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Homilia de D. Joaquim Mendes na Solenidade de Santo António
13 de Junho de 2020
Homilia
Homilia de D. Joaquim Mendes na Solenidade de Santo António


Caríssimos irmãos e irmãs, 

Estamos a viver um dia 13 de Junho invulgar, assim como todo o tempo litúrgico ao longo destes meses.
Para o nosso Santo António, o 2020 devia ser um ano especial, um ano jubilar para celebrar os 800 anos da sua vocação franciscana. Apesar das restrições e do cancelamento de eventos para assinalar o centenário antoniano, não faltaram oportunidades para conhecer melhor os traços essenciais e mais autênticos da vida, da santidade, da espiritualidade e do testemunho evangélico do nosso Santo: António de Lisboa.





No final do ano de 1219, em Coimbra, encontrou pela primeira vez um grupo de frades oriundos do centro de Itália que se rumavam a Marrocos e ali pregar o Evangelho. Este encontro deixou no ânimo do jovem Fernando uma marca indelével, de tal forma que, ao ver regressar, meses depois, os corpos  dos cinco frades menores que naquela terra tinham sido assassinados e recebido a coroa eterna do martírio, não hesitou em tomar uma decisão que já há algum tempo fazia estremecer o seu coração, e que, mesmo sabendo que iria causar uma certa estranheza à sua volta, lhe parecia ser claramente a vontade de Deus para a sua vida: trocar o mosteiro de Santa Cruz pela ermida de Santo Antão de Olivais.
O seu desejo, que o tempo e a oração fizeram crescer no seu coração, era o de ser missionário, ao jeito daqueles frades simples e humildes, mas profundamente felizes, que tinha encontrado no claustro de Santa Cruz em Coimbra. 
O martírio destes irmãos na fé não o assustou, pelo contrário ainda fez crescer mais o anseio de radicalidade evangélica inscrito em si e o profundo ardor pela pregação da Boa Nova da salvação de Cristo a todos os que a não tinham ainda recebido. 
Nos livros de Santa Cruz em Coimbra, estudara já toda a doutrina e toda a teoria. Naqueles mesmos livros, que tão essenciais foram na vida de António, tinha já encontrado os grandes mestres da espiritualidade e da verdade, bem como os iluminados doutores e confessores que lhe serviam de testemunhas. Mas o seu coração permanecia profundamente inquieto por ainda não ter experimentado no dia a dia aquele ardor e aquela radicalidade que o faziam amar tanto o Evangelho de Jesus Cristo.
Com o Evangelho que hoje nos foi proclamado, podemos dizer que António de Lisboa sabia perfeitamente todas as características, qualidades e finalidades do «sal» e da «luz» para o mundo, mas o seu coração desejava atuar tudo isso na vida totalmente entregue ao anúncio do Evangelho.


