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Missa de sufrágio pelas vítimas dos incêndios
20 de Dezembro de 2017
Missa de sufrágio pelas vítimas dos incêndios
Um mundo melhor, para o futuro de todos

Associo-me inteiramente e deste modo à memória e ao sufrágio das vítimas dos incêndios que tantas vidas atingiram e tantos danos causaram em junho e outubro do ano que agora finda. A todos, familiares, vizinhos e amigos, manifesto a minha solidariedade e companhia. Também a gratidão profunda a quantos - Bombeiros e Autarquias, Estado e Forças Armadas e de Segurança, organizações sociocaritativas e de solidariedade social, dioceses e paróquias - organizados ou por si mesmo, foram e continuam a ser junto de quem tanto sofreu e dos familiares das vítimas, a expressão mais clara e efetiva do que somos e queremos ser como sociedade altruísta. Saúdo de modo especial os promotores da presente celebração, no Dia Internacional da Solidariedade Humana. 
Agradeço também a disponibilidade desta comunidade paroquial e do seu pároco, que sempre acolhem quem oportunamente deseja marcar, em espaço tão denso e expressivo, sentimentos coletivos e cristãmente inspirados. Este templo, dedicado a Santa Maria de Belém, recolhe plástica e liturgicamente o que poderemos designar com “alma portuguesa”, na evocação do melhor passado para garantir o melhor futuro. Tão solidário e criativo como foi e ainda mais há de ser. 
Por isso mesmo, os sentimentos que aqui nos trazem são repassados pela liturgia de hoje, como se celebra em tempo de Advento. Ouvimos trechos bíblicos que nos falam da grande esperança dum povo antigo na “vinda” mais sensível do seu Deus. Assim com a primeira leitura, assim com o salmo que cantámos. Assim e sobretudo com a magnífica página do Evangelho proclamado, precisamente o da Anunciação a Maria.
Reforcemos a atenção a este ponto, tão coincidente com a atual circunstância. Naquele dia uma jovem de Nazaré de Galileia, como que concentrando em si e esperança profunda do seu povo, recebeu de Deus uma resposta tão inédita como criativa: «Não temas!». E respondeu como ouvimos: «Faça-se em mim segundo a tua palavra!». Essa palavra que Maria aceitou e nela incarnou chamou-se Jesus. 
Naquele momento era só uma jovem, por um povo inteiro. Dois mil anos depois estamos nós aqui. E estais vós especialmente, os que estivestes e continuais a estar na primeira linha da recriação de quanto foi atingido pelos incêndios, em vidas, casas e haveres. Pois bem, da parte de Deus a voz será idêntica: «Não temais! Acreditai! Segui em frente na recriação de tudo, como pelo “sim” de Maria nasceu Jesus e se recriou o mundo». E pela graça desta celebração, os que partiram reviverão com Deus. E pela graça desta celebração os que ficaram refarão a vida.
Na celebração que fazemos e oportunamente em Igreja, ouvimos o trecho evangélico da Anunciação, quando Maria acolheu e corroborou o pedido divino de conceber Jesus e assim permitir que Ele fosse “Emanuel”, palavra que significa “Deus connosco”. Podemos dizer que este é por excelência o ponto cristão. Deus propõe-nos tudo e, ao mesmo tempo, quer depender de nós em quase tudo, do nosso sim, da nossa colaboração. Quando respondemos, como ouvimos à Virgem Maria, «faça-se em mim segundo a tua palavra», tudo se torna possível na ordem do bem e acontece depois.  
É precisamente esta realidade que nos garante o “Natal”. É o nascimento de Deus neste mundo, como aconteceu com Cristo e como acontecerá connosco, que herdámos o seu Espírito. Pouco ou nada podemos só por nós, tudo poderemos sim, segundo Deus. Maria cantará pouco depois, no seu Magnificat: «O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas». E São Paulo, certamente admirado com o que já sucedia com ele e outros dos primeiros cristãos, glorificaria depois a Deus «que pode fazer imensamente mais do que pedimos ou imaginamos, de acordo com o poder que eficazmente exerce em nós» (Ef 3, 20).
Estimados senhores e amigos, retenhamos a atitude de Maria diante do anúncio que recebeu. Toda a humanidade se move por aquilo que a supera e, no entanto, não pode dispensar, venha o que vier, suceda o que suceder. De verdadeiro, de bom e de belo, segundo os transcendentais que nos qualificam como seres humanos e sempre nos fazem viver e reviver, mesmo quando quase nos sentimos esmagados pelas circunstâncias.
Durante e depois dos trágicos incêndios que aqui lembramos, o mal foi grande e a dor foi muita. Mas não faltaram nem faltam gestos de grande generosidade e valentia, para acorrer, para salvar o possível, para prevenir e restaurar. Estou certo de que a generalidade desses gestos e ações foi impulsionada pelo mesmo Espírito que criou o mundo e pulsa em todos nós para seguir em frente, melhorar o que falta e recomeçar quando é preciso. Quando isto acontece, cada um repete de algum modo o que ouvimos a Maria na Anunciação, respondendo ao apelo divino: «Faça-se em mim, segundo a tua palavra». A palavra criadora e recriadora que, saindo continuamente de Deus, ecoa felizmente em tantos.
Com a Anunciação a Maria, Deus respondeu ao apelo do mundo. Com o alerta às consciências de agora, Deus continua a suscitar respostas solidárias. É assim que o Evangelho há pouco escutado ilumina e reforça as solidariedades que aparecem. Digamos convictamente, diante da boa vontade manifesta: Graças a Deus!    

