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Doutoramento Honoris Causa de Jesué Pinharanda Gomes na UBI
21 de Março de 2018
Doutoramento Honoris Causa de Jesué Pinharanda Gomes na UBI
Começo por agradecer à Universidade da Beira Interior a iniciativa deste feliz Doutoramento Honoris Causa de Jesué Pinharanda Gomes. Sei que se insere na intenção de reconhecer académica e publicamente a pessoa e a obra de autores beirões que indiscutivelmente o merecem. Alguns há muito tempo, como é o caso do novo Doutor. Felicito vivamente esta Universidade por assim querer e fazer. E acrescento que desse modo cumpre o ideal universitário na letra e no espírito.Na letra, porque “universidade” significa amplidão de conhecimentos sérios e abertura às múltiplas aproximações que a realidade requer. E no espírito, porque tal inclui vistas largas e largueza de ânimo.
Quando as Universidades nasceram, do ano mil em diante, juntaram às antigas artes liberais os conhecimentos necessários ao corpo físico, ao corpo social e ao corpo eclesial da Cristandade de então. A modernidade acrescentou-lhes o conhecimento já científico da realidade natural, como se ia desvendando. Mais perto de nós, o método juntou ao campo natural e humano a sociocultura em geral e nas respetivas conexões.  
Tanto se conseguiu e tanto se desbravou que cada estudo permanecia em si mesmo, restringindo o objeto de cada saber e perdendo facilmente o sentido do todo, ou mesmo a ambição de o enxergar. No século XIX, balançou-se entre a ideia total e totalizante e a positividade fática e bastante, como se entendiam. Tudo isto é compreensível, mas igualmente datado, na sucessão das épocas e nas tentativas de resposta. 
Concluamos, no entanto, que estávamos quase nos antípodas do primeiro ideal universitário, que ambicionava o saber integrado, quando não mesmo integral. Verifiquemos, ainda assim, que os ramos do saber se dividiram e subdividiram exponencialmente, o que em si mesmo foi um bem, pois o todo ganhou densidade e cada parte maior profundidade e certificação. 
Profundidade, passe a comparação, requer mergulho e equipamento capaz. Mas, usando ainda a imagem, convenhamos que é bom voltar à superfície, para podermos divisar o todo. Esse todo em que quantidade e qualidade já se tocam. Esse todo em que o ideal universitário ainda e sempre se conjuga.

