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Encerramento do Simpósio Internacional Antoniano
04 de Junho de 2016
Encerramento do Simpósio Internacional Antoniano
Lisboa e Santo António

Dois nomes apenas, como aqueles que me deram: Lisboa e Santo António. Procurando um som conjunto, finalmente conjugado.
Comecemos por Lisboa, palavra mais antiga. E percorramo-la hoje, na referência topográfica onde o santo não tem comparação: Tirando o largo de “Santo Antoninho”, a São Paulo, ficam-nos o beco de Santo António, em Santa Maria dos Olivais; a calçada de Santo António, ao Coração de Jesus; o pátio de Santo António, a Campolide; a travessa de Santo António, na Ameixoeira; a rua e a travessa de Santo António a Belém; a calçadinha de Santo António a Chelas; a rua de Santo António à Estrela; a travessa de Santo António à Graça; a travessa de Santo António à Junqueira; a travessa de Santo António a Santos; a alameda de Santo António dos Capuchos; a rua de Santo António da Glória; o largo, a rua e a travessa de Santo António da Sé… Não há parte da cidade sem direção antoniana, certamente maior do que uma simples placa.

Passando aos templos, o mais significativo foi e continua a ser o de Santo António, erguido e reerguido sobre a casa onde nascera. É também o local que mais o une institucionalmente à cidade, que ali teve a sua câmara e lhe detém a propriedade e a conservação. Assim fosse com a igreja de Santo António de Campolide, sede da paróquia que o tem por orago, pois não estaria quase em ruínas, como ameaça, por falta de apoio do proprietário estatal… Outras referências se podem juntar, a templos havidos ou sobrantes de invocação antoniana. Refiro apenas, pela curiosidade, a ermida de Santo António do Vale e Nossa Senhora da Assunção, na rua do Vale de Santo António, a lembrar que o santo ali descansou quando ia de São Vicente de Fora para o Tejo, rumo a Marrocos…

As referências ao santo estão assim espalhadas pela cidade em geral. Uma observação mais atenta reparará que não estão ali por acaso, antes ligadas a motivos franciscanos, de qualquer dos seus ramos. Porque também o franciscanismo foi corrente na cidade medieval e moderna, dando-lhe muito do seu gosto, motivo e representação. A sua “cultura”, digamos, com toda a complexidade e até ambiguidade da palavra. Como acontece com Santo António, que de doutor da Igreja ao mais popular dos santos, transporta referências não de todo unívocas. 

Mas isto mesmo confirma mais a riqueza do que a fraqueza da figura. Pois na tradição antoniana se preserva e oferece uma variada gama de aspetos basicamente sustentados por aquilo que realmente foi, tanto nas primeiras gerações de lisboetas portugueses, como no rumo da sua vida entre Lisboa e Coimbra, ou no posterior percurso transalpino, realizando o programa de Francisco: ser simplesmente sábio e sabiamente simples, ser exigente e próximo, ser mestre e popular. 

Foi o que foi, ensinou o que ensinou e fez o que fez. Realmente muito e muitíssimo, para pouco mais de quatro décadas, de Lisboa a Coimbra, de Coimbra a Marrocos, de Marrocos à Sicília, da Sicília à Itália, da Itália à França, da França à Itália e da Itália ao Céu - como reproduzo de memória o que há tantos anos ouvi ao Cardeal Cerejeira, falando da varanda da sé de Lisboa à multidão que acompanhava uma preciosa relíquia do santo, chegada de Pádua: “Lisboa deu-o à terra e Pádua deu-o ao Céu”. Depois, foram as “Florinhas” a contar isso e muito mais, como continuam a contar, as escritas e as não escritas.  Quando as figuras são assim, com tanta e tão plural densidade, cativam e ilustram populações inteiras. Assim aconteceu entre o santo lisboeta e a Lisboa do santo, mutuamente potenciados. Duas exemplificações, a concluir, numa interrogação que fica para o hoje que somos e para o amanhã que fizermos, com marca antoniana:
Escreveu o Professor Francisco da Gama Caeiro, a quem muito devemos para conhecer e reconhecer o nosso “doutor da Igreja”: «O estudo da formação intelectual e espiritual antoniana, refletida na sua obra sermonária, identifica as suas raízes portuguesas numa perspetiva em que, sem perder de vista as correntes gerais do pensamento e dos movimentos da cultura europeia da época, é possível determinar as características peculiares dos centros de ensino onde ele efetivamente se formou, v.g. Stª Cruz de Coimbra. Os Sermões refletem, no essencial, as vertentes predominantes do pensamento do Santo, como que o centrando em dois polos, em Deus e no Homem, e conferindo-lhe as notas peculiares do humanismo religioso e do moralismo místico» (F.G.C., «Santo António de Lisboa», Dicionário da História de Lisboa, dir. Francisco Santana e Eduardo Sucena, Lisboa, 1994, p. 866).

Humanismo religioso e moralismo místico significam atenção direta ao que acontece, lembrando o que sempre deve ser, na coexistência de todos e cada um. Como o quer fazer agora o Papa Bergolio com a sua encíclica Laudato si’ (24 de maio de 2015) de tão clara inspiração franciscana, propondo uma “ecologia integral” em que homem, natureza e sociedade harmónica e finalmente se conjuguem, por primeiras e últimas razões. Assim em Santo António, o nosso tão douto pregador.

Mas, mesmo hoje, 4 de junho de 2016, leio nos jornais este anúncio dum Santo António em banda desenhada: «Ó meu Santo António que tanta folia gerais / Sardinhada e alegria até de madrugada / Em todos os quiosques e arraiais / Este ano marchamos com banda desenhada». Às palavras, junta-se a figura do santo, na mais clássica referência ao pregador, com hábito franciscano, de livro no braço e gesto exortativo.

Como se liga tudo isto com sardinhas e folia, não sei dizer nem explicar. Mas talvez seja por isto mesmo, podendo ser ao mesmo tempo tão sério e tão popular, que António conseguiu ser o “santo de todo o mundo”, como lhe chamou Leão XIII, e a alma duma cidade, como Lisboa o festeja. 
Tomemo-lo como uma possibilidade, e até como urgência, para o que com ele havemos de ser.     


Lisboa, 4 de junho de 2016

+ Manuel Clemente

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