Início
Mensagem de Natal do Cardeal-Patriarca de Lisboa
24 de Dezembro de 2008
Mensagem de Natal do Cardeal-Patriarca de Lisboa
 “O Natal é a vitória da vida e da esperança”


Senhores telespectadores e rádio-ouvintes,

             1. É Noite de Natal. O Natal é uma festa cristã; exprime o significado profundo do nascimento de Jesus Cristo, que os cristãos adoram como Filho de Deus feito Homem. A beleza da sua mensagem, radicada numa arreigada tradição cultural, faz com que a celebração do Natal envolva muito mais pessoas do que aquelas que, em celebração de fé, hão-de participar na celebração litúrgica. São todos esses, todos vós para quem o Natal é festa, que saúdo em nome da Igreja, para partilhar convosco, nesta noite, a fé da Igreja em Jesus Cristo, mas também aquele raio de luz que reacende a esperança. Esta abrangência de sentido exprime melhor o que significou para a humanidade o nascimento de Cristo. Ele é o Homem e, por isso mesmo, modelo de humanidade. Ele encerra a certeza de que a plenitude humana é possível e que ela se exprime na profundidade de um diálogo de conhecimento e de amor entre Deus e o homem. Jesus Cristo confirma historicamente que Deus existe, que nos ama e que não desiste de viver connosco e de nos conduzir à vida. Na exultação dos pastores de Belém está claro o anúncio da alegria e da paz, porque Deus ama os homens (cf. Lc. 2,14).

 

            2. Na Liturgia da Igreja o Natal é apenas um momento da celebração do mistério de Cristo: o Seu nascimento, a Sua missão profética, a Sua morte e ressurreição, a Sua ascensão ao Céu, a esperança da Sua manifestação definitiva. Nós sabemos que este Menino que nasceu em Belém é o mesmo Cristo que morreu por nosso amor. Na maneira como viveu a Sua vida, mostrou-nos que a dor não impede a alegria, que o sofrimento pode ser experiência de generosidade e de liberdade. Nunca experimentaremos a paz cristã, a que reacende a esperança, se não nos abrirmos à fecundidade do sofrimento. Isso foi anunciado a Maria, Sua Mãe, logo no dia da apresentação do Menino no Templo: “uma espada de dor trespassar-te-á o coração” (Lc. 2,35). E ela, a Mãe, guardou esta mensagem no segredo do seu coração (cf. Lc. 2,19 e 51).

            A modéstia, a incompreensão, a rejeição e perseguição, acompanharam Jesus do nascimento até à morte. Nasce numa manjedoura, porque não havia lugar para Ele na hospedaria (cf. Lc. 2,7); é forçado a fugir para o Egipto, para escapar à fúria de Herodes, o grande (cf. Mt. 2,13ss); rejeitado pelas autoridades religiosas, acabará por ser condenado à morte. Na vivência do sofrimento, Jesus dá-nos o testemunho da grandeza com que vive a vida. Ele sabe que o sofrimento é a sementeira dolorosa donde brotará a vida renovada. Procurou transmitir essa mensagem, exigente mas libertadora, aos seus seguidores: quem O quiser seguir, tenha a coragem de abraçar a sua própria cruz, isto é, a experiência do sofrimento (cf. Mt. 16,24).

            Na vida do homem, o sofrimento tanto pode destruir como libertar. Essa é a ousadia da mensagem cristã.

 

            3. É por isso que nesta noite de paz e de esperança tenho particularmente no coração aqueles que sofrem. Para eles o Natal não pode ser apenas a festa das luzes e das prendas, mas o fazer essa experiência maravilhosa de ver brotar da própria experiência da dor a serenidade e a paz.

            Penso particularmente nos doentes, sobretudo aqueles para quem o sofrimento se torna tão pesado que lhes tira a alegria de viver. Alguns desistem mesmo de viver e suplicam que os ajudem a morrer. Abram-se à esperança de que Jesus é a fonte; aceitem que a vida é uma batalha a ser travada com coragem e generosidade, que a nossa vida é um mistério que só Deus conhece. Peçam-nos que vos ajudemos a vencer essa batalha, peçam-nos para vos ajudar a viver, mitigando, se possível, o vosso sofrimento. Ninguém tem o direito de ajudar os outros a morrer. A coragem da última etapa da vida pode resumir e salvar essa vida.

            Mas não posso esquecer, nesta Noite, as famílias em dificuldades económicas, agravadas com a situação que o mundo está a viver. Também aí é preciso deixar reacender a esperança, perceber que viver é lutar. Em crises deste género, os que por elas são atingidos não podem considerar-se apenas vítimas, mas protagonistas da solução. Abramos o coração à solidariedade, estejamos atentos ao nosso próximo, isto é, ao nosso vizinho. E se as dificuldades exigirem de nós austeridade, saibamos que ela pode ser convite à coragem e experiência de liberdade.

            Nas últimas semanas os acontecimentos levaram-nos a fixar a nossa atenção num grupo de pessoas cuja missão é decisiva para o futuro de Portugal: os professores, os formadores das nossas crianças e dos nossos jovens. Que ninguém ouse transformar este sofrimento em simples arma de luta política, porque na batalha da educação os únicos vencedores têm de ser os vossos filhos. Para estes esta batalha não é política ou sindical: é a batalha da vida, que eles só vencerão com a generosidade, a competência e a coragem de todos nós.

            Desejo a todos um Santo Natal. Que ninguém esqueça que ele é a festa de Jesus Cristo, a esperança que nos trouxe o sabermos que “um Menino nasceu para nós”, que Ele está à nossa porta e bate (cf. Apoc. 3,20), à espera que abramos o coração à Sua mensagem de esperança.

 

 

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


ORGANOGRAMA DA CÚRIA
© 2020 - Patriarcado de Lisboa. Todos os direitos reservados.