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Tópicos para o encontro com os Secretários das Comissões Justiça e Paz da Europa
06 de Fevereiro de 2016
Tópicos para o encontro com os Secretários das Comissões Justiça e Paz da Europa
Para o encontro dos Secretários das Comissões Justiça e Paz da Europa
A sociedade em que vivem as dioceses portuguesas tem sofrido nos últimos anos uma grave situação financeira (endividamento externo e interno) e socioeconómica (quebra de rendimentos, falta de investimento, dificuldades na segurança social, desemprego e escassez de trabalho no começo e a meio da carreira…). 
Recentes melhorias - alguma renovação do tecido empresarial, inovação e exportações em subida – ainda não foram suficientes, nem estão consolidadas. Mantém-se a procura de trabalho no estrangeiro, dependente do crescimento de outros países, que não é tão grande como se esperava. A 4ª revolução industrial – robôs e “internet das coisas” – traz-nos a grave questão da viabilidade do trabalho para todos e do novo modo de exercitá-lo.

A este quadro socioeconómico juntam-se outras questões propriamente culturais, trazidas pela modernidade e a pós-modernidade, com grande impacto numa população que há seis décadas vivia ainda num meio predominantemente rural e confessional, com fortes vínculos familiares e de costumes: tudo passou a ser mais individualizado e discutido.A emigração para os grandes centros urbanos ou para o estrangeiro foi certamente um recurso, para obter melhores condições de vida. Mas constituiu um grande desafio à permanência de convicções sólidas e compartilhadas sobre o sentido da existência, própria e alheia. A imigração para Portugal de pessoas oriundas de vários continentes (quase meio milhão nesta altura) também desafia o que resta dum padrão comum de hábitos e sentimentos.
Enfrentamos hoje uma questão de valores, que sejam universalmente assumidos – do nascer ao morrer, do casar ou não casar, da distinção ou indistinção sexual, do papel do Estado e/ou da espontaneidade social na educação, na assistência, etc… Hoje, Portugal é uma realidade quantitativamente pluralista e qualitativamente contraditória, mesmo em relação às questões essenciais da existência humana. Chega a parecer que o único “valor” indiscutível é o do desejo individual, desvinculado de razões que o ultrapassem ou vinculem, em termos de universalidade e corresponsabilidade. 
Praticam-se livremente em Portugal várias religiões e cultos, ainda que se digam “católicos” 80% dos habitantes. Verifica-se algum aumento da descrença assumida. Mas tudo isto se situa mais em termos de sentimento individual do que de clareza doutrinal e prática. Mais de multiculturalismo alheado dos outros do que de interculturalismo de reconhecimento mútuo e integrador.

Neste contexto, a Igreja Católica em Portugal tem-se desdobrado em iniciativas de vária ordem e a vários níveis. No âmbito diocesano-paroquial, e no âmbito mais diversificado de instituições, grupos e movimentos. No conjunto, constituem uma vasta rede de pertenças e compromissos, típica dum novo modo de estar e conviver, tanto social como eclesial, com amplo recurso aos media e à internet.
No âmbito do episcopado e da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), tem-se insistido na visão cristã da realidade, especialmente nos quatro princípios permanentes da nossa doutrina social: dignidade da pessoa humana, bem comum, subsidiariedade e solidariedade (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 160), como critério de análise e resolução dos problemas socioculturais.
Sirva de exemplo a seguinte passagem do discurso que proferi na abertura da última assembleia plenária da CEP, resumindo os pontos essenciais do que temos dito e sugerido à sociedade no seu todo: «[Os quatro princípios] correspondem a causas essenciais à dignidade humana, isto é, a promoção do bem comum, a ativação da subsidiariedade e da solidariedade, respeitando e estimulando a iniciativa dos corpos intermédios da sociedade, para o bem de todos; a superação de situações gritantes de desigualdade e pobreza; o apoio aos mais frágeis, em particular aos nascituros, às mães gestantes e às famílias. Trata-se, em suma, de salvaguardar a vida humana em todas as suas fases, da conceção à morte natural; da valorização da vida familiar e da educação dos filhos, com referência masculina e feminina de geração ou adoção; de satisfazer as necessidades primárias de educação, saúde, segurança social, trabalho e emprego; de promover uma vida empresarial criativa e solidária; de acolher imigrantes e refugiados…».       

+ Manuel Clemente

6 de fevereiro de 2016, Alfragide

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