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Homilia do Cardeal-Patriarca no 1º Domingo de Quaresma
04 de Março de 2001
Homilia do Cardeal-Patriarca no 1º Domingo de Quaresma
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA
Mosteiro dos Jerónimos, 4 de Março de 2001

Senhor Presidente da República
Senhor Presidente da Assembleia da República
Senhor Presidente do Supremo Tribunal de Justiça
Senhor Presidente do Tribunal Constitucional
Senhor Ministro da Presidência
Senhor Núncio Apostólico
Senhores Bispos
Senhores Cónegos
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Reverendos Padres
Irmãos e Irmãs,

    1. A liturgia deste primeiro domingo da Quaresma convida-nos a meditar o texto de S. Paulo aos Coríntios (cf. 1Co. 9, 24-25) em que o Apóstolo compara a vida da fé à corrida de um atleta no estádio. Nós sabemos, por experiência, que a existência crente é uma caminhada, exigente e, por vezes, dolorosa. Trata-se de uma comparação carregada de simbolismo. Tal como o atleta, o crente corre voluntariamente, dinamizado por um ideal. A fé é uma experiência de liberdade, assenta numa luz interior que ilumina a inteligência, comove o coração e fundamenta uma escolha. Tal como o atleta, o crente empenha toda a sua força, compromete toda a energia, para alcançar o seu objectivo: identificar-se com Cristo, seu Senhor, e anunciar aos homens, seus irmãos, a boa nova da esperança e da alegria. E a esperança é a de um mundo novo a edificar e a alcançar, cidade definitiva, perfeitamente humana, onde cada homem seja amado na sua dignidade, respeitado na sua diferença, valorizado na sua capacidade específica; onde a responsabilidade e o serviço sejam expressões da liberdade, onde a paz brote do amor fraterno e a justiça seja o alicerce da convivência. Porque se trata de uma cidade a construir e a alcançar, a nossa corrida tem o sabor de uma peregrinação. E o Senhor, em Quem acreditamos, sendo peregrino connosco, é a luz que nos permite lobrigar, ao longe, o clarão dessa cidade que nos atrai.

    Esta prova da fé é uma corrida em coluna, em grupo, em comunidade, onde a comunhão e o testemunho são a força que a todos entusiasma a continuar. É o mistério da Igreja, é a força da Igreja, é a sorte de pertencermos à Igreja, esse Povo que corre sem desistir, a quem, nem o sofrimento, nem as dificuldades, nem o cansaço desviam da sua meta, que é o seu ideal. Somos um Povo que caminha, que no meio da multidão atravessa a história, convida todos a engrossar a coluna, sem ambições imediatas que não sejam fortalecer, na comunhão, todos esses peregrinos da vida.

    No início do terceiro milénio da era cristã, a Igreja tornou-se multidão, de todas as raças, línguas, povos e nações. Na variegada riqueza das suas diferenças, têm todos em comum o essencial, que receberam, através de tradição viva, dos Apóstolos de Jesus: a fé em Jesus Cristo, a força do seu Espírito, o amor fraterno como expressão de vida, a transformação do mundo como missão, a vida eterna como promessa. À volta desta tradição fundamental e inalienável se constrói a unidade, principal testemunho e serviço prestado à humanidade, ela própria em busca de unidade. A Igreja é chamada por Deus, a ser o sacramento da unidade da humanidade e do próprio universo.

    A peregrinação da Igreja, no tempo, faz-se no meio de perigos e ameaças. As mais graves não são as que lhe vêem do exterior, dos que a atacam ou perseguem. Essas sempre fortaleceram a Igreja na determinação da sua fidelidade. As ameaças mais preocupantes surgem-lhe do seu interior, porque têm o sabor amargo da infidelidade. Antes de mais a quebra da unidade, que ofusca a vocação primeira da Igreja e enfraquece a sua capacidade de ser sinal. A unidade da Igreja, que tem a sua fonte e modelo na própria unidade de Deus, Trindade Santíssima, é tarefa contínua. A firma-se a partir do modelo divino, como comunhão entre pessoas, expressão de amor e não apenas de doutrinas ou de projectos.

    Uma outra fraqueza que ameaça a Igreja, a partir de dentro, é a fragilidade da fé, porque deixa de estar ancorada na Palavra de Deus e se torna afirmação de simples convicção humana, ou porque deixa prevalecer o peso da opinião individual sobre a adesão comunitária à verdade da tradição. O Papa João Paulo II afirmou na homilia do passado dia 22, na Praça de S. Pedro, a propósito da fé da Igreja em Jesus Cristo: "Esta confissão de fé é o grande dom que a Igreja oferece ao mundo no início do terceiro milénio".

