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Homilia do Cardeal-Patriarca na Noite de Natal
24 de Dezembro de 2001
Homilia do Cardeal-Patriarca na Noite de Natal

HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA NA NOITE DE NATAL 2001

    1. Nesta noite Santa de Natal ecoa, pela primeira vez, o grande anúncio de Jesus Cristo, feito por um mensageiro divino aos pastores, que representam aqui todos os "pobre de Yahwé", os corações simples que esperavam a salvação de Deus: "Venho trazer-vos uma boa nova, que será grande alegria para todo o Povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um salvador, que é o Messias Senhor".
    Uma boa notícia, um "Evangelho", que encherá de alegria os corações. A boa notícia é Jesus Cristo, desde o seu nascimento, como manifestação suprema do amor de Deus pelos homens. Depois daquele anúncio do anjo aos pastores, este pregão do Evangelho nunca mais se calou: retomou-o o baptista, que anunciou a proximidade de Jesus, já presente no meio do Povo; foi o grande anúncio do próprio Jesus, proclamando que o "Reino de Deus" estava já no meio de nós; foi a urgência dos Apóstolos, depois da Páscoa, testemunhando a Ressurreição de Cristo; é missão inalienável da Igreja, ao longo dos tempos, até ao fim, anunciando Jesus Cristo como Salvador e caminho de plenitude para o homem. Nós não podemos não falar d'Ele, desabafava Pedro aos carcereiros; "ai de mim se não evangelizar", confessava Paulo. Enquanto houver um homem que não tenha escutado esta boa nova, a Igreja não pode, nem parar, nem descansar. É por isso que a evangelização é a sua missão perene, até ao fim. Essa é a missão da Igreja: anunciar Jesus Cristo, fazer conhecer Jesus Cristo, para que os homens, encontrando-se com Ele, o sigam como discípulos, descubram o mistério da vida e do amor, contemplando o seu rosto, sentindo o palpitar do seu coração, que nos revela Deus.
    Se acreditamos verdadeiramente que Jesus Cristo é decisivo para o homem, a urgência deste anúncio torna-se dramática. Ao observar o mundo contemporâneo, e lançando o olhar sobre a nossa própria cidade, quantos irmãos e irmãs nossos não escutaram nunca essa boa nova. Vivem num quadro cultural, marcado pelo cristianismo, ouviram falar de Jesus Cristo, sabem que Ele existiu e que fundou uma religião, mas nunca cruzaram verdadeiramente as suas vidas com Ele; mas como o hão-de encontrar, se não houver quem lho anuncie, o torne vivo e próximo num testemunho de vida e de amor?
    É certo que aprofundar o conhecimento e a relação com Jesus Cristo é desafio contínuo que se apresenta a todos os que já conhecem o Senhor e por Ele se deixam congregar na comunidade cristã, para celebrar e viver a Páscoa. Mas este anunciar de novo, talvez pela primeira vez, a pessoa de Cristo, filho de Deus, a todos aqueles que nunca acolheram Jesus Cristo como a boa notícia, é urgente e missão de todos os cristãos. Nos últimos meses temos andado preocupados em saber quantos são os que ainda se reúnem ao Domingo, e é bom que, por todos os meios ao nosso alcance, nos esforcemos por conhecer melhor a fisionomia cultural e espiritual dos católicos. Mas ainda mais importante do que isso é saber se aqueles que se reúnem ao Domingo para celebrar a Páscoa, têm o entusiasmo, a convicção e a ousadia para anunciar Jesus Cristo a quem ainda não o encontrou.
    Devemos desejar que sejam muitos os que já se encontraram com o Senhor, de modo a sentirem necessidade de se reunir com Ele, no dia da Ressurreição, para celebrar a Páscoa; mas devemos preocupar-nos com a capacidade dessas assembleias cristãs reunidas, regressarem ao mundo, quando se dispersam, como testemunhas dessa boa nova da salvação. Pequena era a primitiva comunidade de Jerusalém e no entanto eles levaram o anúncio do Evangelho até aos confins da terra.

