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21 de Abril de 2019

Homilia no Domingo de Páscoa: "Um mundo novo a acontecer entre nós"

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  Foto: Arlindo Homem / Patriarcado de Lisboa  

Retenhamos o trecho que acabámos de ouvir. Retenhamo-lo muito especialmente, pois nos explica aqui nesta manhã renascida: «… Simão Pedro entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou».
Um sepulcro vazio, mortalhas dispostas de modo intrigante… Nada mais do que isto, mas precisamente o bastante para o discípulo acreditar. O bastante para nós acreditarmos também, acolhendo o que o Ressuscitado dirá a Tomé, depois de lhe aparecer: «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que creem sem terem visto» (Jo 20, 29). 
Ou seja, os que dispensam o simples olhar físico, por já verem com os olhos da alma, infinitamente certeiros. Felizes nós, que, mesmo não beneficiando de aparições particulares, cremos na ressurreição de Cristo e entrevemos a sua presença universal, que preenche tantos vazios deste mundo. 
Porque a ressurreição de Cristo o torna presente em todo o espaço e tempo, manifestando a sua vitória sobre a morte, hoje como então. O que o discípulo soube diante do túmulo vazio é o que nós sabemos aqui e onde for. Um lugar de morte tornou-se sinal de vida.


Domingo de Páscoa


Estamos aqui a afirmá-la, numa bela e vetusta catedral, em esplendente liturgia. Graças a Deus que assim é. Mas neste mesmo momento, em muitos lugares por esse mundo, como esta madrugada no Sri Lanka, outros cristãos celebram igualmente a Páscoa, escondidos ou entre escombros, maltratados e mal curados de feridas e desastres graves.
Quando não faltam atentados e ofensas que os vitimam, sendo o cristianismo uma religião tão perseguida no mundo atual; quando, mesmo na nossa Europa, se sucedem profanações de igrejas – centenas em França no ano passado; quando estas e outras tristíssimas realidades os poderiam desanimar e tolher: os cristãos continuam a entrever por entre os sinais de morte a presença de Cristo que a venceu e a celebrá-la como podem – tudo podendo n’Aquele que lhes dá força, como São Paulo dizia de si próprio.      
Quando dizemos e repetimos tantas vezes “Ele está no meio de nós!”, é também isso que expressamos, porque o experimentamos e sabemos. Sabemo-lo porventura melhor quando tudo o mais soçobra, como garantia que tivéssemos.
Depois da morte e sepultura de Cristo, tudo era desolação entre os discípulos em fuga, ou mal escondidos. Veio a Madalena ao sepulcro, viu a pedra retirada, correu a avisar… Veio Pedro, veio o outro discípulo que viu e acreditou. Acreditou que daquele inesperado vazio ressaltava uma ainda mais inesperada presença. 
A presença de Cristo ressuscitado, esta mesma que aqui nos chama e reúne, para daqui nos enviar em anúncio jubiloso: A morte está vencida, sabemos Quem a venceu e como a venceu. Este é também o Evangelho todo.
Somos cristãos porque nos transfiguramos nesta luz. Fixemo-nos no que entrevemos, como ao Ressuscitado ainda. O que já cremos antecipa-nos a visão clara. 

Como escreveu São Paulo – ele, que aliás beneficiara duma aparição tão particular naquela estrada de Damasco: «Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois veremos face a face» (1 Cor 13, 12).
Sim, num espelho que se desembacia sempre que nos fixamos onde o Ressuscitado mais nos fixa. Na meditação do Evangelho, concentrando-nos nas passagens, nos gestos e nas expressões de Jesus, que são outras tantas “palavras da salvação”. 
Pouco a pouco, mais e mais, é com Ele mesmo que deparamos, mais intenso hoje, mais irresistível sempre. É a proposta da lectio divina, lendo atentamente, meditando profundamente, orando sentidamente e adorando por fim, como Tomé se rendeu ao Ressuscitado: «Meu Senhor e meu Deus!»      
Espelho que se desembacia quando adoramos a Cristo nos sinais sacramentais da sua presença, sobretudo nas “espécies” eucarísticas que isso mesmo significam: o que se pode ver dum esplêndido infinito.
Espelho que se desembacia nos olhos que nos fixam com a verdade e a caridade de Cristo, que por eles nos chegam. Foram e são certamente muitos os que assim nos beneficiaram, como hão de ser os nossos, para quem olharmos. Como tão bem os cantou uma grande poetisa portuguesa, desenganada doutros sinais mas certíssima deste: «Só o olhar daqueles que escolheste / Nos dá o Teu sinal entre os fantasmas» (Sophia, Não darei o teu nome).  
Espelho desembaciado sempre que O vislumbramos no irmão que sofre – e que sofre por não ser visto, ouvido e atendido. Nisto precisamente, como o testemunham tantos episódios da santidade cristã, em que o serviço ao irmão foi serviço a Cristo, assim mesmo revelado e certeiro.
Porque a visão do Ressuscitado é mútua e reflexa, uma troca de olhares em convivência perfeita. Acontece na atmosfera nova daquele “primeiro dia” duma semana infinda, como a caridade que nunca acabará.
Aqui, em celebração esplêndida e festiva, como felizmente estamos. E depois, onde tudo continuará forte e luminoso, se nos mantivermos com Cristo nos lugares onde nos espera e donde já nos vê. Os que atrás mencionámos em geral, se agora os vivermos no nosso particular, na relação com os outros, ao modo evangélico dos ressuscitados e até que Cristo seja tudo em todos. 
A ressurreição de Cristo não é um espetáculo para ver de fora, é um mundo novo a acontecer entre nós. Como transbordou do túmulo vazio, preencherá também os vazios existenciais que aí estão agora, que aí estão urgentes. 

Sé Patriarcal, 21 de abril de 2019

+ Manuel, Cardeal-Patriarca


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