Nisto situo também o Doutoramento Honoris Causa de Jesué Pinharanda Gomes. Não pôde seguir o percurso universitário estrito e estreito do Portugal de então. Nem sei mesmo se o queria fazer na área que lhe interessava e como era oficialmente ministrada. Mas desenvolveu uma intensa e imensa atividade de pesquisa, reflexão e escrita, que integrou bem os vários itens que o espírito universitário há de manter no seu exercício. Da história local à regional, da biografia às instituições e movimentos, dos autores às correntes de pensamento ou literatura, tudo versou muito e bem, especialmente nas fontes que descobriu e fez descobrir, nos mundos que abriu e nos fez olhar.   
Agradeço pessoalmente o honroso convite para vos dirigir estas palavras no Doutoramento Honoris Causa de Jesué Pinharanda Gomes, bom amigo de há vários anos e tantos serviços.
Conhecemo-nos de perto nos anos oitenta, quando, tive necessariamente de o procurar. Explico o “necessariamente”: Vindo da História para a Teologia e a História da Igreja em Portugal, interrogava-me então sobre o que acontecera ao pensamento católico português depois de 1834. O que acontecera à “metade dos nossos sábios”, como Herculano se referiu n’ Os egressos aos que culturalmente desapareceram, ou pareceram desaparecer, com a extinção dos institutos religiosos masculinos. Ou mesmo aos “frades” que o Garrett das Viagens na minha terra não apreciava por aí além, mas mesmo assim preferia aos prosaicos barões que lhes sucederam. 
Intrigavam-me as lacunas que depois se evidenciaram, sobretudo dos elos que nos trouxessem à vitalidade de pensamento e ação que, apesar de tudo, a parte católica da sociedade portuguesa manteve e acrescentou antes e depois de 1910. Essa mesma que nos anos vinte e trinta do século passado lhe permitiu até algum renascimento na sociedade e na cultura. 
Na procura que então fazia rapidamente deparei com os escritos de Pinharanda Gomes sobre factos e figuras que, do século XIX para o XX, integraram o “movimento católico” em Portugal. E quase só ele o fizera sistematicamente, devolvendo-nos um passado desconhecido mas real, ignorado mas consequente.
Procurei-o então, pessoalmente e por escrito. Nunca me faltou resposta, sugestão e apoio. Como já tive ocasião de escrever, caraterizando-o como “saber amigo”: «Por experiência pessoal e grata, sei como Pinharanda partilha tempo e conhecimento, preciosos ambos, com quem o procura em busca de informação, enquadramento ou perspetiva. Com a simplicidade de quem verdadeiramente sabe, quer dizer, saboreia a verdade, difusiva por essência» - assim o afirmei no colóquio realizado no Porto em abril de 2003, dedicado ao seu pensamento e obra, e assim o quero repetir aqui (Manuel Clemente, «Pinharanda Gomes – O saber amigo». In O pensamento e a obra de Pinharanda Gomes. Atas do Colóquio realizado no Porto a 11 e 12 de abril de 2003, Lisboa, Fundação Lusíada, 2004, p. 81). Tanto mais quanto esta união de quantidade e qualidade de saber compartilhado realiza sumamente o ideal universitário, como era e há de ser. Também por isso agradeço e saliento o seu Doutoramento Honoris Causa, dando-lhe particular oportunidade e conveniência no meio académico português.