    2. Este primeiro anúncio de Jesus Cristo não pode ser, nem um programa, nem uma estratégia: é uma urgência, uma paixão, a alegria de comunicar a vida. Só pode ser feito por testemunhas, isto é, por aqueles e por aquelas que já fizeram a experiência de encontrar o Senhor e sabem como isso transformou as suas vidas. Tem de ser feito por todos, não depende de estruturas, mas da verdade interior, supõe simplicidade e ousadia, para aproveitar todas as aberturas que a normal convivência com as pessoas proporciona; significa atenção aos momentos, aos acontecimentos significativos, às circunstâncias interpelantes. Exige desprendimento e gratuidade, não tentando contabilizar o resultado do nosso esforço de anunciar. O próprio Jesus nos explicou que este anúncio da boa nova é comparável a um semeador que faz do mundo o seu campo, que semeia, semeia, sabendo que alguma semente cairá entre os espinhos, ou mesmo no meio do caminho. Neste aspecto da primeira evangelização, o mais importante para a Igreja não é contar quantos se converteram com o nosso anúncio, mas sim anunciar sempre, na certeza de que em alguns corações abertos à vida o Senhor entrará. Quanto mais sincero for o nosso anúncio, mais se aplica hoje aquela frase de Jesus: "quem quiser ouvir que oiça". E em última análise, o verdadeiro fruto da palavra anunciada, só Deus o conhece, pois só Ele recolherá, no seu celeiro, os frutos da nossa seara.

    3. O anjo afirma que esta boa nova é motivo de alegria para todo o Povo. Referia-se, em primeiro lugar, ao Povo de Israel cuja religiosidade estava muito centrada na expectativa messiânica. Ao falar de todo o Povo, o anjo testemunha o optimismo de Deus, pois sabemos como os contemporâneos de Jesus o rejeitaram. O grupo dos discípulos cujos corações foram inundados pela alegria da Páscoa, foram um "pequeno rebanho", que cresceu ao ritmo da comunicação dessa alegria. Mas ao longo dos séculos, esta afirmação do anjo foi confirmada por milhões de pessoas, que no silêncio das suas vidas, descobriram a verdadeira alegria, porque encontraram Jesus Cristo. A Igreja sempre considerou a alegria como um dos principais frutos do Espírito e anunciar Jesus Cristo é, também, testemunhar a nossa alegria. Foi a primeira reacção de Maria, depois da anunciação: "a minha alma rejubila no Senhor".
    Mas em que consiste essa alegria? Ela é a exultação de experimentar a proximidade de Deus, tão vivo, que O sentimos como amor, experimentar que Deus nos ama. É uma alegria que é confiança, que é harmonia e paz, luz que tudo ilumina, vigor que tudo transforma. Foi assim que Isaías alimentou a esperança no Messias: "Naqueles dias, o povo que andava nas trevas, viu uma grande luz... multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento". E noutro texto apresenta o Messias como a manifestação do ardente amor de Deus pelo seu Povo: "tal como um jovem recebe uma virgem, o teu construtor desposar-te-á e como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus". Ao fazer-se Homem, Deus desposou a humanidade, propondo essa intimidade esponsal com um Deus próximo e ardente, disposto a saciar o coração humano de toda a sua fome de amor. O encontro com Jesus Cristo, gera em nós a alegria do amor reencontrado.

    4. Nesta noite de Natal saúdo todos os que, na nossa Igreja, transformam a sua fé em anúncio e a todos desejo que a alegria deste Natal seja aquela que brota do coração amoroso de Deus, experimentado em Jesus Cristo, que no-lo tornou próximo e acessível.

    Sé Patriarcal, 24 de Dezembro de 2001

    † JOSÉ, Cardeal-Patriarca


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