Na colina de Olivais, Fernando despe a alva monástica e veste uma simples túnica, semelhante ao traje dos camponeses e peregrinos do seu tempo; juntamente com a túnica, é também revestido de uma nova identidade, e dá a si mesmo o nome do santo eremita do deserto: António! Assim inicia uma nova aventura, espiritual e missionária, que o levará pelo mundo fora, não já como monge douto em Sagrada Teologia, mas como pregador itinerante que a todos anuncia a bondade e a misericórdia de Deus, e que com a sua humildade e eloquência “fará brilhar a instrução que recebeu” e a todos testemunhará que “a sua glória está na lei da aliança do Senhor”.
Ao contemplar, hoje, a figura de Santo António, coloquei-me duas perguntas que quero partilhar convosco, bem como a reflexão que elas me suscitaram. 
A primeira
«O que é que tem para dizer Santo António, com a sua vida e testemunho, aos jovens do nosso tempo? Aos jovens que sonham e preparam a JMJ 2023?
A segunda pergunta é mais alargada a todos os crentes: «Que mensagem de vida pode comunicar a figura deste gigante de santidade para a Igreja do nosso tempo?».
Aos jovens de hoje, Santo António apresenta-se, tal como eles, como um «santo com o coração inquieto». 
Também ele na sua juventude estava constantemente à procura das novidades que o Senhor lhe pudesse indicar na escuta da Palavra.  
A sua vida apresenta-se sempre como um itinerário de busca. 
Ainda novo, abandona os sonhos de uma brilhante carreira militar, procurando um novo sentido para a sua vida no Mosteiro de São Vicente de Fora. 
Deixa a cidade de Lisboa e os seus amigos, que achavam um desperdício a sua vocação religiosa, tornando-se Cónego Regrante de Santo Agostinho no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra. 
Em jovem, tinha uma vida segura e tudo o que poderia desejar alguém para ser reconhecido no seu tempo: é culto, recém-ordenado sacerdote, com um futuro prometedor num dos maiores centros culturais da Europa. E, no entanto, tudo isto não acalma a sua inquietação. 
Faz-se frade menor, imitando o Pobrezinho de Assis e viaja para Marrocos, com o sonho de dar a vida pelo Evangelho. E aqui começam as contrariedades que farão interrogar o seu coração inquieto: a doença inviabiliza este projeto e é forçado a viver ao longo de quase dois anos na solidão e no silêncio do eremitério de Monte Paulo, no centro de Itália. 
E as contrariedades não ficam por aqui. A obediência aos Superiores leva-o à pregação itinerante da fé católica ameaçada pelas heresias próprias daquele tempo. Palmilha o norte da Itália e o sul da França qual “incansável pregador do Evangelho”. E quando se tinha já entregue totalmente, tem de deixar tudo para assumir o serviço aos seus irmãos frades, como “Ministro Provincial” da então Província franciscana do norte de Itália. 

Frei António projetava coisas boas e louváveis para si, mas foi-lhe sempre pedido para deixar tudo a fim de se dedicar a outras ações de bem. E assim foi até ao fim da sua vida. E até mesmo hoje, a contrariedade persiste: Ele que sempre desejou ser lembrado como “pregador do Evangelho e apóstolo da paz” – como rezaremos daqui a pouco no Prefácio desta Missa –, é conhecido em todo o mundo, com um carinho e uma devoção tão simples e pura, como “o Santo dos Milagres”. E também aqui se adequa, pois, Santo António continua a interceder para que estes milagres continuem a acontecer. 
Santo António é um «jovem lisboeta capaz de falar aos jovens do mundo inteiro», é um «homem forte capaz de resistir aos fortes com o poder desarmante do Evangelho», é um «amigo de Deus e amigo dos pobres», é o santo que consegue «arrancar os jovens de uma vida medíocre e torná-los capazes de percorrer o caminho belo da santidade, com humildade, com pureza e com alegria evangélica e franciscana» (A. Comastri).

Na Exortação Apostólica Christus Vivit, o Santo Padre Francisco diz aos jovens que “a nossa vida na terra atinge a sua plenitude, quando se transforma em oferta” (nr. 254), e que “para realizar a própria vocação, é necessário desenvolver-se e fazer germinar e crescer tudo aquilo que uma pessoa é” (nr. 258). 
Afirma ainda que os jovens são chamados a “ser para os outros” (nr. 258) e que somente assim a sua vida será verdadeiramente válida e bem vivida. 
Pois bem, para todos os jovens que queiram verdadeiramente aceitar este desafio, António de Lisboa brilha no céu como fúlgida estrela que pode ser guia e testemunho. Na sua pessoa, no seu caminho espiritual e na sua aventura de pregador e mestre, vemos a capacidade de colocar Deus e os irmãos em primeiro lugar e de lhes entregar a plenitude do que se é. 
Que exemplo tão belo e luminoso é para os jovens Santo António! E como somos abençoados em poder acolher os jovens do mundo inteiro na próxima Jornada Mundial da Juventude com a palavra e o abraço deste grande santo!  


