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Mensagem do Sínodo dos Bispos ao Povo de Deus
26 de Dezembro de 2008
Mensagem do Sínodo dos Bispos ao Povo de Deus

Mensagem do Sínodo dos Bispos ao Povo de Deus

 

            Aos irmãos e irmãs “paz e amor, com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça esteja com todos os que amam Nosso Senhor Jesus Cristo, com amor incorruptível.”

            Com esta saudação tão intensa e apaixonada, concluía São Paulo a sua carta aos cristãos de Éfeso (6, 23-24). Com estas mesmas palavras, nós, os Padres Sinodais, reunidos em Roma para a XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sob a orientação do Santo Padre Bento XVI, começamos a nossa mensagem dirigida ao imenso horizonte de todos aqueles que, nas diversas regiões do mundo, seguem a Cristo como discípulos e continuam a amá-lo com amor incorruptível.

            A eles iremos propor de novo a voz e a luz da Palavra de Deus, repetindo o antigo apelo: “Esta Palavra está muito próxima de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a ponhas em prática” (Dt 30, 14). E Deus mesmo dirá a cada um: “Filho do homem, todas as palavras que eu te digo, acolhe-as no coração e escuta-as com os ouvidos” (Ez 3, 10). A todos iremos propor agora uma viagem espiritual que se desenvolverá em quatro etapas e que, a partir da eternidade e da infinitude de Deus, nos conduzirá até às nossas casas e pelas ruas das nossas cidades.

 

I. A VOZ DA PALAVRA: A REVELAÇÃO

            1. “Deus falou-vos do meio do fogo: ouvíeis uma voz de palavras, mas não víeis nenhuma figura; só uma voz” (Dt 4, 12). É Moisés quem assim fala, evocando a experiência vivida por Israel na dura solidão do deserto do Sinai. O Senhor tinha-se apresentado, não como uma imagem ou uma efígie ou uma estátua semelhante ao bezerro de oiro, mas com “uma voz de palavras”. É uma voz que havia entrado em cena precisamente no início da criação, quando rompeu o silêncio do nada: “No princípio… Deus disse: «Faça-se a luz». E a luz foi feita. No princípio era o Verbo… e Verbo era Deus… Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito do que existe” (Gn 1, 1.3; Jo 1, 1.3).

            A Criação não nasce de uma luta intradivina, como ensinava a antiga mitologia mesopotâmica, mas de uma palavra que vence o nada e cria o ser. Canta o Salmista: “Pela Palavra do Senhor foram criados os céus, pelo sopro da sua boca todo o seu exército… porque ele falou e tudo foi feito, ele mandou e tudo existe” (Sl 33, 6.9). E São Paulo repetirá: “Deus dá vida aos mortos e chama à existência as coisas que não existem” (Rm 4, 17). Temos, assim, uma primeira revelação “cósmica”, que faz com que a criação se assemelhe a uma imensa página aberta diante de toda a humanidade, que nela pode ler uma mensagem do Criador: “Os céus narram a glória de Deus; a obra das suas mãos, o firmamento a anuncia. O dia ao dia comunica a mensagem; e a noite à noite transmite a notícia. Sem linguagem, sem palavras, sem que se ouça a sua voz, toda a terra difunde o seu anúncio e até aos confins do mundo a sua mensagem” (Sl 19, 2-5).

 

            2. A Palavra divina também está na raiz da história humana. O homem e a mulher, que são “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 27) e que por isso levam em si a marca divina, podem entrar em diálogo com o seu Criador ou podem afastar-se dele e rejeitá-lo através do pecado. Então, a Palavra de Deus salva e julga, penetra na trama da história, com o seu tecido de vicissitudes e eventos: “Observei a aflição do meu Povo no Egipto e ouvi o seu grito… conheço os seus sofrimentos. Desci para o libertar do Egipto e o fazer sair desta terra para uma terra bela e espaçosa…” (Ex 3, 7-8). Há, pois, uma presença divina nas vicissitudes humanas que, mediante a acção do Senhor na história, são inseridas num desígnio mais alto, para que “todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 4).

