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Portugal, país bíblico
01 de Julho de 2021
Conferência
Portugal, país bíblico

Apresentação da obra "A Bíblia em Portugal" de Frei Herculano Alves

Associo-me com admiração e reconhecimento a este momento cultural, que é também de justa homenagem a Frei Herculano Alves e ao seu notável contributo para a história da Bíblia em Portugal, em sucessivos volumes de grande solidez e largo âmbito.
Dos textos editados ou por editar, dos autores nacionais e estrangeiros, dos respetivos enquadramentos histórico-culturais, da oratória às expressões plásticas dos temas bíblicos: de tudo encontramos informação preciosa nestes volumes de Frei Herculano Alves. Podemos afirmar que, sobre esta temática tão central, há um antes e depois do seu trabalho, que se torna assim num marco incontornável da cultura portuguesa. 
- Parabéns a Frei Herculano Alves e parabéns igualmente a todos quantos podemos agora beneficiar do seu labor!

Para a minha intervenção, que nesta altura só pode ser simples e corrente, escolhi uma pergunta, que constitui também um esboço de resposta: - Podemos dizer que Portugal é um país bíblico? 
Antes de mais, o termo “Portugal” indica uma realidade histórica, política e cultural que, depois de múltiplos antecedentes, se recortou no contexto europeu em meados do século XII, sendo como tal reconhecido no espaço ibérico e da Cristandade da altura.
Porém, com o tempo, a palavra ganhou outra geografia e substância. Naturalmente, quando a dizemos hoje, evoca muito mais em quantidade e qualidade de factos e referências de toda a ordem do que quando era dita em tempos passados. “Portugal” e “portugueses”, quer no território nacional quer na diáspora, tanto ecoam como enriquecem o sentido originário de tais palavras. A referência possessiva, por exemplo, foi passando dos monarcas antigos para o povo soberano, num processo longo que demorou o seu tempo – muito tempo mesmo.  
Não é impossível verificar algum paralelismo, já neste ponto, com a história do antigo Israel, quando as promessas feitas a David foram ganhando um sujeito mais coletivo, sobretudo depois do exílio babilónico. De terra do rei a rei da terra e dos habitantes que permaneciam ou chegavam, trocou-se bem mais do que o lugar das palavras. O mesmo aconteceu com a nossa heráldica, passando as quinas, de sinal régio, a emblema comum de todos, como figuram na bandeira da República.
A pergunta que origina estas linhas é se podemos considerar “biblicamente” o nosso devir coletivo. Como já acenei, admito que sim – embora verifique indícios semelhantes noutros povos, igualmente tocados pela visão bíblica das coisas. Na verdade, “povo bíblico” é uma designação transfronteiriça, em torno duma mensagem que nem nasceu aqui.
O que acabei de mencionar como “visão bíblica das coisas” refere-se à presença de tópicos vetero e neotestamentários numa determinada sociedade, direta ou indiretamente tomados; e verifica sobretudo que eles originaram sentimentos e interpretações que se fizeram gerais e criaram cultura.
Poderemos considerar “povo bíblico” aquele que se entendeu como divinamente garantido e portador duma missão que tanto o projeta noutros espaços como, por isso mesmo, ganha sempre futuro, mesmo quando as circunstâncias pareçam negá-lo. Tudo continuará pela linhagem dos seus chefes, ou pela coletividade no seu todo - como aconteceu entre nós, quando o título religioso de “fidelíssimo”, atribuído pelo Papa Bento XIV a D. João V, se alargou mais tarde à “nação fidelíssima”. 
Ideia inspirada pela narrativa bíblica – sobretudo deuteronomista, de antes, durante e depois do exílio babilónico-, propagada entre nós pelos letrados, geralmente clérigos, e popularizada pela pregação e a arte. Assim aconteceu, por exemplo, com a “Bíblia dos pobres” como se dizia da escultura medieval, ou a representação paralitúrgica dos mistérios, na origem do nosso teatro, bem como pela tradição oral até aos nossos dias.

Quando Portugal se vai transformando atualmente em terra comum duma centena de povos residentes, provenientes de vários continentes e variadas tradições culturais e religiosas, pode verificar-se com maior clareza a presença ou ausência da referência bíblica. E tanto se conclui pela realidade desta nos que já cá estávamos, em termos mais ou menos ortodoxos e ortopráticos, como pela oportunidade de a valorizar no diálogo intercultural com quem chegou mais recentemente – e que traz outras referências, que nos enriquecerão também. Sem que ninguém perca e ganhemos todos.
Aliás, assim aconteceu noutros tempos, com pluralidades que estavam mais subjacentes do que reconhecidas, mas a historiografia atual vai assinalando. Conotação bíblica tinham as comunidades moçárabes ou judaicas, persistentes durante o domínio árabe, como a tinham também os cruzados que ajudaram D. Afonso Henriques. Certamente não levava uns e outros a viver do mesmo modo os acontecimentos, mas proporcionava-lhes um quadro geral de entendimento da vida e da morte, do bem e do mal, da recompensa e do castigo, que acabou por alcandorá-los a outro patamar de convivência. 
Convivência que em geral foi possível, nos termos da época, entre a maioria cristã e as minorias judaica e muçulmana e até ao final do século XV. Como sabemos, o tempo seguinte caraterizou-se em Portugal - como além-fronteiras – por regimes mais centralizados e uniconfessionais, com drásticas repercussões nas minorias divergentes. 
Tal não se poderia escorar na mensagem central dos Evangelhos. Reconhecemo-la certamente nalguns críticos do sistema exclusivista instalado, como foi o caso do Padre António Vieira em defesa dos cristãos-novos -, ou até na integração social e religiosa que algumas confrarias plurirraciais conseguiram fazer por essa altura.

