornasse indiferentes ao melhor do que cada um transporta e criasse guetos impermeáveis e desconfiados entre si. 
Aliás, é altura de redescobrirmos o essencial do que o Evangelho nos oferece, precisamente quando o oferecemos a quem não o conheça nem nunca tenha ouvido falar dele. Neste sentido, podemos dizer que nos reencontraremos para além de nós e com o que oferecermos aos outros; e também com o que deles pudermos receber, em sinodalidade mais alargada.
Já temos na Igreja de Lisboa várias comunidades católicas nacionais, que se encontram e celebram nas suas próprias línguas, além da nossa que já sabem ou vão aprendendo e enriquecendo. Contamos com elas para serem parte muito especial e integrante do nosso caminho sinodal e missionário. 

O Evangelho que escutámos fala-nos da indignação de Jesus quando viu o templo transformado no que não devia ser:
«Tirai isto daqui – bradou ele aos vendedores e cambistas – não façais da Casa de Meu Pai casa de comércio». Isto no relato de São João. Os paralelos dos outros evangelistas, acentuam que o templo era e devia ser “casa de oração”.   
É um ponto a reter, pastoralmente também. Há muito a fazer, com criatividade e empenho, para que os nossos templos sejam isso mesmo e ofereçam à cidade espaços de celebração comunitária e também de silêncio meditativo e orante. Dignos espaços, onde a lembrança de Deus proporcione a cada um a lembrança de si mesmo, no que tem de mais profundo e tantas vezes escondido aos próprios olhos, pela vida que muito corre e dispersa. 
A purificação do templo antigo, como Jesus a fez naquele dia, também passa hoje por aqui. Esta sé, como outros templos da cidade, é de facto um monumento, culturalmente atrativo e relevante. Mas, se monumento significa a lembrança de algo, importa esclarecer que é essencialmente lugar de anamnese da vida que Jesus entregou por todos nós, para nos reencontrarmos também como filhos de Deus e verdadeiramente irmãos. Se assim não for, a cultura desliga-se do culto e esvazia-se de si mesma. 
Ouvimos também no Evangelho há pouco proclamado: «Jesus respondeu-lhes: “Arrasai este Templo, e eu o levantarei em três dias.” […] Jesus falava do templo do seu corpo». Sim, irmãos, esta nossa catedral de pedra é muito mais do que um monumento entre outros da cidade. É, pela sua própria arquitetura, pelas palavras e os ritos litúrgicos, pelo espaço que entra no íntimo de quem realmente a compreende, como que um sacramental de Cristo, que em si nos incorpora, como templo vivo, comunitário e expansivo. Não é por acaso que a fase diocesana do Sínodo dos Bispos se inicia aqui: A primeira igreja da diocese é sinal da ampla casa de nós todos. 
Também assim se começará a cumprir a profecia que ouvimos, falando por Deus e dirigida a todos: «A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos». Da nossa parte, requer-se autenticidade eclesial, litúrgica e missionária, acolhendo, celebrando e propondo em conjunto. Deus só espera que o façamos, para realizar tudo o mais, sendo Ele próprio a operar em nós o querer e o agir (cf. Fl 2, 13).
Avancemos pois, para que a dedicação desta sé relembre e ative a dedicação de todos, em convicta sinodalidade missionária!


Sé de Lisboa, 25 de outubro de 2021

+ Manuel, Cardeal-Patriarca


Abertura da fase diocesana do Sínodo e Dedicação da Sé


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