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01 de Dezembro de 2019

Homilia no Primeiro Domingo do Advento e ordenação de diáconos

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  Foto: Patriarcado de Lisboa  




Entramos em Advento, vivamos definitivamente


1. Entramos em Advento, vivamos definitivamente. Assim mesmo e para que nada se feche e definhe, como se ficasse em si próprio. Pedimos há pouco na oração coleta: «Despertai, Senhor, nos vossos fiéis a vontade firme de se prepararem, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo».


Como sabemos, «o Tempo do Advento tem dupla caraterística: é tempo de preparação para a solenidade do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus aos homens; simultaneamente é tempo em que, comemorando esta primeira vinda, o nosso espírito se dirige para a expetativa da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos. Por estes dois motivos, o Advento apresenta-se-nos com um tempo de piedosa e alegre expetativa» (EDREL, 669). Quando dizemos que vem, despertamos a atenção à sua presença ressuscitada, que se alarga a todo o mundo e se pode entrever em tantos sinais, tendo nós olhos que realmente vejam.    


Sim, Advento é mais do que preparar e lembrar a primeira vinda de Cristo, que celebraremos depois, no Tempo do Natal. É – para já e urgentemente - apressarmos em nós e à nossa volta o encontro definitivo com o Senhor que vem.


Não nos admire esta linguagem, que é primeiríssima no cristianismo. Assim na Carta de Tiago: «Aproximai-vos de Deus e Ele aproximar-se-á de vós» (Tg 4, 8). Assim na 2ª de Pedro: «… como deve ser santa a vossa vida e a vossa piedade, enquanto esperais e apressais a chegada do dia de Deus» (2 Pe 3, 11-12). Sim, irmãos, o cristão não teme o fim do mundo, porque sabe que esse fim acabará unicamente com o que em nós e à nossa volta não seja Cristo. Cristo, na imensidade do seu ser, onde toda a terra e todo o céu definitivamente se incluem, onde todo o bem finalmente acontece.


O cristão almeja este encontro, nunca o perde de vista, não o troca por nada, nem adia por motivo algum. Como na última frase do Apocalipse, como na resposta a cada consagração eucarística, a vida do cristão resume-se e realiza-se neste indispensável clamor: “Vinde, Senhor Jesus!”. E sabe também que o clamor é prático, no encontro com os outros, em quem o mesmo Cristo se apresenta, como quem pede e requer atenção, correspondência e serviço. Porque assim se começa a viver a única realidade definitiva, a caridade que nunca acabará (cf. 1 Co 13, 8).


2. As Leituras que ouvimos vieram neste sentido. Isaías, o profeta mais repleto de Advento no antigo Povo de Deus, entrevia-o como um encontro universal, assim descrito: «Sucederá, nos dias que hão de vir, que o monte do templo do Senhor se há de erguer no cimo das montanhas e se elevará no alto das colinas. Ali afluirão todas as nações…». Reunidas em torno de Deus, igualmente se encontrariam entre si: «Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão de preparar para a guerra». Concluindo com um convite ao seu próprio povo: «Vinde, ó casa de Jacob, caminhemos à luz do Senhor».


Nas atuais circunstâncias, não devemos desejar outra coisa: reunião em torno do único e universal Criador de todos; mudança consequente das armas de guerra em instrumentos de paz; caminho decidido a esta luz. Começar a fazê-lo aonde estamos, das famílias às comunidades, entre vizinhos e colegas de escola ou trabalho, entre concidadãos e quem entretanto chegar, é o melhor Advento que podemos ter e, desde já, concretizar. Ativemos o Advento que nos realizará finalmente.

Assim o cantámos no Salmo. E depois ouvimos São Paulo, que já conhecia a ressurreição de Cristo e nela entrevia a do mundo inteiro: «A noite vai adiantada e o dia está próximo. Abandonemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz».

Esta é a luz em que queremos ver. Mais do que que a sucessão dos dias e das noites, na rotina que os dilúvios interrompem, vale a alvorada da Páscoa de Cristo, que há dois mil anos nos aclarou a vida, na iluminação batismal que temos e no esplendor definitivo que trouxe. Apesar de tudo o que o encobre, até em nós próprios, sabemos bem que o primeiro Advento culminou em Páscoa, qual destino da criação inteira – no momento que só Deus conhece, mas que nós divisamos e apressamos em cada caridade que aconteça.


3. Viver como Jesus nos ensinou a viver, é o que importa agora. Ele é realmente a vida do mundo, a nova criação em expansão pascal. O Advento autêntico fará de nós sinais da vida ultimada, que assim o será com Cristo em Deus. Antes de mais na caridade, vivendo com os outros o Advento do Senhor que nos diz: «Sempre que fizerdes isto [o bem] a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (cf. Mt 25, 40). Também no matrimónio dos que “se casam no Senhor” (cf. 1 Co 7, 39), compartilhando do seu amor uno, indissolúvel e fecundo e encontrando-O assim mesmo, na entrega recíproca do casal e da família. Igualmente nos carismas da virgindade e do celibato – como acontecerá convosco, caros ordinandos -, anunciando de coração inteiro aquele horizonte final em que todos serão como anjos no Céu» (cf. Mt 22, 30). Sinais de Advento, vivido e testemunhado.


Como aconteceu com Cristo, nada se desvaloriza do que no tempo acontece e que Ele viveu também até aos trinta anos, em Nazaré da Galileia. Mas depois inaugurou em si próprio o tempo definitivo, não constituindo uma família mais, para ser familiar de todos. Tudo referindo absolutamente a Deus Pai e convertendo o crescimento humano em filiação divina, o trabalho em caridade e os laços habituais em família de Deus. Abriu-nos o último horizonte, em que as coisas boas se tornarão excelentes.


Foi assim que na terra começou há dois mil anos o Advento do Reino dos Céus. O Reino em que caberemos todos, na quantidade inteira do que somos e na qualidade infinda que só Deus permite. O Reino que a Igreja há de assinalar, como sua única razão de ser, para não cair na insignificância.


Perder qualquer uma destas dimensões, deixando de assinalar a última, seria truncar o Evangelho de Cristo e diluí-lo no que já existe e depois não basta. Creio mesmo que deixaria de ser propriamente cristão, pois em Cristo tudo assinala o fim que há de chegar, modo de dizer a finalidade certa das vidas de todos e de cada um. Na verdade, «só Deus basta» (Santa Teresa de Jesus) e «o mundo sufoca porque não adora» (São Pedro Julião Eymard). Pediremos ao Pai, na oração final desta Missa, que, durante a nossa vida da terra, nos ensine a amar os bens do Céu e a viver para os bens eternos.


Agradecemos a Deus o vosso carisma celibatário e a vossa vocação ministerial, caríssimos ordinandos, com oportunidade acrescida. Tomai um e outra como Advento de Cristo, que para vós aconteça e por vós se manifeste. Vivei em ação de graças, ensaiando já o que eternamente sereis - e definitivamente nós todos.


Santa Maria de Belém, 1 de dezembro de 2019

+ Manuel, cardeal-patriarca






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