 

            3. A Palavra divina, eficaz, criadora e salvífica, está portanto na origem do ser e da história, da criação e da redenção. O Senhor vem ao encontro da humanidade, proclamando: “Eu disse e fiz!” (Ez 37, 14). Há, porém, uma etapa ulterior que a voz divina percorre: é a da palavra escrita, a Graphé ou as Graphái, as Escrituras Sagradas, como se diz no Novo Testamento. Já Moisés tinha descido do cimo do Sinai, trazendo “na mão as duas tábuas do Testemunho, tábuas escritas dos dois lados, de uma parte e da outra. As tábuas eram obra de Deus, a escritura era escritura de Deus” (Ex 32, 15-16). E o mesmo Moisés irá impor a Israel que conserve e reescreva estas “tábuas do Testemunho”: “Escreverás sobre pedras as palavras desta Lei, com escritura bem clara” (Dt 27, 8).

            As Sagradas Escrituras são o “testemunho” em forma escrita da Palavra divina, são o memorial canónico, histórico e literário que atesta o evento da Revelação criadora e salvífica. A Palavra de Deus precede, portanto, e excede a Bíblia, que porém é “inspirada por Deus” e contém a Palavra divina eficaz (cf. 2 Tm 3,16). É por isso que no centro da nossa fé não está apenas um livro, mas uma história de salvação e, como veremos, uma pessoa, Jesus Cristo, Palavra de Deus feita carne, homem, história. Precisamente porque o horizonte da Palavra divina abraça e se estende para além da Escritura, é necessária a constante presença do Espírito Santo que “guia para a verdade total” (Jo 16,13) quem lê a Bíblia. É esta a grande Tradição, presença eficaz do “Espírito da Verdade” na Igreja, custódia das Sagradas Escrituras, autenticamente interpretadas pelo Magistério eclesial. Com a Tradição chega-se à compreensão, à interpretação, à comunicação e ao testemunho da Palavra de Deus. O próprio São Paulo, proclamando o primeiro Credo cristão, reconhecerá que “transmite” o que ele próprio “recebeu” da Tradição (1 Cor 15, 3-5).

 

II. O ROSTO DA PALAVRA: JESUS CRISTO

            4. No original grego são apenas três palavras fundamentais: Lógos, sarx eguéneto, “o Verbo/Palavra fez-se carne”. Contudo, este é o ápice não apenas dessa jóia poética e teológica que é o prólogo do Evangelho de João (1,14), mas é o próprio coração da fé cristã. A Palavra eterna e divina entra no espaço e no tempo e assume um rosto e uma identidade humana; tanto assim, que é possível aproximar-se directamente dela, pedindo, como fez aquele grupo de Gregos presente em Jerusalém: “Queremos ver Jesus” (Jo 12, 20-21). As palavras sem um rosto não são perfeitas, porque não permitem que o encontro seja completo, como recordava Job, chegado ao fim do seu dramático itinerário de busca: “Conhecia-te por ouvir dizer; agora vêem-te os meus olhos” (42, 5).

            Cristo é “o Verbo que está junto de Deus e é Deus”, é “a imagem do Deus invisível, gerado antes de toda a criatura” (Cl 1, 15); mas é também Jesus de Nazaré que caminha pelas estradas de uma província marginal do império romano, que fala uma língua local, que revela os traços de um povo, o hebraico, e da sua cultura. O Jesus Cristo real é, portanto, carne frágil e mortal, é história e humanidade, mas é também glória, divindade, mistério: Aquele que nos revelou o Deus que nunca ninguém viu (cf. Jo 1, 18). O Filho de Deus continua a sê-lo, mesmo naquele cadáver depositado no sepulcro, e a ressurreição é disso o testemunho vivo e eficaz.

 

            5. Pois bem, a tradição cristã frequentemente pôs em paralelo a Palavra divina que se faz carne com a mesma Palavra que se faz livro. É o que já emerge no Credo, quando se professa que o Filho de Deus "encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria"; mas também se confessa a fé no mesmo "Espírito Santo que falou pelos Profetas". O Concílio Vaticano II recolhe esta antiga tradição, segundo a qual "o corpo do Filho é a Escritura que nos foi transmitida" - como afirma Santo Ambrósio (In Lucam VI, 33) – e declara limpidamente: "As palavras de Deus, expressas em línguas humanas, tornaram-se semelhantes à linguagem dos homens, como já o Verbo do eterno Pai, tendo assumido as debilidades da natureza humana, se tornou semelhante aos homens" (DV 13).

