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Pastorinhos de Fátima - “A grande mensagem é a da simplicidade”
11 de Maio de 2017
Pastorinhos de Fátima - “A grande mensagem é a da simplicidade”
É uma das maiores estudiosas portuguesas da personalidade dos pastorinhos de Fátima. A psicóloga Madalena Fontoura há mais de 30 anos que estuda a pessoa de Lúcia, Francisco e Jacinta e acredita que “o grande testemunho dos pastorinhos” é que “não é preciso complicar, não é preciso muitos meios, não é preciso muitos recursos” para “abrir o coração a Deus”.
“A Lúcia era uma miúda pespineta, muito prática e mandona, cheia de sentido prático, cheia de responsabilidade, cheia de iniciativa. O Francisco era um miúdo muito metido consigo, muito reservado, muito reflexivo, valente nas coisas ligadas à natureza, mas não particularmente inteligente e não particularmente dotado para as relações humanas. A Jacinta era uma miúda vivíssima, intensa, muito esperta, muito mimada, muito caprichosa, muito afetiva também. Este era o ponto de partida dos três pastorinhos aquando das aparições”. A psicóloga Madalena Fontoura estuda, há mais de 30 anos, a personalidade dos três pastorinhos de Fátima e, por isso, ‘conhece-os’ como poucos. “O que aconteceu foi que, recebendo os três a mesma mensagem, tenho a impressão que cada um deles teve uma vocação em Fátima. Costumo dizer que em cada mês das primeiras três aparições foi a vocação de um deles”, aponta esta estudiosa de Fátima, ao Jornal VOZ DA VERDADE.
 
Maio: Francisco
Para Madalena Fontoura, “o mês de maio é a vocação do Francisco”. “Aquela célebre frase, que ninguém percebe muito bem – nem eu –, que Nossa Senhora disse ao Francisco – ‘Levo a Jacinta e a Lúcia para o Céu, mas o Francisco tem que rezar muitos Terços…’ –, parece assim uma espécie de condição, ou quase um castigo, mas eu entendo-a como um chamamento, uma vocação. E o miúdo, a partir daí, percebeu a oração como um caminho de predileção de Nossa Senhora por ele, e de porta para o Céu, e levou isso a umas consequências incríveis. O Francisco levou a amizade com Jesus de uma maneira que é comovente e é desejável para cada um de nós. Eram horas em oração, a consolar Jesus, a pensar n’Ele, a fazer-lhe companhia, de Terço na mão, com muita simplicidade, mas a consolar Jesus”, destaca a psicóloga.

Junho: Lúcia
A segunda aparição de Nossa Senhora em Fátima, a 13 de junho de 1917, “é a mais óbvia, por ser a vocação de Lúcia”, refere Madalena Fontoura. “Quando Nossa Senhora lhe diz: ‘Tu ficas cá mais algum tempo. Deus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar’, Lúcia fica muito atordoada com isso e até reclama, dizendo: ‘Então eu fico cá sozinha?’. A vocação da Lúcia é ajudar a estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria. E ela percebe isso tão bem que, quando se faz Carmelita, – que é quando tem ocasião de escolher o seu nome, porque como Doroteia teve outros contornos, por conta da perseguição –, já perto dos 50 anos, chama-se a si mesma Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado. Ela inscreve no seu nome a missão que lhe foi dada por Nossa Senhora. Acho que Lúcia levou isso até às últimas consequências, na simplicidade da sua vida, no tempo que cá passou, na maneira como se relacionou com todos, na obediência às indicações que recebia do Céu e até numa relação muito simples, mas muito firme, com todos os padres, bispos e Papas, até a missão estar completamente cumprida. Lúcia tinha um temperamento muito prático, muito decidido e, ao mesmo tempo, muito ‘mandão’ – porque, de facto, foi-lhe confiado o ter que dar indicações claras até à hierarquia da Igreja e ela levou isso com a mesma decisão com que tomava conta das crianças de Aljustrel”, descreve.

Julho: Jacinta
Na aparição de julho, “que é a aparição dos grandes segredos”, de acordo com esta estudiosa de Fátima, “há aquele aspeto da visão do inferno, que obviamente os perturba muito a todos, mas Jacinta é a que leva aquilo mais a peito”. “Ela, de repente, enche-se de compaixão pelos pecadores. É muito bonito, porque é um feitio muito afetivo e essa afeição se estende – para além da mãe, da Lúcia e do Francisco – para a humanidade inteira. Jacinta é capaz de amar os que não vê, os que não são bons, os que não são próximos, os que não fazem coisas bonitas. Isso torna-se, nela, num vigor de personalidade, de certeza e de capacidade de sacrifício absolutamente incrível, como aliás testemunhará, já em Lisboa, o médico que a operou antes de ela morrer – e que tinha feito um relatório sem saber de quem estava a falar –, porque Jacinta aguentou uma operação quase a sangue frio, uma vez que devido à extensão da infeção a anestesia não pegou suficientemente bem”, relata.

