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“A Fidelidade” - Catequese do 3º Domingo da Quaresma
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“A Fidelidade” - Catequese do 3º Domingo da Quaresma

“A Fidelidade”


Catequese do 3º Domingo da Quaresma

Sé Patriarcal, 27 de Março de 2011





Introdução

            1. A fidelidade é uma exigência e uma expressão da Aliança de Deus com o seu Povo, hoje na sua forma definitiva, na “nova Aliança” selada por Jesus Cristo com a sua Igreja, o seu Povo, o novo Povo de Deus. A fidelidade é um desafio constitutivo da vocação da Igreja. A Igreja ou procura ser fiel a Jesus Cristo ou nega-se a si mesma. O próprio facto de os membros da Igreja serem chamados “fiéis”, mostra, na consciência colectiva da Igreja, o carácter afirmativo deste desafio de fidelidade.


            No Antigo Testamento a fidelidade é, antes de mais, um atributo de Deus, aliado à sua bondade paternal, ao seu amor misericordioso. Deus sabe que a fidelidade do seu Povo, com quem fez Aliança, só será conseguida ao longo do tempo e só será possível com a sua graça. A fidelidade perfeita que espera do seu Povo será participação da sua própria fidelidade. Deus deseja da parte do seu Povo uma fidelidade perfeita como a sua. A sua promessa exprime-se, então, na disposição de ajudar o Povo a chegar a essa fidelidade, sem a qual nem a Aliança, nem as promessas, serão cumpridas. Pela boca de Oseias, promete: “Desposar-te-ei para sempre, desposar-te-ei na justiça e no direito, na ternura e no amor; desposar-te-ei na fidelidade e tu conhecerás Yahwé” (Os. 2,21-22).


            Porque a fidelidade do Povo só é possível com a força de Deus, é preciso, na oração, pedir a Deus esse dom da fidelidade (cf. 1Re. 8,56ss). Só se o Povo for fiel como Deus é fiel, poderá haver entre Deus e o seu Povo uma intimidade de conhecimento (cf. Os. 4,2).


            Esta perspectiva radicalizar-se-á em Cristo, o Servo fiel, que, através do dom do Espírito, conduz os que acreditam n’Ele a participarem da sua plenitude. N’Ele, a Igreja é já totalmente fiel.


            Todo o Antigo testamento está repassado por este drama, que é desafio: a fidelidade de Deus, a infidelidade do Povo. Em Cristo, esse dilema é ultrapassado: os cristãos só não caminham para a fidelidade se não viverem a sua união a Cristo, o Fiel, que tem a força e o poder para nos ajudar a ser fiéis.


            Nesta Catequese, meditaremos sobre as exigências espirituais e pastorais da fidelidade da Igreja, Povo do Senhor.


            Fé e fidelidade


            2. A fé é o alicerce da fidelidade. Sem uma fé viva, nem sequer há o desejo de chegar à fidelidade. Por outro lado, a nossa fé só é digna de Deus e de Jesus Cristo, se se exprimir na fidelidade. E esta supõe um aprofundamento contínuo e a vida vivida como resposta à Palavra de Deus.


            A fé cristã não é uma qualquer fé religiosa. É a resposta do homem que escutou a Palavra de Deus. O seu contexto é a História da Salvação, e a revelação ao seu Povo escolhido. Como afirma a Exortação Apostólica Post-Sinodal Verbum Domini, “toda a história da salvação nos mostra progressivamente esta ligação íntima entre a Palavra de Deus e a fé que se realiza no encontro com Cristo”[1].


            Deus fala-nos e espera a nossa resposta, porque ao revelar-se, Ele quer inaugurar um diálogo connosco. Ele merece que lhe respondamos. Já São Paulo ensinava, assim, os cristãos de Roma: “A Deus que se revela é devida a obediência da fé” (Rom. 16,26). São Paulo chama-lhe “obediência”, isto é, uma aceitação, sem reservas, com todo o nosso ser, de Deus e da sua Palavra. Isto equivale a dizer que a fé é já um acto de amor. Desde o primeiro momento, a fé e a caridade encontram-se. A fé é, antes de mais, um encontro com Deus, um reconhecimento de Deus e um abandono ao diálogo com Ele, numa comunhão de amor. E este Deus que reconhecemos na fé, é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus que falava com Moisés como um amigo fala com o seu amigo, é o Deus de Jesus Cristo. “Pela fé, o ser humano entrega-se, total e livremente, a Deus, oferecendo a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência e da vontade e prestando voluntario assentimento à sua revelação. (…) A resposta própria do ser humano a Deus, que fala, é a fé”[2].


