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Homilia do Cardeal-Patriarca na Missa Crismal
12 de Abril de 2001
Homilia do Cardeal-Patriarca na Missa Crismal

"UM POVO DE UNGIDOS E DE TESTEMUNHAS"
Homilia da Missa Crismal - 12/04/2001


     1. Nas celebrações pascais contemplamos a realidade sobrenatural da Igreja, que brota da fecundidade espiritual da morte e ressurreição de Cristo, enquanto apelo de santidade, meio sacramental de graça, mensageira do anúncio da salvação. A santidade identifica-a com Cristo no mais profundo do seu ser; a fecundidade sacramental torna-a instrumento do próprio Cristo para a realização progressiva da Páscoa; a sua missão evangelizadora, na medida em que o anúncio é o da Páscoa definitiva e da radicalidade da salvação, dá nova dimensão à missão profética. Somos profetas do tempo definitivo, porque experimentamos a plenitude da salvação.
     Na celebração da Páscoa torna-se clara a unidade entre vocação e missão da Igreja, e a dimensão que garante essa unidade é a santidade, recebida como dom radical e vivida como projecto de crescimento e de fidelidade. Porque é chamada à santidade a Igreja é enviada em missão. A fecundidade do seu ministério brota da comunhão com Cristo ressuscitado e, por Ele, com a Santíssima Trindade. A santidade que a Igreja comunga com Cristo é o ponto de partida da missão, que encontra na realização da santidade o objectivo primordial. O Santo Padre anuncia-o claramente: "não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade… apontar a santidade permanece, de forma evidente, uma urgência pastoral" (NMI, n.º30). E dirigindo-se a nós sacerdotes, nesta primeira Quinta-feira Santa do Post-Jubileu, o Papa afirma: "Quinta-feira Santa, dia especial da nossa vocação, chama-nos a reflectir principalmente sobre o nosso ser, e particularmente, sobre o nosso caminho de santidade. É daí que brota o dinamismo apostólico" (Carta aos Sacerdotes).

     2. Segundo a "Novo Millenio Ineunte", a santidade da Igreja exprime o seu mistério como "um povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo" e é entendida, antes de mais, como pertença a Deus, Aquele que é três vezes Santo (cf. Is. 6,3). "Professar a Igreja como santa significa apontar o seu rosto de Esposa de Cristo, que a amou entregando-se por ela precisamente para a santificar" (cf. Efes. 5,25-26) (NMI n.º 30).
     Esta pertença ao Senhor, tem a ver com a nossa qualidade de "ungidos", como o próprio Senhor Jesus é o ungido de Deus. "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque o Senhor me ungiu" (Lc. 4, 16-21). Esta unção é uma consagração, uma acção santificadora. Na sua polémica com os fariseus Jesus define-se a si mesmo "como Aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo".
     A Igreja é pertença do Senhor, seu Povo e sua esposa, porque Deus a ungiu e consagrou, em Jesus Cristo. É essa predilecção de Deus que faz dela "um reino de sacerdotes para o seu Deus e seu Pai" (Apc. 1,5-8).
     A santidade da Igreja consiste, antes de mais, nesta eleição de Deus, que a consagrou pela unção. Ela é santa, porque é obra do Espírito de Deus. Toda a sua vida deve ser uma resposta de fidelidade, em coerência com essa eleição. Santa por iniciativa de Deus, manifesta a santidade na maneira como vive essa aliança de amor com Cristo, seu Senhor.
     Os óleos que vamos abençoar e consagrar mostram-nos a actualidade e perenidade desta atitude de Deus, que continua a ungir novos membros, consagrando-os para viverem em santidade e justiça. Povo de ungidos no baptismo e na confirmação, a Igreja vive, continuamente, da missão de Jesus Cristo, o ungido de Deus, que através da força do Espírito, continua a consagrar e santificar, agindo através dos sacerdotes, membros do Povo sacerdotal, que Ele ungiu de novo, para o sacerdócio ministerial. Só um povo sacerdotal pode acolher e valorizar o dom novo do sacerdócio ministerial que actuando sacramentalmente o ministério do próprio Cristo, possibilita à Igreja viver plenamente a sua situação de pertença ao Senhor, de esposa que acolhe o amor com que é amada.
     Irmãos e irmãs, os sacerdotes que vos são enviados são pertença do Senhor, que os ungiu e consagrou, valem pelo que realizam em nome de Jesus Cristo, são para todo o povo a manifestação da solicitude de Deus. Quantas vezes as comunidades cristãs reagem perante os sacerdotes com critérios demasiadamente humanos, deixando na sombra o verdadeiro significado do seu ministério: a capacidade de agir, em nome de Cristo, para a vossa santificação. O que o sacerdote e só ele pode realizar, para vós, em nome de Cristo, é infinitamente mais importante de tudo o que possamos fazer com as nossas qualidades humanas. Ungido, o sacerdote tem o poder de ungir, consagrar, perdoar, actuando o amor infinito de Deus pela sua Igreja. É por isso que o nosso sacerdócio é um ministério de amor sem limite, continuando a atitude de Jesus, que tendo amado os seus que estavam no mundo, os amou até ao fim (cf. Jo. 13, 1).
     E nós próprios, os sacerdotes, sabemos e acreditamos que o facto de termos sido ungidos, define o nosso mistério e traça o itinerário da nossa fidelidade. Na humildade da nossa fé, começamos por acreditar no que somos, na obra que realizou em nós, para Ele continuar a santificar o seu Povo. Nós sabemos que, ao consagrar-nos, Deus criou em nós uma radical intimidade com o seu Filho Jesus Cristo e que, a partir desse momento, nos faz sentir o apelo contínuo de aprofundar e radicalizar essa intimidade que nos levará à identificação com Ele. Esse é também o apelo que o Papa nos dirige hoje, a nós sacerdotes: "ao mesmo tempo desejo fazer-me eco da voz de Cristo, que nos chama a aumentar, sempre mais, a nossa relação com Ele. "Eis que estou à porta e bato" (Ap. 3,20). Como anunciadores de Cristo, em primeiro lugar somos convidados a viver na sua intimidade: não se pode dar aos outros aquilo que nós mesmos não possuímos" (Carta aos Sacerdotes).