Num seu texto de 1969 - introduzindo Liberdade de pensamento e autonomia de Portugal, Lisboa 1969 – Pinharanda alude às suas raízes corográficas nos seguintes termos: «Nasci na fronteira, junto à raia. Meu berço foi uma aldeia povoada de contrabandistas, encravada nas furdas do selvagem nordeste beirão». Furda é como choupana, abrigo possível. O bastante para sobreviver à invernia ou à estiagem, como ignorar a fronteira era o risco para alguma coisa mais.
Este trecho ajuda-nos a entender o autor. Raia, furda e risco para algo mais. Em quantidade certamente, rumando à Guarda, depois da escola primária, para trabalhar e estudar. E saltando depois até Lisboa, quando tantos conterrâneos seus saltaram para além fronteira em demanda de vida melhor. Nascido em 1939 e, como lhe disse sua mãe, a 16 de julho, dia de Nossa Senhora do Carmo, está na Guarda em 1950 e em Lisboa em 1959. Fazendo literalmente pela vida, nalgum trabalho que conseguiu, até estabilizar nos Tratores de Portugal de 1961 em diante. Em 1971 casou com Judite da Conceição Santos. Fixa-se em Santo António dos Cavaleiros, paróquia confiada aos padres carmelitas, aprofundando com eles a espiritualidade própria da Senhora do seu nascimento.
Tudo isto chegaria para uma vida conseguida, entre vários trabalhos e boas relações, mas não nos justificaria aqui e agora, nesta feliz circunstância. Justifica-nos sim, e sobremaneira a ele, o facto providencial de ter encontrado em Lisboa o meio e o estímulo para o seu trabalho intelectual. O meio físico foi a Biblioteca Nacional, quase segunda casa, que parecia a primeira, tanto lá foi, tanto lá desbravou com aplicação incansável, anos e anos. O estímulo foi o dos mestres e amigos com que privou, mormente o do chamado Grupo da Filosofia Portuguesa, com destaque para discípulos de Leonardo Coimbra, que continuavam em Lisboa o que este mesmo tinha começado na Faculdade de Letras do Porto, ou seja, a compreensão alargada do ser e do saber, sem predeterminações funcionais nem redução do campo reflexivo. Para tal, a mesa de café podia substituir o edifício escolar e o debate livre a formalidade letiva. 
Cabe citar aqui a síntese de Ângelo Alves no já referido colóquio de 2003: «… perante o estendal da bibliografia de Pinharanda Gomes, senti-me sem rumo, como que perdido no alto mar. Olhando o céu, demoradamente, descobri uma estrela: Leonardo Coimbra; e seguindo a sua rota, encontrei um porto de abrigo: Entre Filosofia e Teologia». Caraterizando-o como «um caso invulgar de vocação intelectual na área filosófica» o autor pergunta-se como lhe nasceu tal «vocação». Para responder: «De harmonia com o seu testemunho, aconteceu no convívio de Magistério extra-escolar com os discípulos de Leonardo Coimbra, da primeira geração, nomeadamente, Álvaro Ribeiro e José Marinho, ambos no “exílio” de Lisboa. […] O poeta-amigo Luís Zuzarte levou-o ao Café Colonial, na freguesia dos Anjos, em Lisboa, onde às Quintas-Feiras reunia a tertúlia da Filosofia Portuguesa, a qual nesse ano, talvez 1960, e durante sucessivos meses, debatia em discreto colóquio o tema do amor.» (Ângelo Alves, «Na senda de Leonardo Coimbra. Entre Filosofia e Teologia». In O pensamento e a obra de Pinharanda Gomes. Atas, p. 29). 
Não será de citar aqui a vastíssima bibliografia de Pinharanda Gomes nos variados campos a que se dedicou. Remeto-vos para as Atas do Colóquio de 2003, p. 284 ss, espraiando-se da Filosofia e História da Filosofia à Religião e História Eclesial, à Política e História Política e Social, da Geografia à Etnografia e à Linguística, da Literatura a outra Bibliografia em geral. E também para a entrada que lhe dedica Elísio Gala no Dicionário Crístico de Filosofia Portuguesa, coordenado por Maria de Lourdes Sirgado Ganho (Lisboa, Temas e Debates – Círculo de Leitores, 2016, p. 232-234). Admira-nos pela quantidade e surpreende-nos muitas vezes pela qualidade e a originalidade das fontes e das reflexões.