A segunda reflexão prende-se com a mensagem de vida que pode comunicar a figura de Santo António à Igreja do nosso tempo?
António foi, sem dúvida, um grande pregador. Foi um verdadeiro anunciador da alegria do Evangelho aos pobres que habitam todas as periferias.
Num antigo manuscrito do século XIII presente na Biblioteca Antoniana de Pádua, encontra-se uma oração atribuída a Santo António, que ele costumava rezar antes de iniciar a pregação. 
Uma das passagens dessa oração reza assim: «Faz, Senhor, que a minha língua dispare como uma flecha para proclamar as tuas maravilhas»
Num sermão, ele parece explicar esta oração do seguinte modo: “todo o pregador segura nas mãos um arco, quer dizer a Sagrada Escritura inteira, com o qual dispara a flecha, que representa o significado da Palavra de Deus, de maneira que penetre no coração do ouvinte para que se converta ao Senhor e a uma vida sóbria e honesta” (cf. Domingo II depois da Páscoa, n. 9).  
Isto acontece – afirma o mesmo Santo António – porque a seta tem na extremidade posterior uma pluma que serve «para dar a justa direção». Esta pluma é «o amor do Senhor» que, unido ao do pregador que lança a flecha, permite à palavra de Deus alcançar o coração do crente (cf. Domingo XII depois do Pentecostes, n. 7).
Com a oração «Faz, Senhor, que a minha língua dispare como uma flecha para proclamar as tuas maravilhas», António pede a Deus que a sua língua sirva sempre para lançar “palavras de amor” que proclamem as “maravilhas do Senhor”. Só deste modo o pecador se converte e progride no caminho da santidade. Sabemos, de facto, que só uma palavra boa, uma palavra de amor, pode tornar boa a existência do crente. 

Podemos perguntar-nos então: quais são as “palavras de amor” que “a flecha da língua” de António proclamou para tornar amável e bondosa a vida de quem o escutava? E quais são as “maravilhas do Senhor” que, ainda hoje, proclama a língua do nosso Santo para o bem de cada um de nós?

Uma primeira “maravilha do Senhor” proclamada pela língua de Santo António é a dignidade de cada pessoa: ricos e pobres, poderosos com cargos elevados e pessoas que pouco contam aos olhos da sociedade, todos são “filhos de Deus”, por Ele amados até ao dom do seu próprio Filho. 
Santo António não lançava apenas palavras de consolação, mas suscitava também ações concretas para o bem social, para reintegrar na convivência citadina o pobre e o marginalizado. António oferece-nos um exemplo de “vida cristã credível” e eficaz numa sociedade onde é imenso o desfasamento entre a palavra e a ação.

Uma segunda maravilha, é o convite forte à conversão, baseada na experiência da misericórdia do Senhor. 
Nesta ótica a flecha do perdão gratuito penetra no coração do pecador e convence-o de que é bom ser acolhido ainda entre os braços do Senhor. O nosso mundo precisa desta “palavra de amor” para construir uma sociedade baseada no perdão e não na vingança, no acolhimento e não na competição que leva a explorar ou a aniquilar o adversário.

Uma terceira maravilha
, que Santo António proclama ainda hoje, é o viver em constante busca do sentido da própria existência.  
A vida de cada dia e a própria fé cristã obrigam-nos a procurar constantemente o rosto do Senhor e o sentido da nossa vida no meio de situações às vezes difíceis, sofridas e até incompreensíveis. 

Amados irmãos e irmãs, 
Deus continua a servir-se de Santo António, da sua vida e da sua pregação, para proclamar ao mundo e a cada um de nós as suas maravilhas. Mas tal como foi para António, também para nós as maravilhas de Deus transformam-se em desafios. 
Desafios que vêm retirar a segurança aos nossos projetos feitos à imagem e limitação da mente humana. Entre todos estes desafios, talvez o mais difícil seja o de colocar a nossa vida nas mãos do Senhor, como Santo António, para fazer a experiência das maravilhas do seu amor.
Como Santo António, também nós, os crentes deste tempo, e todos os jovens que prepararam a JMJ 2023, sejamos dóceis ao Espírito Santo e, com as palavras e com a vida, na total disponibilidade do coração, sejamos capazes de repetir como Santo António: “Faz, Senhor, que a minha língua dispare como uma flecha para proclamar as Tuas maravilhas”, as maravilhas do Teu amor!

† Joaquim Mendes
Bispo Auxiliar de Lisboa



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