     3. Esta liturgia faz-nos encontrar com a verdade da Igreja como Povo que o Senhor continua a santificar, através da mediação sacramental. Os critérios da edificação da Igreja são sobrenaturais, que nos desvelam a acção amorosa de Deus através da fecundidade sacramental da Igreja e não sociológicos e culturais, apenas baseados na capacidade das nossas forças humanas. Ser cristão é um mistério de graça, a que se abre, em atitude de acolhimento cooperante, a totalidade do nosso ser. Ouçamos o Santo Padre: "há uma tentação que sempre incidia qualquer caminho espiritual e também a acção pastoral: pensar que os resultados dependem da nossa capacidade de agir e programar. É certo que Deus nos pede uma real colaboração com a sua graça, convidando-nos a investir todos os nossos recursos de inteligência e de acção, no serviço pela causa do Reino; mas ai de nós se nos esquecermos que "sem Cristo nada podemos fazer"" (NMI, n.º 38).
     Esta prioridade absoluta da iniciativa de Deus, através do Espírito de Cristo, na edificação do Reino de Deus e na consolidação da santidade, define a verdade do nosso sacerdócio ministerial em favor do Povo de Deus. O que nos especifica e distingue é o poder sacerdotal de Jesus Cristo, que actuamos em nome d'Ele através do ministério sacramental da Igreja. O nosso ministério sacerdotal é, para os cristãos a quem somos enviados como pastores, a afirmação permanente de que a santificação é obra do Espírito de Cristo; e para nós próprios, a consciência da misericórdia infinita de Deus que nos escolheu para tão sublime ministério, apesar da nossa fragilidade pecadora. O mistério da misericórdia exprime-se, continuamente, na Igreja, perante o confronto paradoxal entre o pecado e a santidade de Deus, mas onde esse mistério se torna mais sensível é no coração do Padre que se sente protagonista de uma acção recriadora e santificadora, na incapacidade da sua fragilidade.
      S. Paulo tinha razão: "onde abundou o pecado, super-abundou a graça". Quantas vezes fazemos o raciocínio ao contrário: perante a misericórdia de Deus, que acontece e se actua através de nós, sentimos dramaticamente a pequenez da nossa fragilidade. É por isso que, para nós sacerdotes, o exercício do nosso ministério sagrado é a fonte inspiradora da nossa fidelidade cristã e da nossa santificação.

     4. A Palavra de Deus proclamada nesta celebração, depois de nos apresentar Jesus Cristo como o ungido de Deus, diz-nos que Ele é "a Testemunha fiel" (Ap. 1,5-8). Todo o ministério de Jesus foi um testemunho da Palavra eterna de Deus e do amor paternal de Deus. Toda a Igreja, enquanto Povo de ungidos pelo Espírito e, de um modo especial, nós os sacerdotes, por Ele ungidos para o ministério sacerdotal, devemos ser um povo de testemunhas, da Palavra da vida, proclamando a verdade que tem em Deus a sua fonte, dessa certeza inaudita de que Deus nos ama, ama todos os homens, que Cristo ama a sua Igreja com a ternura de um esposo. No que a nós sacerdotes diz respeito, diz-nos o Papa na carta que hoje nos dirige: "deste grande mistério, nós fomos constituídos, por um título especial, testemunhas e ministros"; testemunhas de um mistério de amor sem limites, mistério de unidade que, da abundante riqueza da Trindade se derrama, sem limites, sobre a Igreja; mistério de serviço dos homens nossos contemporâneos, que sentirão nesse nosso serviço, a ternura do amor de Deus.
     Que esta Páscoa dinamize a Igreja de Lisboa, para se reconhecer como povo de ungidos e de testemunhas e a fazer-se ao largo, confiante na força de Deus, percorrendo os caminhos da santidade e da missão.


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


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