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Homilia do Cardeal-Patriarca no dia da Igreja Diocesana
20 de Junho de 2001
Homilia do Cardeal-Patriarca no dia da Igreja Diocesana
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA
NO DIA DA IGREJA DIOCESANA

DIA DA IGREJA DIOCESANA

Homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa

    1. Celebramos hoje a festa litúrgica da Santíssima Trindade. É a afirmação da centralidade de Deus na aventura da salvação. Ele, por quem todas as coisas foram feitas e que constituirá a plenitude dos homens que criou. O mistério de Deus é o primeiro problema do homem, pois só Ele encerra a resposta para o mistério que cada um de nós traz no seu coração. Não há solução humana desligada do mistério de Deus.
    Mas celebramos o mistério do Deus Trindade, no ciclo cristológico da redenção. É Nosso Senhor Jesus Cristo quem nos revela e nos introduz no mistério de Deus e no-lo torna acessível no concreto da nossa vida de fé. Em Cristo aprendemos e foi-nos dado experimentar que Deus é sabedoria infinita, que desde o início presidiu à harmonia da criação. Ele próprio é a Palavra eterna de Deus, tornada próxima de nós, na encarnação, abrindo a nossa inteligência e a nossa liberdade para o eterno desígnio de Deus a nosso respeito. Com Ele sentimos e descobrimos que Deus é amor, amor de Pai, de quem Ele próprio se sente Filho e que deseja acolher-nos a todos nessa intimidade filial; amor ardente, intenso e transformador, que cura, fortalece e consola, que é capaz de transformar os nossos corações doentes e desviados, em corações delicados e bondosos, de filhos e de irmãos. Esse amor fecundo e criador permite a cada homem a esperança de encetar um caminho novo, como escreve S. Paulo aos Romanos: temos esperança "porque o amor de Deus se encontra derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi concedido". Só a partir do coração de Cristo podíamos receber esse Espírito de amor. A centralidade salvífica de Deus resume-se, para nós, na centralidade de Jesus Cristo, que nos revela e comunica o amor paterno de Deus através do dom do seu Espírito.

    2. Ao celebrarmos, nesta festa litúrgica, o "Dia da Igreja Diocesana", afirmamos a relação entre a Igreja e o mistério de Deus, comunhão trinitária de pessoas. A Igreja é a comunidade histórica constituída por aqueles e aquelas, que acolheram em Jesus Cristo, a Palavra eterna de Deus e a entenderam como Palavra de vida, reveladora, em cada momento, do desejo de Deus a nosso respeito; por aqueles e aquelas que, em Jesus Cristo, se sentem amados por Deus e deixaram que esse amor recriasse os seus corações, tornando-se capazes de louvar a Deus e amar os seus irmãos como Deus os ama. A Igreja é uma aventura de sabedoria eterna e de amor infinito, que acontecem no realismo da nossa vida e da nossa história. O crescimento da Igreja mede-se na profundidade com que acolhemos, sempre de novo, a Palavra eterna de Deus e nos deixamos envolver pelo seu amor.

    3. Esta é a primeira grande assembleia da Igreja diocesana depois da celebração do Grande Jubileu. O Papa João Paulo II enriqueceu a Igreja toda com uma nova Carta Apostólica, convidando-a, neste início de novo milénio da era cristã, a continuar a experiência de graça que foi o Jubileu, e a trilhar decidida e corajosamente os caminhos da autenticidade e da radicalidade, para maior glória de Deus, e para ter mais capacidade de ser sinal e testemunha, no nosso mundo contemporâneo. Aquele desafio "faz-te ao largo", é um convite a vencer o desânimo, a acomodação e a tibieza, a redescobrir o élan mobilizador dos primeiros tempos do Evangelho, a recuperar a ousadia de anunciar, a coragem para amar, a candura de coração que lhe permita acreditar num mundo novo. Aquele "faz-te ao largo", lança a Igreja, não apenas para a extensão e urgência da missão, mas para a profundidade do mistério de Deus, acessível para nós em Jesus Cristo, onde é preciso mergulhar com a confiança de quem aceita perder-se em Deus.
    Tendo lido e meditado a Carta Apostólica do Santo Padre, neste dia da festa de Deus, Trindade Santíssima, isto é, da festa de Jesus Cristo Glorioso, que nos aproxima de Deus nosso Pai, inundando-nos com o Espírito de amor, ensinando-nos a viver em comunhão, que a nossa prece se eleve ao Céu, pedindo luz e força, para que a nossa Igreja de Lisboa, na intimidade de cada crente, no calor da comunhão fraterna, através de toda a sua acção, seja cada vez mais a Igreja que Cristo deseja, que Ele ama como uma esposa e que envia, sempre de novo, como sinal do amor salvífico de Deus. Não queremos uma Igreja culta, acutilante na sua intervenção social, generosa no cumprimento dos preceitos, bela na sua liturgia, piedosa na sua oração. Queremos isso tudo e mais, porque só queremos construir a Igreja de Jesus Cristo, a Igreja que Cristo deseja e ama, a Igreja que Ele conduz, como peregrina, para o banquete das núpcias eternas. Rezemos com fé, pois é quando rezamos que melhor captamos o desejo de Deus.

