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Homilia no Corpo de Deus, no Congresso Eucarístico de Angola, no Huambo
18 de Junho de 2017
Homilia no Corpo de Deus, no Congresso Eucarístico de Angola, no Huambo
Um Congresso para um tempo novo

Irmãos caríssimos

O Evangelho que ouvimos, depois das outras leituras, oferece-nos a melhor conclusão do Congresso Eucarístico que celebrámos nestes dias. Na verdade, São Lucas concluiu quase assim o seu Evangelho, para nos dizer como tudo pode e deve continuar, sempre com Cristo vivo, que origina o reencontro e desencadeia o testemunho. Antes de mais Ele próprio, que vem ao nosso encontro. E consequentemente nós, que o comunicaremos depois, cada vez mais e melhor, porque mais experimentado também.
Estes dias que aqui vivemos, de convívio, catequese, celebração e partilha devem ser lidos assim mesmo, porque o caminho de Emaús foi Huambo e os discípulos fomos nós no Congresso, alargando em conjunto o pequeno número daqueles dois. 

Porque eram dois os discípulos, primeiros de tantos outros, e não menos do que isso, já que a promessa do Ressuscitado também pressupõe dois ou três, que se reúnam em seu nome. Na verdade, o lugar por excelência e a garantia segura da visão do Ressuscitado é a comunidade cristã, seja a família, seja a paróquia, seja qualquer outra concretização autêntica do ser Igreja de Cristo. 
Como foi entre nós e nestes dias, que levaremos na memória viva e no testemunho ativo. Como geralmente acontece na experiência cristã, estes momentos fortes revelam-nos a presença do Ressuscitado como origem, conteúdo e alma de quanto se passa e de quanto perpassa de uns para os outros, surpreendentemente, realmente. 
- Como se poderia explicar doutro modo a familiaridade que quase imediatamente se propagou, como se estivéssemos em casa, mesmo não sendo a nossa casa e mesmo não sendo os rostos do costume? - Como é que partilhámos com tanta espontaneidade e confiança os sentimentos e as convicções, as dificuldades e as esperanças? 
Basicamente, caríssimos irmãos, porque Alguém nos familiarizou primeiro, com Ele e com os outros a partir d’Ele mesmo, tornando-se vida e convivência, envolvimento e companhia. Percebemos então que a Igreja é realmente o seu corpo comunitário e o sinal visível do amor que compartilha, connosco e através de nós. 
«Jesus aproximou-se deles e pôs-se com eles a caminho»: Foi assim naquela tarde do primeiro Domingo da história. É assim connosco, dois milénios depois. Foi-o muito especialmente nestes dias de Congresso. Partiremos daqui mais esclarecidos e convictos do que é o facto cristão por excelência, sempre original e motivador: Jesus ressuscitado aproxima-se de nós, pois a sua ressurreição lhe possibilita agora uma presença universal, ativa e constante. 
E uma presença para os outros, como há de chegar a todos e como faz de nós, mais do que simples recetores, testemunhas jubilosas da sua companhia. Como foram aqueles dois que o Evangelho mencionou, como foram depois tantos outros e outras, como os que trouxeram o anúncio a estas terras de Angola. – Não vamos sós, porque Jesus ressuscitado vai connosco sempre e até nos precede!     

Nas celebrações, conferências, catequeses e diálogos destes dias, muitas palavras ressoaram aqui. Não faltaram proclamações e referências às Sagradas Escrituras, repositório que são de quanto os nossos antepassados reconheceram como comunicação de Deus ao povo bíblico. Tudo encaminhado para a palavra final em que o próprio Deus se disse a si mesmo: Jesus Cristo. Como o autor da Carta aos Hebreus sintetizou magnificamente, quase enunciando toda a teologia cristã: «Muitas vezes de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo» (Hb 1, 1-2).
Pois bem, assim como duns para os outros se aproximou Cristo vivo, assim pelas palavras que trocámos, evangelicamente inspiradas, também «Ele nos falou pelo caminho e nos explicou as Escrituras». E com o mesmo efeito, certamente, de «nos fazer arder o coração». 
Sabemo-lo bem. Quando nos reunimos em nome do Senhor, isto é, porque Ele mesmo nos chama e agrega; quando ouvimos a sua palavra, de coração disponível e bom entendimento, tarde ou cedo um versículo, uma parábola, uma alusão, tocam e sensibilizam o nosso ser mais profundo, fazendo-nos verdadeiramente acreditar e motivando uma autêntica conversão. 
Acontecia assim com os primeiros ouvintes de Jesus, como outra passagem evangélica não deixa de referir: «A numerosa multidão ouvia-o com agrado» (Mc 12, 37). Assim connosco e muito especialmente na celebração, onde a Palavra precede o Sacramento, pois é acolhendo-a com alegria que a agradecemos depois ao mesmo Deus que, em Cristo, inteiramente a profere. E nos tornamos depois como que o seu eco, repercutindo-a sempre.
Também com os discípulos de Emaús tal aconteceu. Entraram com Jesus em casa e abriram-se-lhes os olhos para o Sacramento, como já antes tinham aberto os ouvidos para a Palavra: «E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O.»
Depois sim, «partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e […] contaram o que tinha acontecido no caminho e como o tinham reconhecido ao partir do pão.»

Caríssimos irmãos, interpretemos a esta mesma luz quanto se passou connosco nestes dias do I Congresso Eucarístico Nacional de Angola. Se me permitis o alvitre, interpretai até o que se passa convosco, comunidade a comunidade, neste grande e promissor país e no excelente povo que sois.
Como cristãos, sois testemunhas dum Deus próximo, que em Cristo ressuscitado se aproximará de vós todos os dias e até ao fim dos tempos (cf. Mt 28, 20). Realmente, Ele próprio é o fim do tempo, pois nos abre a eternidade. Escutando-O e guardando a sua Palavra, arderá no vosso coração uma chama viva de amor inextinguível e expansivo. Reconhecereis na celebração eucarística o sinal constante da sua vida partilhada. E nunca mais deixareis de anunciar a sua Páscoa, primícias da Páscoa do mundo inteiro, quando, com Ele, tudo passar definitivamente para o Pai.
Entretanto, há muito por fazer, para que esse tudo chegue a todos. Uma comunidade cristã, que se torna corpo eclesial de Cristo porque se alimenta do seu corpo eucarístico, manifesta necessariamente e ativa sempre mais um modo eucarístico de viver, oferecendo-se a Deus em ação de graças e compartilhando-se mutuamente em caridade. Lembrava-o o trecho dos Atos dos Apóstolos que igualmente escutámos, referindo a primeira comunidade pós-pascal: «Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. […] Todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum».
Foi assim na altura, assim terá de ser agora. Peço a Deus pela Igreja em Angola, como com o Papa Francisco peço pela Igreja em todo o mundo, para que efetivamente aconteça. Quando reconhecemos a presença do Ressuscitado, começamos a ressuscitar também, para com Ele apressarmos aquele “Reino” que, sendo inteiramente de Deus para Deus, será necessariamente de todos para todos. 
E assim mesmo o I Congresso Eucarístico Nacional de Angola assinalará um tempo novo também. - Aquele que já começamos a viver, aquele que nos faz arder o coração!     

Huambo, Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, 18 de junho de 2017 

+ Manuel Clemente
Cardeal-Patriarca de Lisboa

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