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Homilia do Cardeal-Patriarca na Ordenação Episcopal de D. António Montes Moreira
14 de Outubro de 2001
Homilia do Cardeal-Patriarca na Ordenação Episcopal de D. António Montes Moreira

Homilia do Cardeal-Patriarca na Ordenação Episcopal
de D. António Montes Moreira

    1. A Igreja católica, à qual, por graça de Deus, pertencemos desde o dia do nosso baptismo, é uma Igreja Apostólica, que tem as suas raízes nos doze Apóstolos que Jesus escolheu, consagrou e enviou a anunciar o Evangelho até aos confins da Terra, a santificar com o poder do Espírito Santo e a governar, dirigindo o povo dos crentes pelos caminhos da comunhão e da santidade, até à Casa do Pai.
    Esses doze Apóstolos, que o Senhor quis fossem um Colégio, isto é, um grupo unido na mesma comunhão e na mesma missão, continuam hoje presentes e activos, a serem escolhidos, consagrados e enviados, no Colégio dos Bispos, sucessores dos Apóstolos. É esse Colégio, que o Senhor quer unido na comunhão e na missão, que garante a toda a Igreja que o Evangelho continua a ser anunciado, os sacramentos para a santificação sejam administrados, a Igreja seja regida segundo o desígnio do Senhor. É esse Colégio Apostólico, a que preside o Santo Padre, escolhido para exercer o ministério de Pedro, ministério de unidade, que envia a cada Igreja particular um dos seus membros, para nela ser Pastor, pois só ele tem a solicitude de todas as Igrejas.
    A ordenação de um Bispo é um momento criativo deste prolongar-se, no tempo, da missão dos Apóstolos de Jesus. É o Colégio que, com a autoridade da sua cabeça, agrega a si um novo membro, que com todos os Bispos do mundo, assumirá a responsabilidade da missão universal e que, em nome de todo o Colégio Apostólico, é enviado a esta Igreja particular para que nela seja Pastor. Porque a primeira e fundamental dimensão da sua missão, é a solicitude por todas as Igrejas - fomos enviados ao mundo todo - ao ser-lhe confiada a missão pastoral nesta Igreja, ele garantirá a inserção desta Diocese na universalidade da Igreja, cuidará da unidade da mesma fé, combaterá todos os particularismos de doutrina e de disciplina, abrirá os vossos corações à universalidade da caridade.

    2. Segundo uma antiquíssima tradição da Igreja, o Bispo é entregue à Igreja de que vai ser Pastor por uma delegação do Colégio Episcopal, garantia de que o novo Bispo está em comunhão com o Santo Padre, na unidade da fé católica e que a sua autoridade apostólica não é pessoal mas do Colégio que o envia. Aqui estamos nós para vo-lo garantir, numa certeza enraizada na fé e confirmada por um longo conhecimento de amizade pessoal. Podemos garantir-vos que vos entregamos, em nome do Santo Padre, um bom Pastor.
    Dá-se a feliz coincidência de a Ordenação do Senhor D. António Montes acontecer quando, em Roma, está reunido com o Santo Padre, o Sínodo dos Bispos, que está exactamente a reflectir sobre o ministério do Bispo "como ministro do Evangelho de Jesus Cristo para a esperança do mundo". Porque tive de me ausentar do Sínodo para estar aqui, quero dizer-vos que connosco estão de forma especial, presentes o Santo Padre e os Bispos do mundo inteiro. Gostaria que as palavras do Papa, na homilia da abertura do Sínodo pudessem iluminar também esta nossa celebração.

    3. O Bispo é um servidor do Evangelho. O Papa desafiou-nos a concretizar na tríplice dimensão do nosso ministério aquele "duc in altum", desafio lançado a toda a Igreja no post-Jubileu.

    * "Duc in altum docendo" - Era já a ordem de Paulo a Timóteo: "Consagra-te à proclamação da Escritura, à exortação e ao ensino". O Santo Padre aconselhou os Bispos, à imitação de Maria, que se chamou a Si mesma Serva do Senhor, a considerarem-se "servos do Evangelho". Não um evangelho qualquer, mas o autêntico Evangelho de Jesus Cristo, com toda a sua força de converter e de rasgar caminhos novos, fazendo jorrar rios de água viva no deserto da nossa vida. O vosso Bispo será, no meio de vós, um servidor do Evangelho, pela palavra autorizada, pelo testemunho de vida de oração e de pobreza evangélica, ideal que ele aprendeu na escola de S. Francisco de Assis.

    * "Duc in altum sanctificando" - Diz-nos o Santo Padre: "as redes que somos chamados a lançar no meio dos homens são, antes de mais, os sacramentos, de que somos os principais dispensadores, reguladores, guardas e promotores. Eles formam uma espécie de rede salvífica, que liberta do mal e conduz à plenitude da vida". Pela unção episcopal, o novo Bispo torna-se, para vós, uma fonte inesgotável da vida divina.

    * "Duc in altum regendo" - continua o Papa: "como pastores e verdadeiros padres, coadjuvados pelos sacerdotes e outros colaboradores, é-nos entregue a tarefa de reunir a família dos fiéis e fomentar nela a caridade e a comunhão fraterna".
    O vosso Bispo recebe a missão de governar esta porção do Povo de Deus e governar é conduzir todos à unidade da caridade, na comunhão fraterna. Fiquem-nos na memória as últimas palavras do Evangelho que escutámos: "O que vos mando é que vos ameis uns aos outros".
    Na construção de uma Igreja Diocesana como mistério de comunhão, na caridade, é decisiva a unidade entre o Bispo e o seu Presbitério. Ministros de um mesmo sacerdócio, a consagração sacerdotal para bem dos fiéis, é exigência de uma particular comunhão na caridade. Peçamos a Deus que o prestigiado Presbitério desta Diocese de Bragança-Miranda, construa esta comunhão visível, com o seu Bispo e de todos os sacerdotes entre si, suficientemente visível para ser testemunho, tão forte que possa vencer na caridade os possíveis conflitos ou rupturas, tão autêntica e sobrenatural, de modo a que a Igreja se possa nela rever como mistério de comunhão.
    Permiti que vos deixe o meu testemunho pessoal de Bispo de uma grande Diocese, grande no trabalho, nos problemas, mas também nas alegrias. Sinto uma grande força, que me ajuda a sustentar esta cruz com alegria, na amizade fraterna e na comunhão sincera do meu Presbitério. Os padres e a sua caridade fraterna são a minha força e eu quero ser, em todos os momentos e circunstâncias, a força deles.

    4. O nosso ministério é, necessariamente, participação na Cruz de Cristo. É por isso que Ele é fermento de esperança para o mundo de hoje. Diz o Santo Padre na já referida homilia: "A esperança do mundo está em Cristo. N'Ele as expectativas da humanidade encontram um real e sólido fundamento. A esperança de cada ser humano brota da Cruz, sinal da vitória do amor sobre o ódio, do perdão sobre a vingança, da verdade sobre a mentira, da solidariedade sobre o egoísmo. Temos a missão de comunicar este anúncio salvífico aos homens e às mulheres do nosso tempo".
    O Bispo é um dom de Deus. Tenho a certeza que este anúncio da esperança continuará a ecoar nestas terras transmontanas.

    Bragança, 14 de Outubro de 2001

    † JOSÉ, Cardeal Patriarca


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