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Homilia do Cardeal-Patriarca no dia de Natal
25 de Dezembro de 2001
Homilia do Cardeal-Patriarca no dia de Natal

HOMILIA DO CARDEAL PATRIARCA
NO PONTIFICAL DO DIA DE NATAL

    1. Nesta solene celebração do Natal, os textos da Sagrada Escritura colocam-nos perante a urgência de anunciar Jesus Cristo aos homens do nosso tempo, para estes se poderem confrontar com Ele, acolhendo-O e isso significa aceitar a ruptura de uma mudança de vida, porque a salvação passa, necessariamente, pela conversão, ou rejeitando-O. Não é, hoje, frequente que os homens se confrontem com Jesus Cristo com essa radicalidade. A atitude mais comum é a de simples integração do cristianismo num quadro cultural, aliás mutável, onde o sincretismo não é excluído, em que a liberdade do homem como fazedor da história, iluminado pela razão, continua a ser o principal ponto de referência. Basta verificar a relativização progressiva da beleza e da dimensão estética da existência no caldear da cultura e da civilização.
    Ora toda a verdadeira evangelização, se der fruto, leva a um encontro vital com Jesus Cristo, que provoca rupturas e gera aberturas para uma outra compreensão do homem, da vida e da história. O verdadeiro evangelizador, ou confia que isso é possível, provocar a mudança exigida pela abertura à salvação, ou não passa de um agente cultural, de cariz religioso. O profeta Isaías, na primeira leitura, dá-nos o testemunho vigoroso dessa confiança: "O Senhor vai resgatar Jerusalém… descobre o seu Santo braço à vista de todas as nações e todos os confins da terra verão a salvação do Nosso Deus".
    O verdadeiro evangelizador acredita na revolução do Evangelho e no triunfo do Reino de Deus, porque é a força da sua fé que o faz pôr-se a caminho, com ousadia, para anunciar. É uma atitude cheia de grandeza e de dignidade, como proclama o mesmo profeta: "Como são graciosos, nas montanhas, os pés do mensageiro da paz. Anuncia boas novas, proclama a salvação e diz a Sião: o teu Deus é Rei".

    2. São João, no prólogo do seu Evangelho, ao meditar sobre a encarnação do Verbo eterno de Deus, tem consciência dessa tensão dramática provocada por Jesus Cristo, rosto humano de Deus. "O Verbo era a Luz verdadeira, que a todo o homem ilumina, ao vir a este mundo. Ele estava no mundo, e o mundo, feito por meio d'Ele, não O conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não O acolheram". A rejeição de Cristo significa a rejeição da luz. São João refere-se à atitude do Povo Judeu, que não reconheceu em Jesus o Messias. Mas como toda a Palavra de Deus, também esta tem uma actualidade dramática: Jesus continua a vir, a propor-se como salvador, e quase nunca é acolhido com a radicalidade da Palavra eterna de Deus.
    A quem se poderão aplicar hoje estas palavras duras do Apóstolo? Antes de mais a nós cristãos e à Igreja como um todo. Nós somos seus, somos o seu Povo, que Ele adquiriu, resgatando-nos, e que Ele ama, com a delicadeza de um amor esponsal. Isto ainda é, hoje, verdade: "Ele veio para o que era seu e os seus não O receberam". Não O receberam quando não aceitaram a ruptura que Ele propõe, encetando o caminho da santidade; quando a sua Palavra não ilumina a nossa vida, guiando-nos apenas por outras luzes, naturais, mesmo que sejam as da razão e da consciência; quando não fomos capazes de contemplar o Seu rosto e aguentar toda a exigência do Seu olhar.
    Mas se aquele "veio para o que era seu" significa toda a humanidade por Ele criada, a situação é ainda mais dramática. São João afirma que, como criador, todas as coisas são suas: "Ele estava, ao princípio, junto de Deus. Tudo se fez por meio d'Ele, e, sem Ele, nada se fez". Quando assistimos às agressões à dignidade da pessoa humana, à adulteração da própria harmonia da natureza, aos egoísmos ferozes que se tornam causas de opressão de multidões, vemos a que nível o Verbo eterno de Deus, que tudo criou, é rejeitado pela sua criatura. A rejeição da luz, no mundo contemporâneo, não é só, nem principalmente, religiosa: é cultural, ética, social. O nosso mundo precisa de salvação e é urgente anunciá-la.

    3. Mas a esperança do profeta Isaías não foi desmentida. Há aqueles que O acolhem e se abrem a uma renovação que os faz participar da vida divina: "Mas a quantos O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, a eles que acreditaram no Seu nome". Esses são os que seguem Jesus Cristo, que escutam a Sua Palavra e participam da sua Páscoa. O seu número exacto só Deus o conhece, embora o Senhor lhes tenha chamado "pequeno rebanho". São os que acreditam na força transformadora do Espírito e sabem que, na ordem da graça, não há impossíveis; se Deus tudo pode, com Deus não há impossíveis. É que eles sabem que essa vida nova não nasceu da vontade da carne e do homem; eles sabem que nasceram de Deus.
    Este "resto fiel" dá densidade histórica à esperança cristã. Eles são a semente que germina, o fermento que leveda, a luz que ilumina todos os que estão em casa, o sal que tempera e dá sentido. Esses são a semente de um mundo novo, a que poderemos, finalmente, chamar o "Reino de Deus". Eles já não são "mundanos", mas quer o Senhor que eles permaneçam no mundo, afirmação da dignidade radical da criação e da história. Glosando Isaías, podemos dizer como são belos esses homens e mulheres, filhos de Deus, que não fogem do realismo do mundo, mas são no meio dele, afirmação da luz de Cristo e da sua radicalidade de sentido. Eles sabem, e essa é a sua força e consolação, que o "Verbo se fez carne e habitou entre nós"!

    Sé Patriarcal, 25 de Dezembro de 2001

    † JOSÉ, Cardeal-Patriarca


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