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Homilia do Cardeal-Patriarca nas Ordenações
23 de Setembro de 2001
Homilia do Cardeal-Patriarca nas Ordenações
HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA
NAS ORDENAÇÕES DE 23 DE SETEMBRO DE 2001

    1. Numa missa de ordenações, é normal que a nossa meditação se centre no mistério do sacerdócio, na exigência e na dignidade de um ministério que nos torna sacramentos vivos do próprio ministério de Jesus Cristo, última e definitiva manifestação do amor salvífico de Deus. Através de nós é Jesus Cristo que continua a amar o mundo.
    Nessa meditação devemos deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus, aquela que a Liturgia, expressão maior da pedagogia da Igreja, nos propõe hoje para meditação. Aliás isso é exigido pela atitude fundamental de todo o cristão, o de ser ouvinte da Palavra. Ela revela-nos, em cada momento, o sentido divino da vida e da história. A fé é sempre, no seu início, escuta da Palavra, que penetra o nosso íntimo e nos abre o coração ao horizonte de Deus. Todo o sacerdote é ministro da Palavra, o que lhe cria uma dupla exigência de escuta da mesma Palavra: como crente e como testemunha. Só pode ser ministro da Palavra quem a escuta continuamente, deixando que ela conduza e transforme a nossa vida. Nenhum sacerdote pode servir-se do seu ministério para propor a sua verdade, mas antes a verdade de Deus. Hoje, mais do que nunca, a credibilidade do ensinamento dos ministros da Igreja depende da sua fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo.

    2. A Palavra que acaba de ser proclamada põe, perante nós, a defesa dos pobres face à exploração injusta dos opressores. Os pobres são frágeis, a sua necessidade cria dependências que podem ser injustamente aproveitadas pelos poderosos deste mundo. A Igreja não é contra os ricos, mas tem de estar claramente a favor dos pobres, na defesa da sua dignidade. Esta opção clara pelos pobres, testamento legado pelo próprio Senhor Jesus, torna a Igreja um sinal, na luta por um mundo mais justo e mais fraterno.
    A crise mundial que estamos a atravessar pode ter aí as suas raízes profundas. O fosso criado entre os ricos e os pobres, à escala planetária, cria tensões que potenciam e radicalizam outras causas de conflito. Os países desenvolvidos são chamados a dar um sinal positivo, fundador de uma nova esperança, para a superação da pobreza a nível global. É preciso reparar injustiças cometidas, ser corajoso nas políticas de inter-ajuda, perceber lucidamente as causas profundas do ódio e da revolta. E situá-las apenas em motivações de ordem cultural, étnica ou religiosa é desviar perigosamente a atenção das verdadeiras distorções da actual ordem mundial. A violência é sempre intolerável, mas quando ela acontece, não é construtivo, em termos de progresso da humanidade, responder-lhe com mais violência, sem tentar perceber as suas motivações profundas. Não façamos da crise actual uma guerra religiosa. A todos os opressores dos pobres, independentemente da religião que pratiquem, o Senhor jurou pela boca do profeta Amós: "Nunca esquecerei nenhum dos seus actos".
    Queridos ordinandos! Esta opção pelos pobres deve ser a vossa opção, pois ela é exigência da caridade de Deus. Isso exigirá de vós a virtude da pobreza, que tem a sua máxima expressão num coração liberto em relação ao dinheiro e aos bens materiais. Nada prejudicará tanto o vosso ministério como o apego ao dinheiro. Realmente não se pode servir a dois senhores. Essa liberdade será fundamento da vossa confiança, da disponibilidade para servir, pois a gratuidade é atributo fundamental dos dons de Deus de que sereis ministros.
    Porque será que a vida nos mostra que quanto mais se possui menos disponibilidade se tem para partilhar? Como é bela a generosidade dos pobres, que partilhando o seu pouco, se dão a si mesmos. Aprendei com os pobres; eles ensinam-nos a grandeza de quem confia, de quem põe a sua segurança na confiança em Alguém e não nos tesouros deste mundo. Dai e dar-se-vos-á.
    No presbitério de Lisboa crescemos, nos últimos anos, neste espírito de partilha. Hoje todos os sacerdotes de Lisboa têm o mínimo necessário, porque o Povo de Deus partilha, porque todos partilhamos. Mas as exigências da partilha não podem ficar fechadas no âmbito do nosso presbitério. Há hoje, na Igreja de Deus, Nações e situações em que os nossos irmãos sacerdotes vivem no limiar da miséria. Acabo de regressar de uma reunião das Presidências das Conferências Episcopais dos Países Lusófonos. Um dos assuntos da nossa reflexão foi a sustentação do clero nas diversas Igrejas. Os Bispos de Angola partilharam connosco a situação de um país em guerra. Tinham decidido entre eles garantir a cada padre cinco dólares por mês, mas nem isso conseguem sempre. Na maior parte das paróquias o povo pode apenas partilhar a sua pobreza, aquilo que a terra dá. Esta situação interpelou-me profundamente. Na nossa modéstia, somos chamados a partilhar. Surgiu a ideia, que precisa de ser aprofundada, de geminar dioceses, adoptando um presbitério concreto como o nosso "próximo".

    3. A segunda interpelação da Palavra de Deus é a missão do sacerdote como orante, aquele que reza continuamente pelo Povo. É a ordem de Paulo a Timóteo: "Recomendo, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e acções de graças por todos os homens".
    No nosso contexto actual a exigência das tarefas pastorais pode levar o Padre a não dar prioridade à oração. E no entanto ela é obrigação do seu ministério. Tem aí uma prioridade total a oração litúrgica e, de modo particular, a celebração da Eucaristia. Nunca esqueçais que a Eucaristia a que presidimos é um momento forte de oração, com toda a comunidade, a que preside o próprio Jesus Cristo. Mas dificilmente o sacerdote preside a ela como orante, se continuamente a oração não repassa e penetra todas as suas actividades.
    A falta de sacerdotes pode levar-nos a fazer ainda mais coisas. Eu gostava que essa situação nos levasse a fazer as coisas melhor, o que significa, necessariamente, rezar mais.
    Hoje são apresentados à Diocese os novos Vigários. Em união comigo, com os Senhores Bispos Auxiliares e com todo o presbitério, eles assumirão como primeira responsabilidade esta fraternidade sacerdotal. Sede pastores para os vossos irmãos padres, incansáveis na fraternidade, atentos na solicitude, perspicazes no captar das dificuldades. A nossa caridade sacerdotal será fermento daquela caridade que há-de fazer, cada vez mais, da nossa Igreja de Lisboa, um mistério de comunhão.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


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