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Apresentação do livro de Adriano Moreira
28 de Junho de 2016
Apresentação do livro de Adriano Moreira
O acontecer de Portugal no mundo
Breve apresentação de: Adriano Moreira, Portugal e a crise global (Só a águia voa sozinha), Coimbra, Almedina, 2016
O livro do Professor Adriano Moreira, que tenho o gosto de apresentar, colige várias e recentes intervenções sobre temas que, sendo de agora, são também seus há muito tempo. Especialmente este: a ligação entre o que acontece no mundo e o que nos acontece a nós. Ou, dito doutro modo, o acontecer de Portugal no mundo. 

Em tudo sobressai uma perspetiva propriamente cultural, pois nunca abandona o ser humano como realidade básica e indispensável. E referir o ser humano, também requer o seu acontecer, porque só existe e subsiste como “pessoa”, isto é, sujeito relacional e relacionado com a sua terra e a terra dos outros, com a sua gente e as outras gentes, a sua história e todas as histórias feitas e por fazer. No nosso caso, como portugueses no mundo - e no “mundo que os portugueses criaram”. 

O livro é dedicado ao Padre Joaquim António de Aguiar, fundador do Colégio Universitário Pio XII, por onde, desde os anos cinquenta, passaram gerações de estudantes que puderam ser tocados por sugestões semelhantes: ser português no mundo, ser todo o mundo em Portugal. E disto falo por experiência própria, pois lá estive vários anos, do fim do secundário à licenciatura. 

Também lá conheci Adriano Moreira (AM), grande “amigo da casa” e do seu diretor. Ouvi-o e fui estimulado como tantos outros pelas suas vistas largas, de Portugal para fora e de fora para Portugal. Agradeço-lhe convictamente. Depois de breve Introdução (p. 7 ss), o nome dos capítulos deixa-nos vislumbrar o conteúdo da obra e a sua oportunidade: Portugal e os desafios globais (p. 11 ss); Portugal e a indefinição europeia (p. 79 ss); Portugal e a lusofonia (p. 123 ss); Portugal e o conceito estratégico nacional (p. 181 ss).

Comecemos pela globalização. Tivemos particulares responsabilidades nela, porque a fizeram as naus do Gama, ligando a Europa à Ásia, como as de Cabral ao Brasil, ou as de Magalhães o Atlântico ao Pacífico... Mas, nesse tempo, quem partia e quem lá estava tinha nome e figura, mesmo que o reconhecimento mútuo tardasse e por vezes deixasse muito a desejar em termos de humanidade, como sentimento e prática. Mesmo muito. 

Acontece, porém, que na Europa das últimas três décadas, como no mundo em geral, é mais difícil distinguir quem está, quem muda e quem chega, com a estranheza de quem se sente em toda a parte mas não sabe realmente donde é, nem quem manda em quem. A globalização, que podia criar a consciência de um mundo só, descai para globalismo, que nos deixa sós no mundo dos outros, ou afinal no mundo dalguns. Problema aflorado por AM, logo a abrir: «Hoje basta uma só palavra […]: desordem, que é a caraterística do globalismo em que vivemos e que a crise das migrações acentuou, incluindo o quadro regionalista europeu, pela diversidade das respostas dos Estados membros, e por, finalmente, a União ter reconhecido que não é a águia que voa sozinha» (Introdução, p. 9).

AM entende, como sempre entendeu, que não há futuro sem pessoas, nem pessoas sem convicções. Por isso mesmo, será importante preencher a agenda política – da grande política – com tudo o que move individual e comunitariamente a humanidade. Quando o faz com mundividência e organização próprias, pode chamar-se “religião”, pois tanto (re)liga cada um a Algo ou Alguém como princípio e fim, mesmo que sem princípio nem fim, como o liga aos outros em comunidades crentes. Esquecer esta realidade, por ação ou omissão, é origem de muitos problemas. A desumanidade na consideração pode ocasionar grandes desumanidades por ação ou reação.   

Para prevenir tais consequências e incluir positivamente os sistemas crentes na grande política, ainda que respeitando a distinção de planos, AM propõe: «Continuo a defender que é urgente, para reanimar a ONU, que ali seja organizado um Conselho das Religiões que lute pela convergência da organização e, sobretudo, que ponha em vigor o código dos paradigmas da paz» (p. 30).

É inegável que, para grande parte da humanidade, as necessidades imediatas são da ordem do “ter”: ter de comer e beber, ter de vestir e abrigar-se… Necessidades dramáticas para multidões. Mas perguntemo-nos se isto não permanece assim porque a minoria que tem e detém não cresceu na ordem do “ser” e desvirtua o desejo em acumulação… 

A falta de “religião”, no sentido espiritual do termo, reduz a materialidade a materialismo. E AM cita o Papa Francisco: “No centro de todo o sistema económico deve estar o homem, o homem e a mulher, e tudo o resto deve estar ao serviço deste homem. Mas nós colocamos no centro o dinheiro, o deus dinheiro”» (p. 45).  