Alterações na personalidade?
Questionada sobre se as aparições de Nossa Senhora terão mudado a personalidade dos pastorinhos, Madalena Fontoura acredita que “as aparições aprofundaram, e fizerem desabrochar”, as personalidades de Lúcia, Francisco e Jacinta Marto. “É como se eles, acolhendo aquele chamamento, tivessem percebido para o que foram feitos e por que eram feitos assim. O que aconteceu aos pastorinhos foi uma rápida e belíssima maturidade”, garante.
Esta psicóloga salienta que “a irmã Lúcia teve tempo para amadurecer, mas os pequeninos não tiveram e amadureceram de uma maneira incrível”. “O Francisco viveu uma grande simplicidade, só a levar a oração a sério, e é particularmente impressionante a maneira como ele morreu, muito certo da companhia de Jesus e muito desejoso de fazer tudo o que tivesse ao seu alcance para consolar Jesus. A certa altura, quando se confessa para morrer, pergunta à irmã e à prima se se lembram dos pecados que ele fez. Eles todos tinham uma amizade que era preocupada com o Céu, por isso ajudavam-se nisso”, aponta.
No início do século passado, aquando das aparições, “havia a Primeira Guerra Mundial a decorrer, havia uma perseguição tremenda à Igreja em Portugal, havia a revolução russa que tinha acabado de rebentar e a instauração do sistema soviético tão ateu e tão antirreligioso”, mas, para Francisco, “eram os pecados dele que faziam Jesus estar tão triste”. “É uma coisa incrível, porque nós achamos sempre que os nossos pecados não são assim tão grandes e, com certeza, que Nosso Senhor está triste por causa dos ‘pecadões’ dos outros, que fazem guerras, maldades, corrupções e outras desgraças. Este pôr na primeira pessoa, dar tudo por tudo para que a minha parte se cumpra na relação com Deus é algo incrível de maturidade e de beleza, que eles testemunharam”, frisa.
Em Jacinta, “a preocupação pela conversão dos pecadores torna-a uma perita em humanidade”. “Quando ela vem para Lisboa, Madre Godinho, a senhora que a recebe no quarto na Estrela, pergunta-lhe: ‘Jacinta, essas coisas que tu dizes, quem é que te as ensinou?’. E ela responde: ‘Umas foi Nossa Senhora, outras sou eu que as penso porque gosto muito de pensar’. Mas ela tinha só 9 anos. Quer dizer que no encontro com Nossa Senhora e no levar a sério, na sua própria carne, nos sacrifícios que fazia, pela conversão dos pecadores, ela compreendeu o mistério da humanidade a uma dimensão que é quase impossível fazer com aquela idade”, afirma esta estudiosa de Fátima, sublinhando que “havia uma humanidade atrativa nos pastorinhos”. “As pessoas gostavam de estar com eles, de falar com eles, de os ir visitar ao quarto”, recorda.

Um Deus próximo
Francisco e Jacinta Marto vão ser canonizados neste dia 13 de maio, em Fátima, pelo Papa Francisco, e vão-se tornar nas primeiras crianças não-mártires a serem santas da Igreja. Sobre o testemunho que os pastorinhos podem deixar à Igreja e em especial às crianças de hoje, Madalena Fontoura acredita que “a grande mensagem é a da simplicidade”. “Não deixa de ter a sua graça que eles venham a ser canonizados por este imprevisível, e improvável, Papa Francisco. Porque, se há coisa que ele tem feito ao longo deste pontificado é tentar transmitir, exprimir, testemunhar a fé como uma experiência simples e próxima, com um Deus próximo, pronto a acolher-nos”.
Esta estudiosa de Fátima garante ainda que o testemunho dos pastorinhos ajuda as pessoas a aproximarem-se de Deus. “O que acontece com os pastorinhos é que não há nenhuma vida, não há nenhuma pessoa que se possa sentir dispensada ou incapaz de se aproximar de Deus diante do testemunho dos pastorinhos. Com o testemunho deles, é tudo tão simples, tudo tão à medida de cada um que não há vida nenhuma, tão esquecida, tão sozinha, até tão precária, onde a experiência da fé não possa ser vivida. Mais simples do que a vida dos pastorinhos é difícil. O grande testemunho é que não é preciso complicar, não é preciso muitos meios, não é preciso muitos recursos, não é preciso muito tempo. É só preciso abrir o coração, porque o que Deus faz connosco é muito maior do que aquilo que nós somos. Por isso, acho muito engraçado que tenha calhado ao Papa Francisco canonizar os pastorinhos”, termina Madalena Fontoura.


Leia a entrevista na edição do dia 14 de maio do Jornal VOZ DA VERDADE, disponível nas paróquias ou em sua casa.

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