            De facto, a Bíblia é também essa "carne", "letra", exprime-se em línguas particulares, em formas literárias e históricas, em concepções ligadas a uma cultura antiga; conserva a memória de eventos frequentemente trágicos; as suas páginas estão, não poucas vezes, manchadas de sangue e violência; no seu interior ressoa o riso da humanidade e escorrem as lágrimas, assim como se eleva a oração dos infelizes e a alegria dos enamorados. Devido a esta sua dimensão "carnal", ela exige uma análise histórica e literária, que se realiza através dos diversos métodos e abordagens oferecidas pela exegese bíblica. Todo o leitor das Sagradas Escrituras, mesmo o mais simples, deve ter um conhecimento proporcionado do texto sagrado, lembrando-se de que a Palavra está revestida de palavras concretas, às quais se ajusta e adapta, para ser audível e compreensível para a humanidade.

            Este é um empenho necessário: se o excluímos, podemos cair no fundamentalismo que, na prática, nega a encarnação da Palavra divina na história, não reconhece que essa palavra se exprime na Bíblia segundo uma linguagem humana, que deve ser decifrada, estudada e compreendida, e ignora que a inspiração divina não apagou a identidade histórica e a personalidade própria dos autores humanos. Mas a Bíblia também é Verbo eterno e divino, e é por isso que exige outra compreensão, dada pelo Espírito Santo, que desvela a dimensão transcendente da Palavra divina, presente nas palavras humanas.

 

            6. Daí a necessidade da “Tradição viva de toda a Igreja” (DV 12) e da fé, para compreender de modo unitário e pleno as Sagradas Escrituras. Se nos detemos só na “letra”, a Bíblia reduz-se a um solene documento do passado, a um nobre testemunho ético e cultural. Se, porém, se exclui a encarnação, pode cair-se no equívoco fundamentalista ou num vago espiritualismo ou psicologismo. O conhecimento exegético deve, pois, entrelaçar-se indissoluvelmente com a tradição espiritual e teológica, para que não se quebre a unidade divina e humana de Jesus Cristo e das Escrituras.

            Nesta harmonia reencontrada, o rosto de Cristo resplenderá na sua plenitude e ajudar-nos-á a descobrir uma outra unidade, aquela unidade profunda e íntima das Sagradas Escrituras, o serem 73 livros, mas inseridos num único “Cânon”, num único diálogo entre Deus e a humanidade, num único desígnio de salvação. “De facto, muitas vezes e de muitos modos, falou Deus nos tempos antigos aos nossos Pais por meio dos Profetas. Mas, nestes tempos que são os últimos, falou-nos por meio do Filho” (Hb 1, 1-2). Cristo projecta assim retrospectivamente a sua luz sobre toda a trama da história da salvação e revela a sua coerência, o seu significado, a sua direcção.

            Ele é o sinete, “o alfa e o omega” (Ap 1, 8) de um diálogo entre Deus e as suas criaturas, distribuído pelo tempo e atestado na Bíblia. É à luz deste selo final que adquirem o seu “sentido pleno” as palavras de Moisés e dos profetas, como tinha indicado o próprio Jesus naquela tarde primaveril, enquanto caminhava de Jerusalém para a aldeia de Emaús, dialogando com Cléofas e o seu amigo, “explicando-lhes em todas as Escrituras o que a Ele se referia” (Lc 24, 27).

            Precisamente porque no centro da Revelação está a Palavra divina transformada em rosto, o objectivo último do conhecimento da Bíblia “não está numa decisão ética ou numa grande ideia, mas no encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá à vida um novo horizonte e, com isto, o rumo decisivo” (Deus caritas est, 1).

 

III. A CASA DA PALAVRA: A IGREJA

            Como a sabedoria divina no Antigo Testamento tinha edificado a sua habitação na cidade dos homens e das mulheres, apoiando-a em sete colunas (cf. Pr 9, 1), assim também a Palavra de Deus tem uma sua casa no Novo Testamento: é a Igreja que tem o seu modelo na comunidade-mãe de Jerusalém, a Igreja fundada sobre Pedro e os Apóstolos e que hoje, através dos bispos em comunhão com o Sucessor de Pedro, continua a ser custódia, anunciadora e intérprete da Palavra (cf. LG 13). Lucas, nos Actos dos Apóstolos (2,42), traça-lhe a arquitectura baseada em quatro colunas ideais: “Eram perseverantes no ensino dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fracção do pão e nas orações”.

