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Homilia de Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor
16 de Abril de 2017
Homilia de Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor
Os olhos da fé são mais claros e profundos…

Caríssimos irmãos em pleníssima Páscoa, oiçamos de novo o relato evangélico: «Simão Pedro entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou.»
Encontraram um sepulcro vazio. Apenas os panos e sem o cadáver que tinham envolvido. Sinais acreditados duma morte vencida. Reveladores assim mesmo da vida alcançada por Quem a dera totalmente. Totalmente da parte de Deus e totalmente da parte do homem.
Concentremo-nos neste ponto, porque nele atingiremos tudo o mais. Tudo o mais sobre o modo divino de ser e tudo o mais sobre o modo humano de lhe coincidir, para verdadeiramente viver e finalmente reviver.
O modo divino de ser – e de ser Deus connosco, o “Emanuel”, como o nome significa. Não foi fácil para Deus, pois que em Cristo nos acompanhou até à morte, a sua e a nossa. Nem é fácil para nós, que, espontaneamente, para não dizer teimosamente, não vemos Deus assim e por isso resistimos na coincidência. 
Preferimos partir do que temos mais à mão, isto é, de nós próprios, da nossa ambição de ser, naturalmente mais e se possível melhor, de melhorias nossas e nem sempre de todos, ainda menos para todos. Mais fortes, mais afirmados, mais seguros, mais tudo… É espontâneo, é natural se quisermos. Mas, sendo tanto que nos pode levar a vida toda, não chega, dramática e até tragicamente não chega. 
Mais ainda, pode obrigar a gastos e desgastes sem sentido, a ilusões sem futuro e a concessões indevidas. O próprio Jesus foi sujeito a tal tentação, quando lhe foram propostos todos os reinos do mundo com a sua glória, a troco duma adoração impossível. E ensinou-nos a responder: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto”» (Mt 4, 10).
A religiosidade em si mesma, enquanto manifesta a nossa condição de seres humanos, tão capazes como frágeis, impele-nos para Algo ou Alguém que nos assegure e garanta, mesmo para além da morte, nossa e em geral. Os mais antigos vestígios da humanidade em caminho denotam sempre tal religiosidade que, mesmo em quem a queira negar, sempre permanece, latente ou transposta. A religiosidade não nos é exterior. Somos nós, intrinsecamente nós, em expetativa e apelo.Jesus de Nazaré era um judeu piedoso, que não faltava na sinagoga em cada sábado (cf. Lc 4, 16). Mas, levado pelo Espírito divino, deu pleno cumprimento à religião antiga, acolhendo a vontade do seu Pai celeste: E, podemos dizer, cumprindo Deus no mundo, para que o mundo Lhe regresse e se recrie na única maneira garantida: em esvaziamento de si para que os outros possam ser, para que todos possamos plenamente ser. Como o próprio Deus é Pai em função do Filho e este reciprocamente em função do Pai e o Espirito totalmente, em função dos dois. Assim Deus em si mesmo, assim Deus em função do mundo, para que existamos. Assim nós em função de Deus, para n’Ele sermos, pascalmente sermos. 

Sepulcro vazio, panos esvaziados, sinais de vida ressuscitada, porque esvaziada de si em função de todos. Não é conclusão de agora, é certeza de origem em dois milénios já. Quando Paulo escreveu aos cristãos de Filipos, incluiu um hino certamente cantado nas primeiras comunidades. Precisamente o hino do autoesvaziamento de Cristo, como o grego original significa. 
Oiçamo-lo, como até o devíamos saber de cor. Oiçamo-lo, pois já contém toda a teologia pascal, essa mesma que levaremos a vida inteira a aprender: «Tende entre vós os mesmos sentimentos, que estão em Cristo Jesus: Ele, que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens, e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudo e lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome» (Fl 2, 5 ss).     
“Tende entre vós os mesmos sentimentos, que estão em Cristo Jesus…” A exortação de São Paulo é um apelo pascal. É também a promessa da única exaltação possível, como a Páscoa de Cristo assinala. Alcança inteiramente a vida, aquele que inteiramente a dá. Refletida aqui a própria verdade de Deus uno e trino - trindade em comunhão duma única vida compartilhada -, porque esperamos agora, para a exercitar em nós? Possibilita-nos Deus, que nos visitou em Cristo; possibilita-nos Cristo, que nos reparte o Espírito. Prossigamos, então, dando lugar aos outros, fazendo-nos até “lugar” para os outros, onde sejam acolhidos, atendidos e correspondidos nas várias necessidades e urgências. Ganhemo-nos neles, ressuscitemos com todos para todos.
Naquele sepulcro vazio apenas sobravam os panos que já não amortalhavam corpo algum. O corpo é a relação que mantemos. Ressuscitado, Cristo vive em relação perfeita com o Pai e com os outros, inteiramente esvaziado de qualquer retenção em si mesmo. Pode manifestar-se, como se manifestou aos discípulos, como o pode fazer em qualquer espaço e tempo, mas sempre como sinal duma existência perfeita, para sempre além, mesmo quando aquém. Tudo para todos, espera-nos em cada um, como apelo pascal. Para também nos esvaziarmos, descentrarmos, compartilharmos. A Páscoa é um caminho aberto na interpelação de cada encontro, dia a dia.         
Permiti-me um apontamento, que liga a atualidade de agora à atualidade de então. Fizeram-se recentemente obras de consolidação no Santo Sepulcro de Jerusalém, dirigidas pela reconhecida cientista grega Antonia Moropoulou. É bom ouvi-la, sobre o que viu – o sepulcro destapado e vazio - e como viu: «Vivemos uma experiência magnífica, única. Sentíamos que não estávamos só a trabalhar, mas que estávamos de joelhos e que todos os habitantes do planeta estavam connosco. Sentíamos não se tratar dum monumento normal, mas sim de um monumento único, do mais vivo de todos os túmulos. Aqui tudo está vivo, tudo manifesta a mensagem da ressurreição: a esperança e a bênção para milhões de pessoas. Estar ali, trabalhar ali, […] faz-te sentir que estás no lugar mais importante […] para os cristãos. No período de crise que atravessamos, podemos levar daqui uma grande mensagem de esperança. Mensagem dirigida também aos judeus e aos muçulmanos desta região, e também a quem não crê. O sepulcro de Cristo é único» (cf. Tierra Santa, janeiro-fevereiro de 2017, p. 30).   
E, sobre as perturbações eletromagnéticas verificadas no momento de abrir o sepulcro, adiantou apenas, sem querer ultrapassar o seu campo próprio: «É um facto e como cientista anuncio factos: três dos nossos instrumentos e dois dos nossos computadores sofreram alterações no funcionamento, ou deixaram de funcionar. Realizadas as comprovações, foi preciso mudar as peças estropiadas» (ibidem). 
No seu caso, nem, foi preciso “ver para acreditar”, como sucedeu com o discípulo diante daqueles panos esvaziados. Está como nós, que somos felizes por “acreditar sem ter visto” (cf. Jo 20, 29). Os olhos da fé, iluminados pelo encontro, convertidos na partilha, são mais claros e profundos. A vida esvaziada de Cristo preenche-se agora em todos nós. - Sejamos o sinal do seu corpo verdadeiramente ressuscitado!

Sé de Lisboa, 16 de abril de 2017

+ Manuel, Cardeal-Patriarca  

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