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Homilia do Cardeal-Patriarca na Sexta-feira Santa
13 de Abril de 2001
Homilia do Cardeal-Patriarca na Sexta-feira Santa

"A CRUZ É A CÁTEDRA DE DEUS NO MUNDO"
Homilia de Sexta-feira Santa - 13/04/2001


      1. O Santo Padre João Paulo II, na homilia da festa da Cadeira de S. Pedro em Roma, celebração em que entregou o anel aos novos Cardeais, afirmou: "Não tenhais dúvidas que, tal como aconteceu com Cristo e com Pedro, o vosso testemunho mais eficaz será sempre aquele que for assinalado com a Cruz. A Cruz é a Cátedra de Deus no Mundo". (Oss. Rom. 23-02-2001).
      A palavra usada evoca um vasto horizonte de significado: a cátedra é o lugar onde o Mestre ensina. Para além da palavra escrita e falada, comunicada através da tradição, a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo é um púlpito vivo e permanente, onde Deus continua a proclamar a sua mensagem de salvação. O que é que podemos ouvir e perceber, contemplando e adorando o crucificado? O Papa enuncia a seguir uma primeira concretização dessa mensagem: "nela Cristo oferece à humanidade a lição mais importante, a de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou (cf. Jo. 19, 26), até ao dom extremo de Si Mesmo". A mensagem da Cruz é uma lição de amor, gratuito, generoso, radical porque se exprime no dom da próprio vida.
      Há algo que talvez só se aprenda contemplando a Cruz: a compreensão do sentido do sofrimento e da possível fecundidade da dor. Por inclinação instintiva da natureza, a civilização e a cultura evoluíram no sentido de eliminar o sofrimento e a dor, quase sempre considerados como um mal a evitar. Não estou a insinuar que não é justo e bom lutar para mitigar, até às fronteiras do possível, o sofrimento dos nossos irmãos e isso faz-se, tantas vezes, na generosidade da caridade cristã, correndo riscos, aceitando privações e sofrimentos, dando a sua própria vida. Só se vence o sofrimento do mundo, aceitando dar generosamente a nossa vida em favor dos nossos irmãos. E esse é o tal testemunho assinalado com a Cruz de Cristo.
      Mas somos forçados a reconhecer que o sofrimento foi e continua a ser, em todos os tempos, uma experiência humana tão universal como a da alegria e da felicidade. Ele é físico ou espiritual, causado pela violência e pelas injustiças, pela miséria ou pela doença, ou adquire os contornos da solidão, do abandono, da perda do sentido da vida. E perante uma experiência tão universal e tão intensa, ou nos deixamos esmagar pelo seu peso, ou o assumimos generosamente, oferecendo-o misteriosamente como semente fecunda de redenção. Podemos aprender esse sentido pascal da dor humana, contemplando e adorando a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. E essa é uma compreensão que alarga o nosso coração para o sentido da própria morte de Cristo, para a beleza do amor com que nos ama, para o sentido da nossa vida, tomada como um todo, chamada a ser dom e comunhão. A dor integra-se, então, na harmonia da vida, e pode mesmo revelar-lhe a sua beleza mais profunda.
      Contemplar a Cruz de Cristo ensina-nos, também, a actualidade redentora do sofrimento do Senhor. O mistério da Cruz não é um acontecimento passado, mantém a perenidade salvífica em todo o tempo. O Senhor continua a oferecer-Se pela humanidade, sendo a oferta sacrificial objectivada no sofrimento dos cristãos, que, no dizer de S. Paulo, completam no seu corpo o que falta à paixão de Cristo. Há uma unidade misteriosa entre a Cruz, como sinal, e a Eucaristia como sacramento. Contemplar a Cruz é caminho para mergulhar no mistério da Eucaristia enquanto sacramento do amor redentor, onde o sofrimento de Cristo e da Igreja se unem numa mesma oblação a Deus, pela redenção do mundo. Capta-se aí o significado da norma litúrgica que determina que sobre o altar da Eucaristia se erga a Cruz do Redentor.