    4. Peçamos ao Senhor que nos ensine a edificar uma Igreja, centrada em Jesus Cristo. É a Ele que queremos e servimos; é o seu Reino que nos mobiliza, o seu amor que nos fortalece. Queremo-lo a Ele, como ponto de partida, como companheiro da nossa peregrinação, como termo da nossa fidelidade. Só construímos a Igreja, porque Ele a deseja e ama, como expressão e lugar da salvação. Como vosso Bispo, apetecia-me nunca mais vos falar de mais nada, a não ser de Jesus Cristo, pois reconduzindo todas as coisas a Ele, podemos falar de tudo, falando d'Ele.
    Uma Igreja centrada em Jesus Cristo, é uma Igreja que se apaixona por Ele, que o quer conhecer e amar sempre mais, que contempla o seu rosto, que deseja a sua intimidade. É uma Igreja que O escuta como Palavra e sabedoria de Deus, Palavra que ela escuta em adoração, onde aprende a conhecer Deus e o seu desígnio, uma Palavra que a converte e envia. O desinteresse pela Escritura é o desinteresse pelo próprio Jesus Cristo.
    Uma Igreja que busca o rosto do Senhor, é uma Igreja que vive da Eucaristia e para a Eucaristia. Aí somos oferentes com Cristo e com Ele nos transformamos em oferta de louvor; aí nos comprometemos, com o nosso dom, na redenção actual do mundo contemporâneo; aí adoramos o Senhor e no convívio silencioso, deixamos que Ele nos revele, não apenas o Seu rosto, mas o Seu coração.
    Uma Igreja que ama a Eucaristia e encontra nela a fonte inesgotável do seu vigor espiritual, é uma Igreja que descobre a comunhão como antecipação do Reino, vence generosamente todos os obstáculos que a dificultam, saboreia a riqueza da variedade de dons, na unidade da caridade, aprofunda todas as suas concretizações e expressões, e repete sempre de novo a exultação do salmista: como é belo e bom viver harmoniosamente com os irmãos.
    Uma Igreja que experimenta o mistério da comunhão e sabe que a sua fonte é a comunidade trinitária, por Jesus Cristo, é uma Igreja que se rejuvenesce continuamente no entusiasmo evangelizador do anúncio. Nada torna a evangelização comovente e fecunda, como o ela ser, não apenas o enunciar de uma convicção, mas o testemunho de uma experiência apaixonante e libertadora.

    5. Uma Igreja que ama a Jesus Cristo, que com Ele celebra a Páscoa e constrói a comunhão na ousadia do amor, uma Igreja que testemunha vivendo e daí parte a anunciar essa experiência que vale a pena, é uma Igreja que pertence ao Senhor. Ela é Igreja de Jesus Cristo, Ele é o Senhor da Igreja, e nesse sentido de pertença, ela descobre a sua vocação à santidade. Não se pode ser de Jesus Cristo sem amar, sem viver como Ele deseja. Peçamos ao Senhor que conduza a Igreja de Lisboa pelos caminhos da santidade, e que Maria, Mãe de Jesus e Mãe da Igreja, aquela que Deus assumiu na sua realidade trinitária como a nenhuma outra criatura, seja nossa intercessora, nossa guia e modelo, nossa Mãe e nossa Irmã, porque ela é a Mãe da Igreja.

Mosteiro de Alcobaça, 10 de Junho de 2001


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


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