            A fé é, pois, a resposta humana devida ao Deus que fala. Ela é a expressão de uma escuta amorosa. A Deus só se pode responder com a vida, em todas as suas dimensões. A fé projecta o homem para o horizonte da vida, onde esta encontra o seu verdadeiro sentido. Ao acreditar, o homem não renuncia à vida, pelo contrário, aprende verdadeiramente a ser homem. Tem a alegria de descobrir o verdadeiro sentido da criação, também ela Palavra de Deus e toma consciência dos desvios cometidos na compreensão e na orientação da vida.


            Ao responder a Deus, e a Palavra de Deus é sempre uma palavra de amor, o homem aceita uma Aliança com Deus; a sua resposta de fé é, na sua génese, um compromisso de fidelidade.


            Pastoralmente, é preciso prestar atenção à especificidade da fé cristã: é uma fé que responde à Palavra de Deus no contexto da revelação de Deus na história de salvação? Sobretudo cultivar a fé como uma adesão pessoal a Jesus Cristo, como Palavra eterna de Deus, humanizada na encarnação do Verbo. Em Cristo tudo é Palavra, e não apenas as suas palavras. A fé cristã é uma resposta a Jesus Cristo, à sua Palavra, ao seu amor, à sua presença contínua no meio do seu Povo, que é a Igreja. A nossa fé como compromisso de Aliança, é-o com a última e perfeita Aliança, selada por Jesus Cristo no seu Sangue, derramado por nós. A nossa fidelidade é participação na sua fidelidade.


            A fé da Igreja


            3. Na oração eucarística o sacerdote reza: “não olheis aos nossos pecados, mas à fé da vossa Igreja”. O que é esta fé da Igreja? É diferente da fé de cada um de nós? Esta relação da fé pessoal com a fé da Igreja é aspecto essencial na compreensão e pedagogia da fé. A Exortação Apostólica afirma: “A ligação íntima entre a Palavra de Deus e a fé realiza-se no encontro com Cristo. De facto, com Ele, a fé toma a forma de encontro com uma Pessoa à qual se confia a própria vida. Cristo Jesus continua hoje presente na história pelo seu corpo que é a Igreja; por isso o acto da nossa fé é um acto simultaneamente pessoal e eclesial”[3].


            Já no Antigo Testamento há uma primazia do “nós” do Povo de Deus, sobre o “eu” de cada um. É ao Povo que Deus se revela, com ele celebra a Aliança, dele espera a resposta de fé e de fidelidade. A Igreja é o novo Povo do Senhor, ao ser identificada com o seu Senhor como “corpo de Cristo”, na Igreja, cruzam-se a Palavra e a resposta. Deus continua a falar-lhe em Jesus Cristo; continua a esperar a sua resposta de fé e de fidelidade. A Igreja é um Povo crente. Pela fé entra na comunhão com Deus. A fé de cada cristão é participação nessa comunhão, em Igreja.


            Cada cristão deve fazer continuamente o discernimento para saber se a sua fé pessoal é a resposta que Deus espera e que é digna de Jesus Cristo. A fé pessoal, mesmo na variedade dos carismas, tem de ser a fé da Igreja.


            Antes de mais, na interpretação da Sagrada Escritura como Palavra de Deus. Essa é a orientação que vem já no Novo Testamento, pela pena do Apóstolo Pedro: “Nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular, porque jamais uma profecia foi proferida pela vontade dos homens. Inspirados pelo Espírito Santo é que os homens santos falaram em nome de Deus” (2Pet. 1,20-21). E a Exortação Apostólica conclui: “é a fé da Igreja que reconhece, na Bíblia, a Palavra de Deus; como admiravelmente diz Santo Agostinho, «não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja católica». O Espírito Santo, que anima a vida da Igreja, é que a torna capaz de interpretar autenticamente as Escrituras. A Bíblia é o livro da Igreja e, a partir da imanência dela na vida eclesial, brota também a sua verdadeira hermenêutica”[4]. A escuta da Palavra de Deus tem de ser feita em Igreja. Interpretações individuais que se afastem do sentir da Igreja, enfraquecem a fé pessoal chegando a adulterá-la gravemente.


