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Homilia do Cardeal-Patriarca nas Ordenações de Diáconos
02 de Dezembro de 2001
Homilia do Cardeal-Patriarca nas Ordenações de Diáconos

HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA NAS ORDENAÇÕES DE DIÁCONOS

    1. Iniciamos hoje um novo Ano Litúrgico, o ano cristão. O ano é uma medida do tempo, da nossa vida e da nossa história, e segundo uma longa tradição cultural de muitos povos, o tempo mede-se a partir de um acontecimento particularmente significativo, que seja referência espiritual da vida e da história. Assim os judeus contaram o tempo a partir da libertação do Egipto; os romanos, a partir da fundação da cidade. Nós os cristão só poderíamos contar o tempo a partir de Jesus Cristo. Por isso o ano cristão é mais que a medida do tempo; é a sua celebração como tempo da salvação. Toda a nossa vida, na sua duração, está centrada em Jesus Cristo, ganha sentido na Páscoa de Jesus, aprofunda-se na configuração com Cristo, encontrará a sua plena realização, na comunhão total e definitiva com o Senhor, na Casa do Pai.
    A leitura do Profeta Isaías mostra-nos como Cristo é o centro da história, não apenas para os que viveram depois d'Ele, mas de toda a história humana, reunida na mediação do Povo eleito e da sua esperança messiânica. O templo do Senhor, elevado sobre as colinas e ponto de convergência de todos os povos e nações, é o anúncio de Jesus Cristo, a verdadeira morada de Deus entre os homens. Só em Cristo se realiza esta profecia, pois só Ele atrairá a si homens e mulheres de todos os povos e nações. Só Ele nos ensina, definitivamente, os caminhos de Deus; essas veredas, são as sendas por Ele apontadas aos discípulos, para, seguindo-O construírem o Reino de Deus.
    S. Paulo refere-se à densidade e exigência deste tempo da salvação. Como cristãos, ou aceitamos essa exigência, ou a nossa vida perde sentido. É o itinerário do discípulo de Cristo, acolher, sempre de novo a sua Palavra, para passar das trevas à luz. Esta é o símbolo da renovação interior que em nós realiza o Espírito de Cristo, que inclui uma renovação moral, o deixar as obras das trevas e praticar as obras da fé, na experiência da caridade. É esse o sinal de que a salvação está agora mais perto de nós, do que quando abraçamos a fé. Mas a contrária também é verdadeira: se não abandonámos as "obras das trevas", a salvação pode estar hoje, mais longe de nós, do que quando abraçámos a fé.

    2. A última etapa deste caminhar é a última vinda do Senhor, de que nos fala o texto evangélico. Será o tempo da verdade definitiva da humanidade, porque será julgada. Ele virá recolher no seu celeiro os frutos de uma longa e fatigada sementeira, em que se fará a definitiva separação do trigo e do joio. Justo juiz, introduzirá os justos na prometida plenitude da vida. Mas este momento decisivo da história não é apenas o fim; é mesmo mais plenitude do que fim, pois pode ser vivida no tempo presente da nossa vida. Este encontro definitivo com Cristo não é desligável do nosso primeiro encontro com Ele, na fé, nem da nossa peregrinação de discípulos.
Sempre que se intensifica, em nós, a união a Cristo, no amor, na renovação do nosso coração, na fidelidade à missão, não só preparamos, mas antecipamos esse encontro definitivo do fim dos tempos. É em Cristo que, na nossa vida presente, coexistem o pecado e a graça, a caridade experimentada, mas ainda não plenificada, se cruzam o tempo e a eternidade.

    3. Ao longo de 2000 anos de cristianismo, este irromper da plenitude escatológica de Cristo no presente histórico da Igreja e da vida de cada cristão, foi vivida na experiência da caridade e da radicalidade evangélica, dando forma à santidade cristã.
    Mas também desde o início, a opção pelos "conselhos evangélicos", foi sinal interpelante de que é possível viver a vida presente, ao ritmo da plenitude escatológica de Jesus Cristo. A pobreza, a obediência e a castidade, exprimindo em três dimensões fundamentais da vida humana, a radicalidade de Cristo ressuscitado. A pobreza, maneira de usar e se servir dos bens materiais, sem deixar que nos dominem o coração e a liberdade; a obediência, a decisão de, sempre e em todas as circunstâncias, pôr a vontade de Deus, que nos treinamos a perscrutar, acima da nossa própria vontade; a virgindade escolhida como experiência de amor, dando prioridade exclusiva ao amor com que Deus nos ama em Jesus Cristo, Ele a nossa plenitude e a nossa alegria e nos envia a amar os irmãos como Ele os ama, presenças sacramentais do seu próprio amor.
    Não admira que a Igreja começasse a escolher os seus sacerdotes, ministros de Cristo Sacerdote, entre os que desejam seguir os conselhos evangélicos. Tal como a Eucaristia a que o sacerdote preside, a vivência dos conselhos evangélicos é sinal da irrupção da plenitude escatológica no tempo presente. Aos candidatos que hoje se apresentam, antes de lhes impor as mãos, interrogá-los-ei sobre a sua disposição de seguirem os conselhos evangélicos.
    Numa sociedade profundamente marcada pela ganância do dinheiro, pela afirmação da vontade própria de cada um e por vivências da sexualidade que tantas vezes a desviam do amor, perguntam-se muitos se este caminho dos conselhos evangélicos, é possível e tem sentido. Digo-vos, queridos ordinandos, digo a todos os jovens, que é possível porque Deus é fiel. É possível, se acontece na coerência de uma escolha muito séria de Jesus Cristo e se nos esforçámos, pela Palavra, pela oração e pelos sacramentos, por aprofundar a nossa relação vital com Ele. Este caminho vive-se no tempo, mas tem o dinamismo do tempo definitivo, a que temos acesso na Páscoa de Jesus.

    4. O Advento que hoje começamos a celebrar é tempo de esperança, de desejo de acolher e conhecer melhor Jesus Cristo. Ilumina-o, qual estrela da manhã, Maria Imaculada, a Mãe de Jesus, a serva do Senhor que deu primazia absoluta à Palavra de Deus e, no seu coração imaculado, viveu toda a plenitude do seu amor de esposa e Mãe, como expressão da sua virgindade, porque virginal é o amor de Deus que a atraiu. Sigamos o rasto de luz que irradia da sua plenitude de graça.

Mosteiro dos Jerónimos, 2 de Dezembro de 2001

† JOSÉ, Cardeal Patriarca


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