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Discurso do Cardeal Patriarca na abertura do ICNE
06 de Novembro de 2005
Discurso do Cardeal Patriarca na abertura do ICNE

CONGRESSO INTERNACIONAL PARA A NOVA EVANGELIZAÇÃO

 ABERTURA DA SESSÃO DE LISBOA

DISCURSO DE D. JOSÉ DA CRUZ POLICARPO

CARDEAL-PATRIARCA DE LISBOA

Mosteiro dos Jerónimos, 6 de Novembro de 2005

 

 

        1. É com alegria e emoção que declaro aberta a terceira Sessão do Congresso Internacional para a Nova Evangelização. Amontoam-se no meu espírito, constituindo a densidade e a beleza deste momento, os diversos sentimentos que ocuparam o nosso coração durante este já longo percurso: a ousadia de ter aceite que Lisboa participasse neste dinamismo apaixonante de manifestação, aos nossos contemporâneos e concidadãos, da actualidade de Jesus Cristo e da Sua mensagem libertadora; a alegria de um Pastor ao ver a sua Diocese, que não fora consultada para a decisão, mas abraçou a iniciativa com entusiasmo; a beleza da comunhão entre diversas Igrejas, empenhadas num mesmo projecto evangelizador, o que nos ajudou, a nós, Igreja de Lisboa, a redescobrir a nossa vocação de abertura à universalidade, matriz constitutiva da nossa cultura e da nossa história; o louvor pelas graças recebidas de Deus, a gratidão por tanta colaboração abnegada e entusiasta. Este não é momento para triunfalismos. Vivemo-lo com a humildade de quem confia, a emoção de quem agradece, a ousadia de quem acredita.

            Saúdo todos os Congressistas vindos de Viena, Paris, Bruxelas e Budapeste. Queremos acolher-vos com a amizade fraterna com que os Congressistas de Lisboa foram recebidos em Viena e Paris. De vós aprendemos o entusiasmo contagiante que nos sustentou na longa preparação do Congresso em Lisboa. Representantes das Igrejas de cinco capitais europeias, juntos na determinação de dar actualidade ao Evangelho nas nossas sociedades, pode ser a fonte de uma esperança renovada para a Europa, este velho continente que busca arduamente novos caminhos de unidade e de solidariedade, para os quais tem de contribuir, de forma decisiva, a matriz cristã da sua cultura. A vossa presença aqui oferecerá ao testemunho de fé que queremos dar a esta cidade, a dimensão da voz uníssona de uma Igreja unida.

 

            2. Saúdo, também, a nossa querida cidade de Lisboa, os seus autarcas, e quantos nela lutam por construir uma cidade de convergência e de convivência. E uma maneira de saudar Lisboa é apresentá-la àqueles que nos visitam. Segundo uma antiquíssima tradição, Lisboa veio do mar, quando navegadores se abrigaram no abraço acolhedor do estuário do Tejo. A alma de Lisboa é incompreensível sem a sua relação com o rio que a projecta para a universalidade do oceano infinito. Lisboa é uma cidade sempre à espera de quem chega e sempre disposta a partir, como se o mundo fosse o seu prolongamento natural. Aqui aportaram mensageiros amigos e exércitos dominadores, comerciantes e aventureiros. Aqui se misturaram culturas e credos, o cristianismo, o judaísmo, o islamismo, que aqui ensaiaram experiências de convivência, que bem poderiam ser inspiradoras para desafios da sociedade contemporânea. Também a fé cristã veio do mar, pois o anúncio de Jesus Cristo chegou até nós, através da fé de soldados e comerciantes, implantando em terras que haveriam de chamar-se de Santa Maria, a árvore frondosa do cristianismo.

            Mas porque Lisboa é uma cidade onde os seus habitantes estão sempre prontos a partir, atraídos pelo fascínio do desconhecido, daqui partiram à descoberta do mundo, navegadores e exploradores, soldados e homens de negócios, missionários e homens de cultura, que levaram consigo a fé e a língua. Partir em missão não é, propriamente, uma experiência inédita para Lisboa. Na actual implantação do catolicismo no mundo, são cerca de quinhentas as dioceses que têm na sua origem a missionação portuguesa. E se a nossa língua é, hoje, a verdadeira fronteira da Nação Lusa, a fé e a cultura cristãs são a nossa principal plataforma de presença e de diálogo com o resto do mundo.

            Evangelizar Lisboa é fazê-la reencontrar-se com esta história, tecida de lágrimas, de aventuras e ideais. É continuar à espera de quem chega – e continuam a chegar aos milhares – para os acolher à nossa maneira, com o calor da fraternidade cristã, e não deixar morrer essa disponibilidade para partir, sempre em missão, seja qual for o motivo da partida. Evangelizar Lisboa é ensinar a acolher com amor aqueles que chegam, é preparar todos os que partem, para partirem em missão, porque levam no coração a alegria da vida e o ideal da fraternidade, valores há séculos semeados na nossa cultura pela fé cristã.

            Mas evangelizar Lisboa é também olhar com solicitude e amor a sua complexa realidade de grande cidade, onde o “chegar” e “partir” têm mais a ver com a dolorosa mobilidade exigida pela cidade moderna, da periferia para o centro e deste para a grande Lisboa, em busca de trabalho, de divertimento, de ajuda e consolação; o trabalho não realiza, o amor não é sempre caminho de felicidade, a solidão compromete a alegria, a precariedade leva a identificar a vida com as respostas imediatas que se alcançam. E porque a construção da felicidade é indesligável da profundidade, é urgente acordar no coração das pessoas os seus anseios de felicidade e de profundidade, para poderem não desistir da vida. Como Jesus chorou sobre Jerusalém, também a mim me apetece, por vezes, chorar sobre a nossa cidade, esta cidade que eu amo.

 

            3. Em Paris o Senhor Cardeal Lustiger entregou-me, como quem comunica o testemunho, um exemplar dos “livros da vida”. Nestes “livros da vida”, solenemente trazidos à Catedral pelas paróquias da cidade e depostos aos pés de Maria, os parisienses escreveram, durante a semana, os seus anseios e alegrias, os seus sofrimentos e preces. São pedaços da vida de uma grande cidade, apresentados em prece e com esperança, através da mediação da Igreja, a Deus, fonte da Vida.

            Queremos que durante esta semana esteja erguido diante do altar de Deus e confiadamente posto aos pés de Maria, o grande livro da vida de todos os habitantes de Lisboa, crentes e descrentes, os seus sofrimentos e anseios, os seus projectos e ideais, as suas lutas e dificuldades, tanto na edificação da Igreja, comunhão de pessoas, como na construção de uma cidade mais justa e fraterna. Também por isso escolhemos como mensagem central do Congresso, a plenitude da Vida, que nos é manifestada e oferecida em Cristo Vivo. Cristo habita na cidade, é uma proposta contínua de comunhão de vida e de amor. Esta actualidade de Jesus Cristo é uma realidade iniludível. Felizes aqueles que a experimentam, porque acreditam. E esses têm de dar testemunho disso, com alegria.

 

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


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