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Saudação no início do Concerto Comemorativo dos 300 anos do Patriarcado de Lisboa
25 de Novembro de 2016
Saudação no início do Concerto Comemorativo dos 300 anos do Patriarcado de Lisboa
Ex.mas Autoridades, Senhoras e Senhores

Nesta breve saudação, começo por agradecer a vossa presença tão distinta como generosa. Com justa menção dos Senhores Ministros da Cultura, atual e antecessor, e do Conselho de Administração e Diretor Artístico do Teatro Nacional de São Carlos, que tão prontamente acederam à nossa proposta de um concerto comemorativo do tricentenário patriarcal de Lisboa. Agradecimento que inclui o maestro, a orquestra e os cantores, bem como todos os que nos proporcionam aqui momentos tão luminosos como já estão a ser.
A 7 de novembro de 1716 o papa Clemente XI deu à régia capela de Lisboa o título de “patriarcal”, que se alargou depois a toda a diocese. A concessão respondia ao profundo desejo do rei D. João V, para assim nobilitar religiosamente a capital e o seu próprio reinado. Revelava sensibilidade própria, religiosa também, e obtinha um título raro na Igreja latina, só compartilhado por Veneza.
Capela real e patriarcal, como passava a ser, unia corte e fé como realidades próximas. Ao longo do seu reinado, que chegaria à metade desse século, o Magnânimo manifestou e plastificou tal proximidade – que para ele era unicidade – numa série de iniciativas e obras que notavelmente a exprimiam. Daqui que ao palácio régio se juntasse a igreja patriarcal, ou ao nascimento duma filha o palácio conventual de Mafra, e tantas outras “encomendas prodigiosas” que se seguiram até ao fim dos seus dias.
Porém, não há história sem drama e por vezes tragédia. O terramoto de 1 de novembro de 1755 deitaria por terra muitas dessas obras, como foi o caso do palácio e da patriarcal. Muita coisa mudou também a partir de então, pois os escombros não foram apenas materiais e nem tudo era igualmente unívoco e “sinfónico” no Portugal setecentista. 
Nem podia ser, porque a humanidade é sempre mais complexa do que qualquer síntese dela, ainda a mais brilhante. Caso para perguntarmos: - Sobejou o quê? Sobrámos nós, como povo, e sobrou o que prometia futuro. É precisamente neste ponto que nos reencontramos aqui, para ouvirmos obras de compositores da patriarcal.
Para D. João V, como para os seus sucessores durante um século, a patriarcal simbolizava religiosamente o reino, no seu espaço e tempo. Por isso mesmo, a cadência era litúrgica, do nascimento de um filho ao passar de cada ano, assim referida ao ciclo cristão do nascimento, morte e ressurreição do Filho de Deus. Por isso também, naquele século tão musical e operático, não se dispensava a música – e música especialmente composta por autores preparados e escolhidos com esse fim. Vamos ouvi-los de novo e será bom ouvi-los mais vezes.
É deles que esta noite nos dá conta, excelente conta, como “monumento” sonoro e redivivo. Devia ser exatamente assim, porque, como na arte acontece, eles ultrapassaram o epocal para nos projetarem no sublime. Aí mesmo, onde os crentes distinguem o som de Deus. Aí mesmo, onde a humanidade inteira se transcende e relança, decerto mais à frente e urgentemente agora. 

+ Manuel, Cardeal-Patriarca de Lisboa
Lisboa, Teatro Nacional de São Carlos, 25 de novembro de 2016            

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