    2. O motivo que hoje nos congrega, e que é a repercussão na Igreja de Lisboa, das solenes celebrações de Roma, da criação dos novos Cardeais, situa-nos no âmago desta realidade da Igreja. Ela desvelou-se, perante o nosso olhar maravilhado, no esplendor da sua universalidade, ou seja, da sua catolicidade. O ministério do Papa, Sucessor do Apóstolo S. Pedro, é garantia decisiva dessa unidade, na diversidade da universalidade, unidade da fé e da caridade, que o mesmo é dizer, unidade da verdade fundamental, fonte de inspiração ética para os caminhos de afirmação da dignidade do homem e da vida.

    Fomos agregados ao Papa, no exercício deste ministério da unidade, na experiência da universalidade. Chamou-nos, carinhosamente, "os primeiros colaboradores do ministério da unidade do Romano Pontífice", e mais formalmente afirmou-nos: "o vosso serviço à Igreja exprime-se em prestar ao Sucessor de Pedro a vossa assistência e colaboração, para aliviar a fadiga de um ministério que se estende até aos confins da terra. Em conjunto com Ele (Sucessor de Pedro) deveis ser intrépidos defensores da verdade e guardiões do património da fé e de costumes que têm a sua origem no Evangelho. Sereis, assim, guias seguros para todos e, em primeiro lugar, para os presbíteros, as pessoas consagradas, os leigos comprometidos".

    Reside aqui a grandiosidade deste momento: na universalidade do serviço que me é pedido, em que serei acompanhado, assim o espero, por toda a Igreja de Lisboa. É maravilhosa esta universalidade da Igreja! E nós portugueses, que através da actividade missionária, estivemos na origem de tantas Igrejas irmãs nas diversas partes do mundo, somos particularmente sensíveis a este desafio da universalidade. A Igreja a que pertencemos e com a qual peregrinamos, não é só de Lisboa, não é apenas portuguesa ou europeia: é a experiência de universalidade mais solidamente afirmada, no mundo e na história. A sua universalidade afirma que a humanidade pode ser toda uma só família; a sua unidade é sinal de esperança para um mundo que sofre a violência da divisão. E como garantia dessa unidade, aí está Pedro, a rocha firme sobre a qual Cristo continua a edificar a sua Igreja. Pôr em questão esse ministério, é abrir as portas a todos os particularismos, é ficar mais frágil nessa corrida para a meta.

    3. Eis o horizonte que se nos abriu, a nós novos Cardeais da Igreja: associados ao ministério de Pedro, neste serviço apaixonante da construção da unidade, respeitando a pluralidade própria da universalidade. As cerimónias do recente Consistório, revelaram a forte componente de comunhão humana, na caridade, nesta associação ao ministério de Pedro. A densidade humana do encontro do Papa com cada um de nós, tornou-se visível através dos meios de comunicação. Muitos jornalistas e outras pessoas, têm-me interpelado querendo saber o conteúdo desse encontro pessoal com o Papa, olhos nos olhos. Pouco interessa o pormenor, para deixar ressaltar a intensidade de encontro inter-pessoal, na cumplicidade que entre nós gera Jesus Cristo e o amor pela sua Igreja. Ser associado ao ministério de Pedro é muito mais do que integrar uma estrutura; tem o calor da relação humana de caridade e fraternidade; ficámos mais unidos e corresponsáveis com esta pessoa concreta do Papa João Paulo II; a fidelidade que lhe jurámos, é a fidelidade do amor que nos reúne em Jesus Cristo.

    É por isso que aceitamos apaixonadamente o seu desafio de concretização deste ministério, no nosso mundo contemporâneo, neste Início de milénio: olhar o mundo com esperança, não desistindo de ler os "sinais dos tempos"; ser construtores da unidade, continuando a percorrer, persistentemente, os caminhos do diálogo e do ecumenismo; desenvolver e aprofundar uma espiritualidade de comunhão, mostrando à Igreja e ao mundo que não pode haver, nem dicotomias, nem rupturas, entre a verdade e o amor. O nosso Papa é uma grande testemunha da fé e de serviço da humanidade. Com Ele queremos ser testemunhas de Jesus Cristo e dar à Igreja e ao mundo o exemplo vivo de vidas feitas dom, completamente entregues à condução pastoral do nosso rebanho e ao serviço de todos os homens nossos irmãos. Queremos, com Ele, ser, ao mesmo tempo, os defensores intransigentes da verdade que recebemos do Senhor Jesus e o rosto da misericórdia para com todos os que sofrem, a pobreza e a miséria, a incompreensão e a injustiça, a solidão e a inquietação da consciência. Queremos ajudar esta Igreja, que está em Lisboa, a viver intensamente a experiência da universalidade.

        † JOSÉ, Cardeal Patriarca


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