            Professar a fé da Igreja é a principal expressão da fidelidade cristã. Significa a “obediência da fé”, é sinal de comunhão com a Igreja de todos os tempos, que nas vicissitudes da história, através de dificuldades e sofrimentos, tantas vezes no testemunho do martírio, manteve intacta a mensagem de salvação, transmitida pelos Apóstolos de Jesus e seus sucessores. O conteúdo da fé apostólica é a principal expressão da identidade da Igreja ao longo do tempo. A essa corrente ininterrupta da mensagem, chamamos a Tradição, ponto de referência para a nossa fé tão importante como a palavra escrita da Sagrada Escritura.


            Ser fiel à fé da Igreja significa igualmente a aceitação do Magistério, o ensinamento dos Apóstolos de Jesus e seus sucessores através dos tempos. Tanto a tradição como o Magistério são meios para nos encontrarmos com a verdade da salvação e nos encontrarmos com Jesus Cristo, que preside à Igreja em todos os tempos.


            A fé e a caridade


            4. Já vimos que a fé enquanto resposta da pessoa humana à Palavra de Deus é, em si mesma, uma expressão da caridade. Ao escutar a Palavra, sentimo-nos amados e respondemos com amor. Durante a nossa peregrinação terrena, as três virtudes teologais, a fé, a esperança e a caridade interpenetram-se. Já São Paulo o ensina aos Coríntios, no célebre hino à caridade: “A fé, a esperança e a caridade permanecem as três, mas a maior entre elas é a caridade” (1Cor. 13,13). A fé e a esperança são expressões da caridade, são a experiência do amor infinito de Deus em Jesus Cristo. A firmeza da fé e da esperança faz com que nenhuma dificuldade deste mundo nos separe do amor de Cristo. Nada nos separará do amor de Deus, manifestado em Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Rom. 8,35ss).


            Esta é uma dimensão importante do nosso crescimento na fé. Nela sentimo-nos amados por Deus e manifestamos a Deus o nosso amor. Quantas vezes, no concreto da nossa vida, a única maneira de exprimirmos a Deus e ao seu Filho Jesus Cristo o nosso amor é dizer “eu creio”. Não é uma fé sem amor, é, antes, uma fé que é amor. É por isso que a fé se exprime, espontaneamente, na fidelidade.


            As testemunhas da fé


            5. Para que a nossa fé se exprima sempre na fidelidade, muito nos ajudam os testemunhos da fé. É mais uma razão para que a fé de cada um de nós seja a fé da Igreja. A confissão de fé teve, desde os primeiros séculos do cristianismo, uma expressão comunitária. Só a Igreja, reunida, pode verdadeiramente professar a fé. A fé da comunidade e dos seus membros, fortalece a nossa fé, ilumina a nossa obscuridade, esclarece as nossas dúvidas, vence a nossa tibieza e hesitação.


            O Sínodo privilegiou, como modelo de crente, a Virgem Maria. Com ela, podemos aprender a viver a nossa vida crente, como resposta obediente à Palavra do Senhor. Escutemos a Exortação Apostólica de Bento XVI: “Desde a Anunciação ao Pentecostes, vemo-la como mulher totalmente disponível à vontade de Deus. É a Imaculada Conceição, Aquela que é «cheia de graça» de Deus (cf. L c. 1,28), incondicionalmente dócil à Palavra divina (cf. L c. 1,38). A sua fé obediente face à iniciativa de Deus plasma cada instante da sua vida. Virgem à escuta, vive em plena sintonia com a Palavra divina; conserva no seu coração os acontecimentos do seu Filho, compondo-os por assim dizer num único mosaico (cf. L c. 2,19.51)”[5]. Mãe da Igreja, na sua fé, “Ele é a figura da Igreja à escuta da Palavra de Deus que nela se fez carne”[6].


            A fé e a fidelidade são dons de Deus, que nos são dados na Igreja e através da Igreja. Verdadeiramente, só em Igreja, ajudados por tantas testemunhas, permaneceremos fiéis até ao Dia do Senhor.



† JOSÉ, Cardeal-Patriarca







[1] Verbum Domini (VD), nº 25

[2] Ibidem, cf. Verbum Domini, nº 5

[3] Ibidem

[4] VD, nº 29

[5] VD, nº 27

[6] Ibidem


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