      2. Mas as palavras do Santo Padre têm, ainda, outra dimensão: aquela cátedra pode ser interpretada como um trono de realeza. "A Cruz é o trono de Deus no Mundo". É uma velha tradição da espiritualidade cristã, o olhar a Cruz como o trono da realeza de Jesus Cristo, pois a sua glória é o triunfo do amor. Já o profeta Isaías interpreta, assim, o sofrimento do Servo: "Vede como vai prosperar o meu servo: subirá, elevar-se-á e será grandemente enaltecido… Numerosas nações hão-de ficar assombradas e diante dele os reis hão-de ficar calados, pois hão-de ver o que nunca lhes haviam contado e observar o que nunca tinham ouvido" (Is. 52, 13 e ss).
      Na Carta aos Hebreus o crucificado aparece com a glória do Sumo Sacerdote, que tendo experimentado o sofrimento, atingiu a grandeza dos corações puros e dos homens livres, capazes de perceber a dimensão dramática da redenção. O sofrimento ensinou-lhe a obediência, isto é, a docilidade ao desígnio de Deus.
      É sobretudo a himnologia litúrgica que canta a Cruz como trono de glória. A Cruz é um estandarte que proclama ao mundo a glória de Jesus na sua morte. Ela é insígnia triunfal, penhor de eterna glória. Relacionando a Cruz com a árvore da vida do paraíso inicial, ela é aclamada como árvore fecunda e refulgente, ornada com a túnica real, ou "árvore santa e gloriosa".
      A fecundidade da morte de Cristo na Cruz, constitui, na compreensão cristã, mais um título de glória. Já Isaías sublinhava essa fecundidade do sofrimento do Servo: "Aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento. Mas se oferecer a sua vida como sacrifício de expiação, há-de ver uma descendência, terá longos dias, e graças a ele se cumprirá o desígnio do Senhor".
      A Cruz é, assim, uma árvore fecunda em abundantes frutos de redenção: "Árvore nobre e gloriosa, nenhuma outra nos deu tal ramagem, flor e fruto".
      Nunca, como na Cruz, Cristo amou a sua Igreja como esposa. Esta dimensão esponsal do amor redentor é também cantada, no louvor da Cruz: "Sois tálamo, sois trono e sois altar", sacrário onde ficou viva a memória do amor infinito de Deus.
      A Cruz é, realmente, o trono de Deus no mundo. É contemplando-a que se descobre a mais bela expressão do triunfo de Jesus: o triunfo do amor. Interpretação chocante e denunciadora para quantos procuram outras manifestações de glória e de grandeza. A humildade do dom e a gratuidade da obediência, anunciam o verdadeiro triunfo da liberdade.

      3. É impossível contemplar a Cruz de Cristo sem abraçar, com o mesmo olhar, a figura de Maria, Sua Mãe, que ficou de pé, junto à Cruz (cf. Jo. 19, 25) e acolheu no seu regaço maternal, com piedade serena, o cadáver do Seu Filho. Ainda vivo, do alto da Cruz, Jesus continuou a ser Mestre, confirmando para todo o sempre que a sua Cruz é uma Cátedra, proclamando que a maternidade de Maria se alargava à maternidade da Igreja. "Mulher, eis o teu filho!". Como em tantas outras vezes da sua vida, Maria foi discípula, acolhendo a última dimensão da sua missão. Junto à Cruz, para todos os que a adoram, ela de discípula tornou-se mestra, participando na missão do seu divino Filho. Não se pode ouvir a mensagem que Cristo continua a proclamar do alto da Sua Cruz, sem a escutar a ela, a repetir-nos, sempre de novo: "fazei tudo o que Ele vos disser".
      Também para Maria a Cruz foi um trono. Com o seu coração ainda mais aberto por aquela espada de dor, na densidade do seu silêncio, na serenidade do seu olhar carregado de uma ternura que abraça o mundo, se soubermos escutar esse silêncio, ouvi-la-emos balbuciar, connosco, para sempre: "Meu Senhor e meu Deus".
      Nesta tarde de Sexta-feira Santa, em que a Cruz de Cristo se eleva sobre a Igreja e sobre o mundo, fixemo-la na ânsia de captar a sua mensagem e adoremo-la como um trono de glória.


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

ORGANOGRAMA DA CÚRIA
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