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22 de Junho de 2019

Homilia na Missa de investidura de cavaleiros e damas da Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém

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Guardiães do sepulcro, testemunhas da ressurreição

Caríssimos irmãos e irmãs, caríssimos cavaleiros e damas que como tais sereis seguidamente investidos na Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém:
Aqui vos encontrais em lugar de excelência e ocasião oportuna. Santa Maria de Belém é, por excelência, a catedral do mar. Do mar em que a vida nasceu e por onde ela circulou e circula; e do mar que foi sepulcro de tantas vidas, como infelizmente ainda é, por desastre da natureza ou desastre da humanidade – como tem acontecido no Mediterrâneo, da Terra Santa para cá, em demanda das praias onde tantos não chegam. Recobremos do positivo do mar o ânimo bastante para contrariar o seu oposto. 
Ocasião oportuna igualmente, porque o futuro tanto brota do que o presente cria como do que o passado promete. E o passado da vossa Ordem evoca um Santo Sepulcro donde a vida irrompeu, apesar de tudo e para sempre.  
Agradeçamos a Deus, que assim nos reúne e relança. E, como o ritual dirá, transfiguremos as insígnias doutras guerras em sinais da paz que agora importa. 
A cruz será “para vos proteger” e por vós proteger também a outros; os Evangelhos serão o vosso “código e compromisso”, lembrando-a sempre; as esporas são da “milícia do Evangelho da paz”; e a espada recorda “a defesa da Santa Igreja de Cristo e o combate pela custódia da pátria terrena do Divino Redentor”, não deixando de lembrar “que o Reino de Deus não se conquista com a espada, mas com a fé e a caridade”.

Importa reter o princípio da oração coleta desta Missa, há pouco proferida: «Senhor, quisestes que o vosso Filho sofresse o suplício da cruz para salvar o género humano». – E porque quis Deus assim? - Para nos encontrar onde estamos e sobretudo onde mais precisamos de ser reencontrados e salvos!
Sim, nascemos e crescemos, vivemos e convivemos. Mas sofremos, como tantos sofrem, e também morremos e somos sepultados. Em tudo nos acompanha Jesus Cristo e até ao momento póstumo que o seu sepulcro assinalou. O Santo Sepulcro de que a Ordem herdou o nome, para perpetuar a memória do lugar onde a ressurreição aconteceu.
Não poderia ser doutro modo, para cristãmente ser. Já no deserto do êxodo, uma serpente elevada – benéfica esta, ao contrário da antiga – curava quem a fixasse. Como na cruz, muito mais na cruz, foi elevado Cristo para nos salvar a todos. Disse o Evangelho e acreditamos nós: «Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna». 
Em tudo isto se mostra o que Deus é, como sentimento ativo, ou seja, como misericórdia. «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n‘Ele não pereça, mas tenha a vida eterna».
Porque e como aconteceu assim, cantou-nos um primeiríssimo hino cristão, que São Paulo incluiu na sua epístola. Tão primitivo é o hino que ainda nos espanta como logo a primeira geração percebeu e agradeceu a dádiva de Cristo, da anunciação ao sepulcro. Assim o compreendamos e atuemos nós também.
Tratou-se, isso mesmo, de se “esvaziar” da condição divina e assumir a nossa, preenchendo-a daquele absoluto assentimento ao Pai em que nos salvamos como filhos, no Espírito filial de Cristo. Não o conseguiríamos por nós, tão afastados estávamos da casa paterna. Veio Cristo buscar-nos, como verdadeiro irmão mais velho. Esvaziou-se de tudo para nele cabermos todos.  

Caríssimos cavaleiros e damas, atuais e próximos: Guardar o Santo Sepulcro é guardar o sinal do amor que o preencheu, da vida de Cristo que aí nos ressurgiu.
E como tudo acontece, quando evangelicamente acontece. Como memória lembrada, porque vida revivida. Em cada um de vós, em cada um de nós, batizados no Espírito filial de Cristo, há de manifestar-se a mesma realidade, preenchendo tantos “sepulcros” deste mundo, esvaziando-nos a nós para que os outros voltem a ser.
Ajudais muito meritoriamente a manutenção dos Lugares Santos e o Patriarcado Latino de Jerusalém. Com o vosso propósito e atitude ajudareis não menos os que ressurgirão aqui e agora pela vossa generosidade e serviço.
Aproveito a ocasião para reconhecer e agradecer o que sois e fazeis. O nosso tempo é de mediatização intensa, mais quantitativa do que qualitativa. Catadupas de informação pouco tratada e mal recebida, tornam-nos mais espetadores do que protagonistas. É precisamente aqui que avultais como contraste. 
Pertencer à Ordem do Santo Sepulcro pode e deve comprometer-vos com o seu significado. Significa guardar a lembrança da sepultura de Cristo, para preencher tantos lugares vazios da sociedade e da cultura com o que ali mesmo aconteceu. - Significa ressurreição!         

Santa Maria de Belém, 22 de junho de 2019

+ Manuel, Cardeal-Patriarca      


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