Parto ainda dum trecho do Colóquio de há quinze anos, para finalizar esta minha digressão. É de João Bigotte Chorão, quando assim escreve: «Partindo do campo [Quadrazais] para a cidade [Guarda], pequena cidade serrana, Pinharanda viajou enfim até à capital, na expetativa de mais rasgados horizontes e de melhor sorte. Homem do interior, descobre o Tejo e o Atlântico, o rio e o mar da expansão e da nossa vocação ecuménica. Terá sentido aí mais vivamente, não já como expressão individual mas como expressão coletiva, o sentimento da saudade – essa nostalgia do que fomos e deixámos de ser. As futuras reflexões de Pinharanda sobre a saudade e a pátria terão tido aí sua origem. […] Do telúrico para o antológico, eis aí o seu percurso para a construção de uma patriossofia» (João Bigotte Chorão, «Pinharanda Gomes ou o espírito da letra». In O pensamento e a o obra de Pinharanda Gomes. Atas, p. 62).
O autor desvenda-nos no percurso geográfico de Pinharanda Gomes a base física do seu caminho mental. Regressemos então a Quadrazais, para melhor nos situarmos hoje aqui e na circunstância académica que com ele compartilhamos, por feliz iniciativa da Universidade da Beira Interior.
Desculpo-me por dar a este último trecho um cunho quase ensaístico… Para regressar muito atrás, a 18 de abril de 1758, quando o então abade de Quadrazais, Paulo Correia da Costa, concluiu a sua resposta ao questionário enviado pelo Governo da altura a todos os responsáveis paroquiais do país, depois do grande terramoto de 1755 (cf. José Viriato Capela e Henrique Matos, As Freguesias do Distrito da Guarda nas Memórias Paroquiais de 1758, Braga, 2013, p. 485-489). 
Não por curiosidade, antes por causalidade quase. A memória pessoal ou coletiva é tanto maior quanto mais densa e duradoura for a base donde arranca. Assim com Portugal, memória tão povoada como antiga. Depois e além da história, como sentimento de recuperação. É assim que em Pinharanda Gomes a história se abalança a filosofia, tornado o espaço-tempo em sentimento refletido. Podemos falar dum passado sublimado em futuro, outro nome da saudade criativa. As suas terras de Riba Côa… Para o Abade Correia da Costa é esta a etimologia: «Este lugar de Coadrazais tem a sua denominação de uma ribeira chamada Côa que junto a ela passa em espaço de seiscentos passos pouco mais ou menos».As suas gentes de antanho: «Tem cento e noventa vizinhos, pessoas maiores quatrocentas e oito, e pessoas menores cento e vinte e uma, que todas fazem o número de quinhentas e vinte e nove menos as crianças».
A invocação mariana: «O orago desta freguesia é Nossa Senhora da Assunção. Tem a igreja quatro altares, a saber, o maior em que está colocado o Santíssimo Sacramento e também a mesma Senhora…».   
O que tiravam da terra e as condições em que o conseguiam: «Os frutos de maior abundância que se costumam colher nesta freguesia são trigo, centeio, castanha e linho, e de tudo isto pouco por ser país frigidíssimo e ter sido este povo na guerra próxima passada invadido e saqueado do inimigo…»
Como era difícil comunicar mais além: «Não tem este povo correio. E se serve do correio da cidade da Guarda na distância de seis léguas e também do da vila e praça de Penamacor na distância de quatro. E tão-somente há poucos anos que na vila do Sabugal de que é termo há um estafeta que leva e traz as cartas…».
E a transfronteira montanhosa, de serra em serra: «A serra que se acha mais imediata a este povo de Coadrazais é uma chamada a serra da Lomba, que dista deste povo para a parte do Sul um tiro de bala de artilharia. […] Principia em uma serra que [chamam] a serra da Nave Molhada, ou por outro nome a Serra das Mesas […], por partir em nela quatro bispados, dois de Portugal e dois de Castela…» 
Nestas notícias de meados de setecentos soma-se muito do que Pinharanda incluiu na sua vida: A terra raiana, que tanto dividia como abria além. O povo esforçado que persistia sempre. A comunicação morosa, mas ainda assim. Acompanhámo-lo nós, de Quadrazais para a Guarda e para a capital, com mais facilidade no transporte mas sem grandes facilidades de sobrevivência, até conseguir trabalho e sustento. Trouxe da sua infância raiana o desejo de ir mais longe e subir mais alto, em Portugal como terra e em Portugal como assunto, redescoberto nas suas raízes e alcançado nos seus rasgos.
Universalizou-se deste modo, como a Universidade da Beira Interior o doutora felizmente agora. Resta-me fazer minhas as desculpas com que o Abade de Quadrazais terminava o seu relatório de 1758: «Vai respondido às circunstâncias expressadas nos interrogatórios do folheto junto, com aquela exação que coube na minha capacidade. E se por algum modo faltasse, não foi em mim malícia, mas poderia ser negligência, por que me confesso sujeito e oferecido a qualquer correção que justamente mereça».
Para concluir desta maneira: Movendo-nos assim, da raia ao centro, partindo da terra e passando montes, com a história que narra, a filosofia que pensa e a teologia que crê, a saudade leva-nos longe – e mais longe sempre, para nos reencontrar no futuro. 

- Muito obrigado, caríssimo Doutor Pinharanda Gomes, por ser tão boa companhia!  

Covilhã, Universidade da Beira Interior, 20 de março de 2018

+ Manuel Clemente       

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