Entretanto, se tal é possível reconhecer, no geral, podemos apurar igualmente a repercussão que os temas bíblicos obtiveram tanto na leitura de acontecimentos nacionais como no espaço íntimo dos sentimentos e motivações pessoais.
No que aos acontecimentos nacionais diz respeito, a alusão bíblica é recorrente na literatura da expansão ultramarina, quando esta foi entendida como “Cruzada” ou como missão, retomando o antigo desejo de retorno a Jerusalém ou o mandato posterior de propagação evangélica.
É conhecida a exposição de António José Saraiva sobre este ponto, vendo naquilo a que chama o “mito da Cruzada” a autoconsciência portuguesa, predominante até ao século XVIII. Escreve assim: «Os mitos históricos são uma forma de consciência fantasmagórica com que um povo define a sua posição e a sua vontade na história do mundo. O primeiro grande mito coletivo português, que aliás é um mito de toda a Espanha, foi o da Cruzada, fixado eloquentemente por Camões no poema nacional dos Portugueses. Portugal era o paladino da fé católica, e a expansão mundial da Fé era a sua vocação própria, a razão de ser da sua história. Em relação especial com Deus, que o favoreceu desde o nascimento, Portugal realizava um plano divino que culminaria na conversão do mundo inteiro»1.
Abandonado depois pelas elites ilustradas, não terá encontrado sucedâneo à altura, sempre segundo o mesmo autor. Sobreveio antes a ideia de “decadência”, que considera um contramito. Oiçamo-lo: «Chamo a esta ideia de “decadência”, um contramito, em primeiro lugar porque se opõe deliberadamente ao Mito da Cruzada; em segundo lugar porque pretende não ser um mito, mas uma expressão racional da realidade; em terceiro lugar porque não tem a função de justificar e motivar a ação coletiva. Ela é antes de mais a expressão de uma ausência de ideal, de incapacidade de dar um sentido à vida coletiva…»2
E, depois de mencionar algumas tentativas, aliás discrepantes entre si, para ultrapassar tal decadentismo (António Sérgio, por um lado, o Integralismo e o Salazarismo, por outro), conclui: «O contramito da Decadência é o vazio deixado pelo desparecido mito de Cruzada. São estas as duas ideias que presidem como signos ao percurso da história cultural portuguesa e a dividem em dois longos períodos: um que vai das origens até meados do século XVIII e outro que vem desde então até hoje»3.
Não é difícil encontrar nesta matéria quer algumas notas de interpretação bíblica do devir nacional - entre promessa, incumprimento e queda - quer a referência a um desajustamento anímico que ainda aflora muito entre nós. Mas importa assinalar que, já perante a primeira queda do império e a perda da independência em 1580 foi também na transposição de um motivo bíblico para o contexto nacional que vários autores descortinaram melhor futuro.
Tal se verificou logo após o desastre de Alcácer Quibir e nos textos independentistas, tanto na monarquia filipina como durante as “guerra da restauração”. 
Leia-se, por exemplo, a Carta à nação portuguesa, com que Frei Tomé de Jesus prefacia os seus Trabalhos de Jesus, escritos no cativeiro marroquino, e perceber-se-á como o tema neotestamentário da morte e ressurreição de Cristo pôde inspirar o da própria morte e ressurreição do Portugal da altura.
Leiam-se os textos acrescentados à tradição de Ourique pela literatura autonomista, alcobacense ou outra, e facilmente ressaltará a transposição para a tradição dinástica portuguesa da antiga promessa à descendência davídica, que nenhuma interrupção poria definitivamente em causa.
Tal transposição bíblica para os acontecimentos pátrios é muito evidente. Nota um autor que «uma das narrativas que emergia era a contraposição entre a idade de ouro (os exemplos passados) e a idade de ferro (o presente). O período da ocupação castelhana correspondia ao cativeiro da Babilónia dos judeus, representando um castigo divino»4.
Convicção alimentada pela aludida historiografia alcobacense, designadamente de Frei Bernardo Brito e Frei António Brandão, que retomaram e aumentaram a tradição de Ourique. Testemunhada desde o princípio do século XV, a propósito da famosa batalha de D. Afonso Henriques, como que transpunha para o nosso primeiro rei e o seu reino a promessa divina feita a David e à sua descendência5. Tudo ressoava depois nos púlpitos, para uma população que não sabia ler, mas sabia ouvir, reter e aumentar6.  
Com o Padre António Vieira a conclusão é só uma: O que se esboçara no antigo Israel e culminara em Cristo, alargava-se agora ao mundo inteiro, por ação dos portugueses, com a mesma promessa e idêntica garantia. Oiçamo-lo: «Apareceu [Cristo] antigamente a Dom Afonso I, rei de Portugal e fundador do reino, […] e de uma cruz suspensa no ar, na qual estava pregado, dirigiu-lhe as seguintes palavras: “Eu sou quem levanta e destrói os impérios e os reinos. Ora quero estabelecer em ti e na tua descendência um império para mim, para que meu nome seja anunciado às raças distantes. E para que os teus sucessores conheçam quem deu o reino, representarás no teu pendão o preço pelo qual Eu remi o género humano…”»7.
Vieira pensou num D. Sebastião que voltasse para cumprir tal destino davídico. Depois transpôs a expetativa para a dinastia de Bragança, porque a Restauração não se limitaria a Portugal, mas por Portugal ao mundo inteiro, num sentido religioso e amplo. Ficou no sentimento popular este sentimento dum destino a reaver e dalguma personagem especial que o protagonizasse. A este sentimento chamou-se “sebastianismo”, nos vários episódios que somou. 
Se é verdade que, sobretudo depois de Herculano, a referência ao “milagre de Ourique” perdeu confirmação histórica, o certo é que a tradição cultural que motivou e recrudesceu na literatura seiscentista, persistiu quanto ao destino nacional, sobretudo quando as circunstâncias mais o pareciam contrariar. 
Também aqui, a dialética bíblica entre a promessa divina e as contradições da história, sobreviveu entre o secular e o religioso, mesmo sem conotação confessional estrita. Zúquete, verifica-o em Pascoaes, para quem «os portugueses são “este messiânico Povo que tendo dado à humanidade o mundo físico, compete-lhe dar agora o novo mundo moral”. O nacionalismo de Pascoaes, através do conceito de nação eleita, elemento-chave da religião sebastianista […], mira uma nova civilização que é supranacional». Verifica-o também em Pessoa, para quem o renascimento nacional «teria, forçosamente, de ter bases religiosas e, por isso […] via no sebastianismo uma forma superior de realizar esse renascimento. Para Pessoa, o sebastianismo era o “único religiosismo verdadeiramente português”»8.
Num último apontamento, sublinho que, em pontos basilares de cultura e civilização, se manifestam entre nós alguns traços bíblicos essenciais. O calendário é pontuado pelo Natal, a Páscoa e as comemorações locais de padroeiros – mesmo que as datas sofram reinterpretações profanas. Designamos os dias da semana em relação ao primeiro deles, o Domingo, inovação tipicamente cristã. Usamos com sentido genérico palavras que provêm diretamente da Bíblia de judeus ou cristãos: criação e redenção, ressurreição e ascensão, celebração e consagração. Muitos nomes próprios têm origem bíblica – com prevalência para “Maria”. Os quadros mentais são igualmente tocados pela referência bíblica: Para o regresso a casa, no sentido mais alargado do termo, lembramos o “filho pródigo”; para o cuidado dos outros, recordamos o “bom samaritano”; para o desenvolvimento das qualidades próprias, falamos de “talentos”… São casos típicos de um culto que gerou cultura e de alguma tensão entre o sentido que tinham e a memória que se dilui quando aquele deixa de ser tão genuíno - nada de irrecuperável, aliás, ainda que em novos termos.
Deixo estas breves notas em relação a um largo tema, agradecendo desde já a atenção que me deram e sobretudo a excelente contribuição de Frei Herculano Alves para o reconhecimento da presença bíblica em Portugal.


