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Homilia do Domingo de Pentecostes
31 de Maio de 2020
Homilia
Homilia do Domingo de Pentecostes


Vinde, Espírito Santo!

Chegamos ao Pentecostes deste ano, certamente ainda mais esperançados no poder recriador do Espírito Divino. Lembramos os cinquenta dias depois da Páscoa antiga, em que o povo comemorava a chegada ao Sinai. Aí recebera a antiga Lei, também entre sinais fortes da presença divina.

Celebramos hoje a lei nova do Espírito, em que tudo se cumpre finalmente, como aconteceu em Cristo. O «rumor semelhante a forte rajada de vento», que encheu toda a casa onde os apóstolos se encontravam», é o que podemos captar igualmente, com o ouvido interior que o “Efetá!” batismal nos abriu.

Por isso, só celebramos com verdade e proveito próprio e alheio as festas litúrgicas quando lhes guardamos o significado íntimo e vital que transportam. Assim a Páscoa, ressuscitando com Cristo de tanta morte de alma; assim a Ascensão, querendo mesmo voltar com Ele para o Pai, cumprindo a sua vontade; assim o Pentecostes, deixando que o Espírito divino nos recrie totalmente – a nós e ao mundo a que chegarmos.

O Espírito divino, não meramente o nosso - o nosso, com os possíveis ideais e propósitos, que, mesmo bons, não chegariam. A verdade bíblica alerta-nos para o que a experiência humana confirma. O velho desencanto do Eclesiastes, traduzido na frase que sabemos: «Vaidade das vaidades, tudo é vaidade» (Ecl 1, 2), indica a vanidade do que não se sustenta por si e encadeia ilusão com desilusão. Dito doutro modo, a humanidade é tão originalmente boa como realmente frágil e muito contraditória, quando se pretende bastante. 

Boas intenções não bastam. Mesmo agora, quando nos queremos refazer como sociedade, face à pandemia que tanto nos transtornou a saúde, a convivência, a economia e tudo o mais. É natural que a urgência de soluções, no plano nacional e internacional, ocasione medidas mais solidárias e suscite declarações generosas. Como é de reconhecer e agradecer tanta dedicação demonstrada nos vários domínios sociais, públicos ou particulares, para proteger as vidas e garantir a saúde e a subsistência das populações. É justo, muito justo, que o façamos.        

Porém, a história lembra que em tempos de guerra sempre se aspira pela paz e em tempos de catástrofes sempre se insiste em preveni-las… Mas a memória é curta e as ilusões regressam, facilmente demais, tragicamente demais. Valha-nos o Espírito Divino, que não se cansa de nos mover para o bem.




Retenhamos dois pontos do que ouvimos, tão convergentes como são. A realidade divina é essencialmente comunitária. E só a partir dela nos concluímos como realidade humana, ultrapassando a divisão, que é o pecado. Pecado que radica na recusa de viver em comunhão, com Deus e com tudo a partir de Deus, Fonte inesgotável de vida convivida. 

Assim nos segreda a natureza, apesar de tão contrariada no seu impulso convergente. Assim nos restaura Jesus Cristo, que em tudo manifestou a união indestrutível com Deus Pai. Convivência que deles faz um só e unidade que se expande pelo Espírito, porque o amor é sempre criativo. O espírito de Deus que paira sobre a água inicial donde surgimos é agora o Espírito que se faz língua de fogo para tudo recomeçar no Pentecostes, irradiante e puro. E para tudo ser finalmente comunhão, como nos lembrou São Paulo: «Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum».

Daqui resulta o que ouvimos no Evangelho e na precisa sequência como está: O Ressuscitado no meio de nós, a paz nele alcançada, o sopro do Espírito que nos dá e o perdão dos pecados. Só assim, anulando no mais íntimo de cada um tudo o que nos separa de Deus, dos outros e da realidade total.

A obra do Espírito é a restauração de tudo, como começou em Cristo, na sua união indissolúvel com Deus Pai. União que connosco compartilham, pelo dom do Espírito enviado. Nele alcançaremos uma humanidade à maneira da Trindade, na filiação divina em que Cristo nos inclui, na vida unitrinitária em que tudo se consuma e a própria criação se recupera e salvaguarda. Como escreveu São Paulo, numa visão profunda: «Pois até a criação se encontra em expetativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19).

Já Hans Urs von Balthasar, reputado teólogo, advertiu: «Não compreenderemos nada do acontecimento do Pentecostes, que nos descrevem os Atos dos Apóstolos, se não tivermos sempre presente que o Espírito que desce sobre a Igreja é tanto o Espírito de Jesus Cristo como o de Deus Pai; dizendo com outras palavras, é o Espírito do seu amor recíproco até à total inabitação de um no outro, amor que tem ao mesmo tempo o seu fruto, a terceira pessoa em Deus. Na criação temos um símbolo recôndito deste amor… » (cf. Luz de la Palabra, Madrid, Ediciones Encuentro, 1998, p. 72). Só a comunhão que há em Deus nos recria na comunhão total.


Creio que tudo isto é de grande atualidade e urgência. Sofre o mundo a presente pandemia, com uma globalidade e rapidez inéditas na sua transmissão nefasta. Nem a resolveremos de vez, mesmo contando com tanta dedicação solidária e com tanta aplicação científica, ambas absolutamente louváveis, se não atuarmos com atenção e cuidado, para prevenir alastramentos e alterarmos condutas. Sobretudo, não evitaremos trágicos retornos, desta ou doutra congénere, se não mudarmos profundamente a nossa relação com a natureza, o meio ambiente e a própria humanidade no seu conjunto.

Quando há cinco anos o Papa Francisco nos ofereceu a encíclica Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum, realizou algo de verdadeiramente profético, quer na denúncia do que não está nada bem, do ponto de vista ambiental, como no modo de ficar melhor e bem melhor, no sentido uma ecologia integral, em que tudo se respeite para que tudo conviva.

É também ele a radicar na Trindade divina e na ação do Espírito o princípio, o meio e o fim do que se deve fazer e refazer. Escutemo-lo neste luminoso passo: «Para os cristãos, acreditar num Deus único que é comunhão trinitária, leva a pensar que toda a realidade contém em si mesma uma marca propriamente trinitária. São Boaventura chega a dizer que o ser humano, antes do pecado, conseguia descobrir como cada criatura “testemunha que Deus é uno e trino” […]. As Pessoas divinas são relações subsistentes; e o mundo, criado segundo o modelo divino, é uma trama de relações. […] Na verdade, a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim, assume na própria existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a criação. Tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade» (LS, 239-240).

Meditemos nestas palavras papais, tão profundamente teológicas como inteiramente operativas. O Pentecostes recebe-se e ativa-se assim: O Espirito Santo, como só Ele o consegue, recupera-nos e inclui-nos na filiação divina, que em Cristo se oferece. Esta filiação realiza-nos na comunhão perfeita com Deus Pai e com tudo o que manifesta o seu poder criador. Saber, testemunhar e concretizar tão grande verdade na relação com Deus, com os outros e a criação inteira é levar o Pentecostes recebido ao universo que o espera. É connosco agora, começando pelo que esteja mais perto, modo cristão de chegar mais longe.

Invoquemo-lo, hoje como sempre, com palavras de esperança inesgotável: «Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor. Enviai, Senhor, o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra!»


Sé de Lisboa, Domingo de Pentecostes, 31 de maio de 2020


+ Manuel, Cardeal-Patriarca         



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