Os atuais impasses europeus não andarão muito longe desta temática. O sonho dos recriadores do continente, depois da segunda guerra mundial, tinha os pés assentes na terra. Começaram por garantir as bases materiais do desenvolvimento comum, rumo à finalidade integral e pacificadora que os movia. E sonhos não faltavam nem faltam, quer para os que que cá estamos quer para os muitos que hoje nos batem à porta, ou entram mesmo sem bater. 

Mas não criámos espaço nem ensejo para corresponder a tudo, ficando-nos por solavancos emotivos, à falta de capacitação institucional. Assim se viu e continua a ver, face à tragédia dos refugiados: «Como é já regra na União Europeia, as emoções ultrapassaram os normativos públicos, tidos como desatualizados pela realidade, e a semântica assume uma série de perguntas sem respostas porque não existe organização para as formular. De facto, o cadáver do pequeno Aylan fixou muitos espíritos nos efeitos considerados inevitáveis das fronteiras europeias fechadas e lançou o debate sobre o risco de não ser possível identificar e distinguir clandestinos, emigrantes ou refugiados» (p. 51). Porque a humanidade irrompe, apesar de tudo, mas falta-lhe consequência quando a política usual não parte dela nem a tem por objetivo.

Recuperemo-nos, pois, nos fatores culturais e personalistas. Como AM, lembrando a resistência identitária à “terra de ninguém” do globalismo: «Talvez não seja errado anotar que foi provavelmente Agostinho da Silva quem – e antes de outros – compreendeu que as identidades das parcelas da Europa teriam de enfrentar as exigências uniformizadoras da União e esta o globalismo… (p. 66). 

Ou recordando o poder transformador das humanidades densas, de alguns para todos, como aconteceu com Nelson Mandela, prisioneiro que se libertou por dentro, continuando a ser ele em tão difícil “lá fora”: «Posto em liberdade [Mandela], é um milagre a rapidez com que um homem separado do mundo por décadas de prisão rapidamente apreendeu o mundo novo que encontrava […]. A liquidação do apartheid não terminou com a discriminação e mitos raciais em todo o mundo nem deu voz respeitada a todas as culturas nem implantou a paz inviolável no próprio continente africano. Mas o seu exemplo continua, para além da morte, a sustentar a lenta marcha para a igualdade dos homens» (p. 60).

A Europa que somos, como povos conjugados no melhor e no pior por destinos tão comuns como longevos, nasceu no fim do Império Romano do Ocidente, quando as fronteiras do Reno e do Danúbio foram rompidas de vez pelas invasões "bárbaras” do século V. A partir daí, uma série de missões, sobretudo de sul para norte, cristianizaram os povos e criaram uma “república” que partilhava valores greco-romanos e inspiração evangélica, mais ou menos certa, mais ou menos praticada. Mas, ainda assim, assim éramos de facto.

Hoje, o movimento é de norte para sul, as “missões” são de ordem financeira e monetários os valores, «levando à crise económica e financeira em que vegetamos, como reaparecimento do limes romano separando os países pobres dos ricos, com o Mediterrâneo transformado num cemitério, com a paz ameaçada de novo à porta das fronteiras da União» (p. 67), comenta AM. O corpo europeu fenece por falta de alma e motivação humanista: «A indiferença em relação ao projeto da unidade europeia que […] tem de ser, como qualquer instituição, uma comunidade de afetos, levou à secundarização das humanidades, da importância da História e conhecimento do outro» (p. 69).

Quanto a nós, como quase sempre, sobramos. O enigma português é sobrar sem condições e refazer-se no quase nada. No pouco que sobra do que procurámos além mar, pois a terra era pouca, sempre foi muito pouca. Restam-nos a relação e a linguagem, preenchidas ambas por muita coisa com futuro possível. Daqui partiu a Europa para o mundo e na Europa estaremos como quem vem de fora. AM sempre o soube e sempre se dedicou a manter os laços que nos prendem a um certo mundo. Por isso adverte: «Pelo que toca a Portugal, […] corre o risco da desatenção às janelas de liberdade que parecem secundarizadas pelas urgências orçamentais e que são a CPLP, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, a Plataforma Continental e a solidariedade das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, o que tudo assenta na comunidade de afetos que define a maneira portuguesa de estar no mundo» (p. 78). 

Assim nos seguraremos, em amarrações disponíveis. E assim colaboraremos na tarefa irrecusável deste século, que já vai em década e meia. Pois «a tarefa do século XXI é a de conciliar o mundo, encaminhando as interdependências no sentido de que finalmente se consiga o sentimento de comunidade que habita a casa comum que é a terra, projeto que tem como alternativa o desastre também global» (p. 94).

Porque perigos não faltam, “globalizados” também: «Trata-se de o paradigma do mundo único estar afetado pelas várias fraturas causadas pelo fenómeno da guerra em toda a parte, pela privatização da segurança, pela concorrência na área económica dos emergentes, pelas migrações descontrolados que continuam no Mediterrâneo…» (p. 195). Não podemos responder a tudo. Mas em tudo podemos estar como sobramos e somos: «Não podemos estar orgulhosamente sós, mas não podemos estar presentes em todos os desafios. Queremos estar sempre no mundo que o português criou» (p. 234). 

Lembrá-lo foi, mais uma vez, a lição de Adriano Moreira.  


Manuel Clemente

Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, 28 de junho de 2016

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