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Homilia do Cardeal-Patriarca na Vígilia Pascal
14 de Abril de 2001
Homilia do Cardeal-Patriarca na Vígilia Pascal

"A LUZ E AS TREVAS"
Homilia da Vigília Pascal - 14/04/2001


      1. Esta longa vigília de oração, até pela sua duração, sugere a longa caminhada do homem, até à conquista da harmonia definitiva. Nesta noite desdobram-se perante os nossos olhares as diversas etapas desta caminhada, que tem em Deus a sua origem, a força para o caminho e a harmonia definitiva da criação, que nos atrai: da criação inicial ao aparecimento do homem, rei da criação e primeiro polo de convergência claro de todo o dinamismo criador; da criação do homem à aliança de Deus com Abraão, em que se revela o dinamismo decisivo da humanidade como comunidade e fraternidade, como Povo, que encontra na intimidade com Deus e na fé que ela exige, a força decisiva da história; de Abraão a Moisés, em quem, após a experiência dolorosa do cativeiro e da injustiça, Deus se revela como salvador e libertador do seu Povo; de Moisés a Jesus Cristo, o homem perfeito e o novo e definitivo polo de convergência da criação e da história; de Jesus Cristo até à parusia, plenitude da criação e da história, em que o Espírito de Deus, que já presidiu à criação, conduz o Povo novo, que nasceu da sua páscoa, pelos caminhos do amor, da fraternidade e da justiça.
      De todo este longo processo, emerge o homem como única realidade absoluta, depois de Deus, claramente confirmada na plenitude humana de Jesus Cristo. Ele revelou definitivamente a dignidade absoluta de cada homem e de cada mulher, ponto de referência necessário e incontornável para que a história tenha sentido. Afirmou-se, progressivamente, a dimensão comunitária da vida humana e o amor, a generosidade do serviço dos outros e a denúncia dos egoísmos, revelaram-se os valores decisivos para o progresso da família humana. O Povo da aliança foi descobrindo que o projecto de Deus é para toda a humanidade e que, se Deus o cumulou de dons, é porque o quer enviar, qual sinal mediador, a ser, no seio da humanidade, a semente da fraternidade e da comunhão. Esta missão do Povo bíblico em relação ao todo da humanidade, radicalizou-se e tornou-se mais clara na Igreja, novo Povo de Deus. É esta missão que define o sentido da presença da Igreja na história e do seu compromisso com toda a cidade dos homens.

      2. Em toda a longa caminhada da história a Igreja não se pode desligar do destino da comunidade humana, pois é da construção de uma sociedade à altura da dignidade e da grandeza do homem que se trata. E é no captar o sentido deste esforço que aparece a importância da luz, que inspira a liberdade e esclarece as consciências, define o sentido do progresso e ilumina a cidade futura a alcançar. É por isso que, segundo o texto do Génesis, Deus começou pela criação da luz: "Disse Deus: haja luz. E houve luz. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas" (Gen. 1, 1-2). Separar a luz das trevas, eis o drama da história.
      A luz física, a que se chamou dia, era apenas o símbolo da luz interior que conduz a inteligência e o coração do homem enquanto protagonista e construtor da sua própria história. Essa luz interior, que o ensina a identificar o bem e a evitar o mal, ou seja, os caminhos que não são construtivos da dignidade humana, foi acesa por Deus no mais íntimo da consciência do homem, "criado à Sua imagem" e é alimentada e reavivada por toda a Palavra que nos vem de Deus. É por isso que a Palavra de Deus ganhou um relevo tão decisivo na história do Povo bíblico; ela reacendia, continuamente, essa luz original da consciência. A luta entre a luz e as trevas travou-se no coração do homem e transformou-se na batalha decisiva da história. Ela ecoou na mensagem corajosa de profetas, irradiou no sentido salvífico de acontecimentos libertadores; tornou-se clara e decisiva na palavra e na pessoa de Jesus Cristo. Ele próprio assumiu "ser a luz do mundo".
      A separação da luz das trevas foi decisiva, no que à luz física diz respeito, na ordem da natureza. Mas no que à luz interior diz respeito, a batalha continuou, entre a luz e as trevas, constituindo essa luta a ambiguidade dramática da história humana. O Evangelista S. João apresenta Jesus como um momento crucial nessa luta entre a luz e as trevas: "a luz brilhou nas trevas e as trevas não a apreenderam" (Jo. 1, 5); Ele "é a luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. Ele estava no mundo e o mundo feito por meio d'Ele, não o conheceu" (Jo. 1, 9-10).
      Tal como na primeira criação aconteceu a vitória da luz física sobre as trevas, assim em Jesus Cristo, início da nova criação, se deu a vitória da luz interior sobre as trevas. Mas essa vitória de Jesus Cristo tem de ser confirmada pela Igreja, para que em toda a humanidade a luz vença as trevas.
      É essa vitória de Jesus Cristo que cantámos, no hino à luz, com que iniciámos esta solene vigília: "Rejubile a terra, inundada por tão grande claridade, porque a luz de Cristo, o Rei eterno, dissipa as trevas de todo o mundo. Alegre-se a Igreja, nossa Mãe, adornada com os fulgores de tão grande luz" (Precónio).
      Este é um compromisso de fidelidade da Igreja para com Jesus Cristo, estar na história e agir na sociedade, guiada pelo brilho desta luz. Enraizada na Palavra de Deus, ela tornou-se no íntimo do nosso coração "luz da fé", fonte de sentido para a nossa liberdade e responsabilidade, fonte dos nossos ideais, guia da nossa acção na luta por um mundo novo. A interacção dos cristãos na sociedade não pode ser julgada a partir de critérios sociológicos do evoluir dos fenómenos; ela é guiada por essa luz de Cristo, comunicada pelo seu Evangelho, enraizada no mais íntimo de nós como "luz da fé", inspiradora de valores e de critérios éticos, fazedora de cultura e de civilização.
      Que ninguém se admire de a Igreja estar a agir na sociedade guiada por esta luz. Essa é a sua missão, é o seu contributo específico para a civilização e para o progresso da humanidade. Que ninguém estranhe se a Igreja denunciar todas as opções de civilização, expressas em leis ou no incentivar de comportamentos colectivos e de visões ideológicas da história, que se afastem dessa luz, que através da fé e da cultura guiou o sentido do nosso viver colectivo. Quando assistimos a uma euforia legislativa, que põe em questão o respeito sagrado da vida humana no momento mesmo da sua concepção, adultera e desresponsabiliza o amor humano no que ele tem de mais sagrado, põe em questão a família, santuário dessa dignidade e viveiro dessa responsabilidade, se pretende resolver problemas preocupantes da sociedade, como é o caso da toxicodependência, com soluções pragmáticas não dignificantes, adiando as verdadeiras soluções, no diagnóstico das causas reais, temos uma sensação dolorosa de civilização em crise. Também entre nós, a luz ainda não venceu as trevas.
      Mas a vitória da luz sobre as trevas não depende, prioritariamente, destas denúncias estruturais. Decide-se no coração de cada um de nós, deixando e procurando que a "luz de Cristo" se transforme em "luz da fé", a iluminar as nossas consciências e a nossa liberdade. É por isso que nesta noite santa, sob o fulgor da luz de Cristo ressuscitado, somos chamados a renovar e reavivar a nossa fé.


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

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