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Intervenção na inauguração da Faculdade de Medicina da UCP
14 de Setembro de 2021
UCP
Intervenção na inauguração da Faculdade de Medicina da UCP


Senhoras e Senhores

Sede bem-vindos à Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa. Bem-vindos o Senhor Primeiro Ministro e o Senhor Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior; bem-vindas as autoridades autárquicas e académicas; bem-vindas a atual e as anteriores equipas reitorais da Universidade Católica, que tanto trabalharam para que este momento acontecesse; bem-vindos os professores, alunos e funcionários da nossa nova escola; bem-vindos os convidados e amigos aqui presentes, ou que nos seguem mediaticamente.

Porque estas são breves mas sentidas palavras de boas-vindas. Dirijo-as muito especialmente à nossa Magnífica Reitora e à Medicina enquanto tal, saber integrante da Universidade no seu todo, como investigação e ensino.

De certo modo, trata-se de um regresso. Na verdade, a Universidade nasceu como saber interligado, em que cada ramo se conjugava com os outros. Mesmo que nem todos os antigos “Estudos Gerais” conseguissem realizar imediatamente tal desígnio, era esse o objetivo a alcançar.

Cabe nesta altura um brevíssimo relance sobre a origem da Universidade em Portugal. Primeiro o conceito, como Afonso X de Leão e Castela, avô materno do nosso D. Dinis, o definiu em meados do século XIII, nas suas “Sete Partidas”: «Um estudo é uma associação de mestres e de escolares, feita num lugar com a vontade e a intenção de aprender os saberes». Sublinhe-se que tanto se conjugam mestres e alunos como a variedade dos saberes. 

Era este o objetivo, por isso mesmo “universal”, isto é, olhando o todo pela conjugação das partes, respeitando a especificidade de cada uma e olhando o fim comum e o serviço diversificado. Era esse o ideal de então e, quando possível, a prática, começando pelas Artes, e continuando pela Medicina, as Leis, os Cânones e finalmente Teologia. O percurso universitário seguido no estrangeiro pelo nosso Pedro Hispano, depois Papa João XXI (1276-1277), ilustra bem como se podia realizar, no todo ou em boa parte.     

Na última década desse mesmo século XIII, “escolástico” por definição, foi assim entre nós, pela ação conjugada da Igreja e do Estado, melhor dizendo, de um grupo de eclesiásticos e do rei D. Dinis. 

Numa bula de 9 de agosto de 1290, o Papa Nicolau IV acede ao pedido do abade de Alcobaça, dos priores de Santa Cruz de Coimbra, de São Vicente de Lisboa, de Santa Maria da Alcáçova de Santarém e de mais 22 reitores das principais paróquias do país, para a fundação do estudo geral, que aliás se propunham financiar. Escutemos o pedido: «Nós os acima nomeados, em companhia de pessoas religiosas, prelados e outros, assim clérigos como seculares dos Reinos de Portugal e Algarve […], consideramos ser muito conveniente aos Reinos sobreditos e seus moradores ter um estudo geral de ciências […]. Por estas causas pois, e muitas outras úteis e necessárias que seria dilatado relatar por miúdo, praticámos tudo e muito mais ao Excelentíssimo Dom Dinis nosso Rei e senhor, rogando-lhe encarecidamente se dignasse de fazer e ordenar um geral estudo na sua nobilíssima Cidade de Lisboa».

O objetivo imediato era a formação dos clérigos, mas logo incluiu outras causas “úteis e necessárias”, onde caberia a medicina.

Com este pedido coincidira D. Dinis, em carta de 1 março desse mesmo ano: «Ora, desejando Nós enriquecer nossos Reinos com este precioso tesouro, houvemos por bem ordenar, na Real cidade de Lisboa […], um Estudo Geral, que não só munimos com cópia de doutores em todas as artes, mas também roboramos com muitos privilégios» (textos transcritos por Fernanda Espinosa, Antologia de textos medievais, Lisboa, Sá da Costa, 1976, p. 236-238). 

Trouxe-vos estas alusões com o objetivo de ilustrar as boas-vindas que dei à Medicina na Universidade Católica Portuguesa. Regressa aonde deve estar, para que seja ainda mais “universal” e conjugado o âmbito das matérias contempladas. E não deixa de ser significativo que a existência desta Faculdade tenha novamente reunido a iniciativa da Igreja e o reconhecimento do Estado, como felizmente se conseguiu.

Assim justamente acontece, quer pela persistência multissecular do ideal universitário, quer pelas vontades que se juntam ao serviço do bem comum. Bem comum que comprovadamente se enriquece com o exemplo de Jesus Cristo, correspondendo à globalidade psicofísica e espiritual de cada pessoa.

- Bem-vinda a Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa!


+ Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa e Magno Chanceler da Universidade Católica Portuguesa

14 de setembro de 2021



(fotos: Ecclesia)


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