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Padre Manuel Luís é “nome cimeiro de uma liturgia que se reencontrou”
16 de Julho de 2021
Os 40 anos da morte do padre Manuel Luís
Padre Manuel Luís é “nome cimeiro de uma liturgia que se reencontrou”

O Cardeal-Patriarca de Lisboa recordou a “obra bela e carismática” do padre Manuel Luís. Nos 40 anos da morte do músico e compositor natural de Turquel, o Jornal VOZ DA VERDADE ouviu o pároco, um antigo aluno hoje padre, um sacerdote especialista em música sacra e um maestro, sobre o “grande impulsionador da música litúrgica” em Portugal após o Concílio Vaticano II.

“Caríssimos turquelenses: o vosso, o nosso, padre Manuel Luís foi absolutamente carismático e desenvolveu, como poucos, os talentos – no caso, musicais – que Deus lhe deu. Quem é que, nas igrejas em Portugal, não canta melodias do padre Manuel Luís? Que bom é verificar e celebrar esta obra de Deus que se realizou também através deste homem, deste sacerdote, deste magnífico compositor que eu ainda tive o gosto de conhecer”. Foi desta forma que o Cardeal-Patriarca de Lisboa lembrou o padre Manuel Luís, na celebração que assinalou os 40 anos da morte do compositor litúrgico.
Na “bonita igreja de Turquel”, na manhã de 11 de julho, D. Manuel Clemente lembrou o “ilustre turquelense” como “um grande sacerdote e um grande compositor de música litúrgica e não só”, e uma “pessoa tão integrada no que foi a reforma litúrgica” em Portugal. “A geração do padre Manuel Luís – e nós fomos herdeiros dela – foi descobrindo que a Igreja podia desempenhar-se melhor, conhecer-se ainda mais, numa celebração que, de alguma maneira, mantivesse a simplicidade dos gestos de Jesus Cristo, sem os atrapalhar, falando na língua materna”, apontou. “Ele pertence e é um nome cimeiro dessa geração de homens, grandes compositores de música sacra, que, em todo o nosso país, nos ofereceram estas melodias de uma liturgia que se reencontrou com a simplicidade e com a verdade das origens cristãs, e sobretudo com o sentido da assembleia”, acrescentou.
Na homilia, o Cardeal-Patriarca sublinhou que o padre Manuel Luís se distinguiu, “na sua vida, pela adesão a Jesus Cristo” e pela forma “como O repercutiu no mundo”, e lembrou o tempo de seminário, onde conheceu o compositor. “Havia composições acabadinhas de compor, que nos chegavam para ensaiarmos e irmos à Sé ou aos Jerónimos cantá-las, e que ainda nem impressas estavam. E com que alvoroço nós fazíamos isso, porque nos redescobríamos naquelas magníficas composições do padre Manuel Luís”, recordou.
D. Manuel Clemente destacou ainda o livro ‘Cânticos da Assembleia Cristã’, da autoria do compositor turquelense. “É uma obra magnífica, da qual todos nós somos devedores, tanto mais que ele conseguiu aliar, de modo ímpar, a grande beleza e a grande sabedoria – que ele tinha aprendido em Roma –, com uma enorme simplicidade da frase musical, que não nos distrai, mas nos integra nesse louvor divino. O padre Manuel Luís conseguiu fazer isso como ninguém”, terminou.


Turquel, “terra de músicos”
Pároco de Turquel desde 2013, o padre Ivo Santos lembra, ao Jornal VOZ DA VERDADE, que o padre Manuel Luís “foi muito querido” nesta comunidade. “Esta comemoração foi um reconhecimento da sua pessoa e do trabalho desenvolvido na renovação da música litúrgica a nível nacional e internacional”, assinala o sacerdote. Após a Missa, presidida pelo Cardeal-Patriarca, decorreu a colocação de flores na campa do sacerdote turquelense. “A comunidade procurou preparar bem estes momentos. Os preparativos começaram em dezembro passado, e a preparação maior foi do grupo coral, pois os cânticos foram cantados em polifonia”, conta o padre Ivo, de 36 anos, sublinhando que esta data “tem sido também ocasião para os mais novos conhecerem esta grande figura”. “Para assinalar este ano, serão realizadas mais iniciativas: uma exposição e um concerto”, anuncia.
O pároco refere ainda que “Turquel é uma terra de músicos”, e que a comunidade procura sempre cantar as obras do filho da terra. “O padre Manuel Luís é também fruto desta tradição que recebeu e que desenvolveu com os estudos de música sacra. Ele continua a ser uma inspiração para uma liturgia viva e que fomente a participação da assembleia cristã. Temos uma especial atenção para que muitos dos cânticos sejam da sua autoria. Neste encargo, temos o maestro José António Luís, que tem composto algumas harmonizações a partir dos cânticos do padre Manuel Luís”, destaca o padre Ivo Santos.


Melodias simples e profundas
Também compositor, o padre Teodoro Sousa é um antigo aluno do padre Manuel Luís, no tempo de seminário. “O estilo do padre Manuel Luís era dele, em primeiro lugar, embora bebesse do ambiente musical da época, sobretudo no que se refere às harmonizações. As suas melodias são simples, sem serem banais; são profundas, sem serem académicas. As suas harmonizações são, muitas vezes, inesperadas e subtis, mais contrapontísticas do que corais. Compor cânticos que ajudem as pessoas a rezar, que sejam simples, mas não banais, é o principal legado que o padre Manuel Luís me deixou. Bem-haja, mestre”. É em tom agradecido que o padre Teodoro recorda, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o seu antigo professor. “O padre Manuel Luís foi meu professor de música no Seminário dos Olivais, entre 1966 e 1968. Era ele que nos ensaiava os cânticos para a liturgia, geralmente a três vozes iguais. E não só nos indicava as notas, mas tecia considerações sobre o modo de cantar e as características dos cânticos que compunha e nos ensaiava”, partilha o sacerdote, atual pároco da Malveira e Venda do Pinheiro, recordando-se ainda que o padre Manuel Luís “vivia intensamente a liturgia”. “Era pessoa de profunda espiritualidade. Lembro-me de ele dizer que, quando tinha de compor um cântico, ia rezar para a capela do seminário, para que fosse Deus a compor e não ele. Vi-o algumas vezes em oração. Este é o verdadeiro espírito do compositor litúrgico”, assegura. Do tempo de seminário, ficam também as recordações dos ensaios. “Também nos ensaiava cânticos em polifonia, a três vozes mistas, que cantávamos na liturgia da Sé, então presidida pelo Cardeal Cerejeira. Era muito rigoroso nos ensaios, quanto à afinação e à dinâmica da música”, conta.


  • Leia a reportagem completa na edição do dia 18 de julho do Jornal VOZ DA VERDADE, disponível nas paróquias ou em sua casa.



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