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Homilia do Cardeal-Patriarca na Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria
08 de Dezembro de 2001
Homilia do Cardeal-Patriarca na Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria

HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA NA
SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

    1. Esta festa litúrgica da Imaculada Conceição da Virgem Maria, convida-nos a contemplar, no realismo de uma existência concreta, a de Nossa Senhora, o mistério da graça divina, na Igreja, povo de crentes chamados à santidade. É mais fácil captar a beleza da vocação cristã, confrontando-nos com a sua vivência por pessoas concretas. Aí captamos, com a força de um testemunho exemplar, a viabilidade da santidade.
    Desta vocação à santidade nos fala S. Paulo na Carta aos Efésios. Tem a ver, antes de mais, com o eterno desígnio de Deus acerca dos homens que criou: "destinou-nos de antemão a sermos seus filhos adoptivos, mediante Jesus Cristo, por benevolência da Sua vontade, para louvor da glória da Sua graça, com a qual nos favoreceu no Seu Filho predilecto". Este desígnio de Deus de fazer de cada homem um filho, com acesso à intimidade de Deus Pai, encerra a razão de ser da própria criação. Deus não criou um ser qualquer, criou filhos, destinados à plena partilha da vida, a que eles hão-de aderir pela sua própria liberdade. Ao criar o homem como um filho, em cada homem Deus revê-se no seu único Filho, à imagem do qual todos fomos criados, e em Quem teremos acesso à plenitude da relação filial com Deus. Diz o Apóstolo: "foi assim que, n'Ele, nos escolheu antes da criação do mundo, a fim de sermos, na caridade, santos e irrepreensíveis diante d'Ele".
    Tal como a criação foi obra de Deus, esta construção progressiva da qualidade filial em nós, é obra de Deus, através da força criadora de Cristo ressuscitado. "Lá dos Céus, encheu-vos com toda a espécie de bênçãos espirituais, em Cristo". Deus tem para nós um desejo e dá-nos toda a força que o pode tornar realidade.

    2. Em Maria este plano de Deus realizou-se plenamente. Ninguém se aproximou mais da plenitude filial de Jesus Cristo, porque nela, como em nenhuma outra criatura, aquelas "bênçãos do Céu" foram totalmente fecundas.
    O anjo da anunciação, ao saudar Maria, fala de plenitude de graça - "Salvé ó cheia de graça". Esta plenitude de graça é, na verdade, atributo de Jesus Cristo e é dessa sua plenitude que toda a Igreja recebe o dom da vida divina (cf. Efs. 1, 22).
Se o mensageiro divino reconhece, em Maria, uma plenitude de graça, esta só pode ser uma participação na plenitude do próprio Jesus Cristo.
    Em Maria, esta plenitude de graça exprime-se na duração. Porque é obra de Deus, aconteceu nela desde o primeiro momento da sua existência; mas exprime-se também na profundidade e na radicalidade: a intimidade com Deus é total, a santidade de Deus reflecte-se na sua vida de forma cristalina. Entre o que Deus desejou para ela e o que ela é, na realidade da sua existência, não há distância alguma, aquela distância que o pecado introduziu, dramaticamente, na vida de todos os homens.
    Nesta plenitude de graça, realizada numa criatura, somos chamados a contemplar o próprio mistério da graça. O que é, afinal, a graça de Deus? É a presença amorosa e solícita de Deus na vida daqueles que chama à santidade, identificando-os com a plenitude de vida do próprio Cristo.
"Bênçãos espirituais em Cristo", lhe chama S. Paulo, predilecção amorosa de Deus, revela o anjo a Maria: "Achaste graça diante de Deus". Esse amor de Deus é criador, possibilita a realização da nossa vocação sobrenatural e a realização, em nós, do chamamento de Deus à santidade. O projecto de Deus é viável em nós, porque Deus o torna possível com o Seu amor, que continua a ser um amor criador. Caminhamos para a santidade, na certeza de que Deus nos ama.
    As manifestações desse amor solícito de Deus, estão todas reunidas em Jesus Cristo, o verdadeiro dom de Deus à humanidade e concretizam-se no dom da Palavra de Deus, em que Ele nos revela a intimidade do seu desígnio, nos sacramentos, em que nos faz participar na força renovadora da Páscoa, e em todas as manifestações pessoais do amor de Deus por cada um de nós, concretizadas na intimidade da oração e no calor da caridade. Porque de amor se trata, ele precisa de ser aceite num coração acolhedor e colaborante; porque de amor de Deus se trata, ele é a garantia de que a santidade é possível, de que a sua força viabilizará todos os nossos anseios e propósitos. É por isso que o Santo Padre fala de um princípio essencial da visão cristã da vida: o primado da graça. "há uma tentação que sempre insídia qualquer caminho espiritual e também a acção pastoral: pensar que os resultados dependem da nossa capacidade de agir e programar. É certo que Deus nos pede uma real colaboração com a Sua graça, convidando-nos, por conseguinte, a investir, no serviço pela causa do Reino, todos os nossos recursos de inteligência e de acção; mas ai de nós se esquecermos que, "sem Cristo nada podemos fazer"" (cf. Jo. 15,5, in NMI, n. 3)
    A plenitude de graça em Maria afirma-se na sua resposta à proposta de Deus, que ela aceita porque acredita que Deus a realizará, Ele a Quem nada é impossível: "faça-se em mim segundo a Tua palavra".
    Esta plena aceitação da iniciativa de Deus em nós, que nos torna progressivamente capazes da filiação divina, introduz-nos, já neste mundo, num estado de intimidade de comunhão com Deus, Trindade Santíssima. A essa situação a tradição cristã chamou "estado de graça", situação habitual e duradoira da nossa comunhão com Deus, espelhando progressivamente na nossa vida a santidade do Deus que nos ama. Deus recria-nos, para sermos cada vez mais "criaturas novas", mais dignos de sermos amados por Ele. A graça, neste sentido, é a inauguração anticipada da glória celeste.
    Também neste sentido Maria é a cheia de graça, pois a sua intimidade adorante com a Santíssima Trindade, através da relação maternal com Jesus, seu Filho, é total e perfeita. Nunca Deus conseguiu amar tão perfeitamente uma criatura, como amou Maria, porque nunca ninguém, como ela, se deixou amar por Deus. O anjo revela a Maria que Deus está verdadeiramente encantado com ela.
    Para todos os filhos de Eva, a graça é também o triunfo da misericórdia. Deus amou-nos nos nossos pecados. Maria, Nova Eva, testemunha do triunfo de Jesus Cristo sobre o demónio e o pecado, é, verdadeiramente, a Mãe de todos os que reviveram em Cristo. A plenitude de graça significa nela, também, a vitória da co-redenção.

Sé Patriarcal, 8 de Dezembro de 2001

† JOSÉ, Cardeal Patriarca


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