Manuel Clemente
Gouveia, 1 de julho de 2021, na apresentação da obra
A Bíblia em Portugal de Frei Herculano Alves         

Colóquio de preparação do ‘Congresso Internacional da Bíblia’                 


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1) SARAIVA, António José - A cultura em Portugal. Teoria e História, Livro I, Amadora, Livraria Bertrand, 1982, p. 118-119. 

2) Ibidem, p. 122.

 3) Ibidem, p. 123.

 4) ZÚQUETE, José Pedro – «O chefe imaginário», in Grandes chefes da História de Portugal, coord. de Ernesto Castro Leal e José Pedro Zúquete, Alfragide, Texto Editores, 2012, p. 371.   
 
5) Cf. ibidem, p. 372.

6) Ibidem, p. 373: «Para além da historiografia, a pregação exerceu um papel importante nesta consolidação da consciência nacional. No púlpito, os sacerdotes fomentaram a resistência à dominação filipina. Na prática, esses oradores sacros, por detrás da doutrinação puramente religiosa, exerceram m papel ativo de comentário político e de intervenção social». 

7) VIEIRA, Padre António – A chave dos profetas. In Obra completa, coord. Pedro Calafate, Tomo III, Volume V, p.372. 

8) ZÚQUETE – O chefe, p. 390-391.



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