Nós e a natureza - mais propriamente a “criação” de que somos a parte central e o ponto de consciência e decisão. Quando a harmonia é perfeita e o respeito pela natureza física e espiritual é um facto, tudo decorre como os Evangelhos narram sobre Jesus Cristo, as curas que fazia e as tempestades que acalmava. No Espírito de Cristo, muitas biografias nos falam de algo semelhante. O Santo Padre inspirou-se em São Francisco de Assis e no seu Cântico das Criaturas para nos oferecer a encíclica Laudato si’ sobre o cuidado da casa comum.
É desta encíclica que retomo dois pontos, tão breves como importantes, para prevenir melhor futuro. O primeiro é sobre a urgente recuperação ou efetivação duma ecologia integral em que tomemos como essencial e prioritária a relação com o meio ambiente, de que somos parte - não exterior e muito menos estranha. Num país como o nosso, em que a grande maioria da população se foi concentrando no litoral, corremos o risco de nos esquecer da grandeza do território, despovoado e pouco ou mal cuidado. A antiga relação, que era imediata e vital, com a agricultura e a floresta, foi-se perdendo, e até a própria memória de propriedades e responsabilidades se foi esvanecendo em muitos casos. – Quem se lembra donde provém o que come, o que bebe e mesmo a qualidade do que respira? Quem reconhece e agradece o que a “mãe terra” lhe dá e a harmonia da criação lhe garante? Quantos nos detemos a olhar para o conjunto do território como campo a tratar no seu todo, para além dalguma excursão turística ou dum sobressalto desastroso? 
Como adverte o Papa Francisco, natureza e sociedade são duas dimensões conjugadas do nosso existir como pessoas, isto é, seres em relação. Uns com os outros e todos com tudo o que nos rodeia e sustenta: «Quando falamos de “meio ambiente”, fazemos referência também a uma particular relação: a relação entre a natureza e a sociedade que a habita. Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos. […] É fundamental buscar soluções integrais que consideram as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza» (Laudato si’, 139).
Ainda mais do que reconstruir edifícios, temos agora de nos reedificar como sociedade mais integrada, da cidade ao campo e do litoral ao interior. Reordenando o que for preciso reordenar, acompanhando quem temos de acompanhar, sanando o que mais urgir, tanto na saúde das pessoas como nas feridas que abrimos ou deixámos abrir no fundo, à superfície e na atmosfera da terra de nós todos. 
Com isto se prende um outro ponto que retenho da encíclica ecológica do Papa Francisco, alertando para a atenção institucional que, nos vários níveis da sociedade nos garantam um verdadeiro bem comum: «Se tudo está relacionado, também o estado de saúde das instituições duma sociedade tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana. […] Neste sentido, a ecologia social é necessariamente institucional e progressivamente alcança as diferentes dimensões, que vão desde o grupo social primário, a família, até à vida internacional, passando pela comunidade local e a nação» (Laudato si’, 142).
Em suma e conclusão, estimados irmãos, senhoras e senhores: Sufragando tantas vítimas de tão grandes incêndios; agradecendo a solidariedade ativa dos que salvaram vidas e haveres; e desses e doutros que entretanto se juntaram para uma reconstrução que não sofre improvisos nem demoras, façamos agora o que devíamos ter feito já, no sentido duma sociabilidade nova e do respeito pelo mundo natural que o Criador nos confiou. Regressando ao Evangelho desta Missa, há dois mil anos Deus recriou o mundo com o “sim” de Maria. Que o nosso “sim” o garanta melhor para o futuro de todos! 

Lisboa, Santa Maria de Belém (Jerónimos), 20 de dezembro de 2017

+ Manuel, Cardeal-Patriarca  

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