 

            7. Temos, antes de tudo, a didakhê apostólica, ou seja, a pregação da Palavra de Deus. De facto, o apóstolo Paulo adverte-nos de que “a fé nasce da escuta, e a escuta refere-se à palavra de Cristo (Rm 10, 17). Da Igreja sai a voz do arauto que a todos propõe o kérygma, ou seja, o anúncio primário e fundamental que o próprio Jesus tinha proclamado no início do seu ministério público: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: convertei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15). Os apóstolos anunciam a inauguração do Reino de Deus e, portanto, da decisiva intervenção divina na história humana, proclamando a morte e a ressurreição de Cristo: “Não há salvação em nenhum outro, pois não há, debaixo do céu, qualquer outro nome dado aos homens, no qual está estabelecido que sejamos salvos” (Act 4, 12). O cristão dá testemunho desta sua esperança “com doçura, respeito e recta consciência”, pronto, porém, para também ser envolvido e talvez arrastado pelo turbilhão da rejeição e da perseguição, consciente de que “é melhor sofrer praticando o bem do que fazendo o mal” (1 Pe 3, 16-17).

            Na Igreja ressoa, depois, a catequese: está destinada a aprofundar no cristão “”o mistério de Cristo à luz da Palavra, para que o homem todo seja por ela impregnado” (João Paulo II, Catechesi tradendae, 20). Mas o vértice da pregação está na homilia que, ainda hoje, para muitos cristãos é o momento capital do encontro com a Palavra de Deus. Neste acto, o ministro deveria transformar-se também em profeta. De facto, ele deve, com uma linguagem nítida, incisiva e substanciosa, não só, com autoridade, “anunciar as maravilhosas obras de Deus na história da salvação” (SC 35) - anteriormente oferecidas - através de uma clara e viva leitura do texto bíblico proposto pela liturgia. Ele deve também actualizar essas obras para os tempos e os momentos vividos pelos ouvintes e suscitar nos seus corações a questão da conversão e do compromisso de vida: “Que devemos fazer?” (Act 2, 37).

            Anúncio, catequese e homilia supõem, portanto, uma leitura e uma compreensão, uma explicação e uma interpretação, um envolvimento da mente e do coração. Na pregação realiza-se, deste modo, um duplo movimento. Com o primeiro, remonta-se às origens dos textos sagrados, dos acontecimentos, das palavras geradoras da história da salvação, para as compreender no seu significado e na sua mensagem. Com o segundo movimento, volta-se ao presente, ao hoje vivido por quem escuta e lê, sempre à luz de Cristo, que é o fio luminoso destinado a unir as Escrituras. Foi o que o próprio Jesus realizou – como já foi dito – no itinerário de Jerusalém a Emaús, na companhia de dois dos seus discípulos. É o que fará o diácono Filipe na estrada de Jerusalém a Gaza, ao começar, com o funcionário etíope, este diálogo emblemático: “Compreendes o que estás a ler? […] E como poderei eu compreender, se ninguém me orienta?” (Act 8, 30-31). E na meta será o encontro pleno com Cristo no sacramento. Assim se apresenta a segunda coluna que sustem a Igreja, a casa da Palavra divina

 

            8. É a fracção do pão. A cena de Emaús (cf. Lc 24, 13-35) é uma vez mais exemplar e reproduz o que acontece todos os dias nas nossas igrejas: à homilia de Jesus sobre Moisés e os profetas segue-se, à mesa, a fracção do pão eucarístico. Este é o momento do diálogo íntimo de Deus com o seu povo, é o acto da nova aliança selada com o sangue de Cristo (cf. Lc 22, 20), é a obra suprema do Verbo que se oferece como alimento no seu corpo imolado, é a fonte e o vértice da vida e da missão da Igreja. A narração evangélica da última ceia, memorial do sacrifício de Cristo, quando é proclamada na celebração eucarística, na invocação do Espírito Santo, converte-se em acontecimento e sacramento. É por isso que o Concílio Vaticano II, numa passagem de forte intensidade, declarava: “A Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de alimentar-se do pão da vida, da mesa, quer da Palavra de Deus quer do Corpo de Cristo, e de o distribuir aos fiéis” (DV 21). Por isso, dever-se-á voltar a pôr no centro da vida cristã “a liturgia da palavra e a liturgia eucarística, unidas tão intimamente entre si, que constituem um só acto de culto” (SC 56).

 

            9. O terceiro pilar do edifício espiritual da Igreja, a casa da Palavra, é constituído pelas orações, entrelaçadas – como recordava São Paulo – por “salmos, hinos, cânticos espirituais” (Cl 3, 16). Um lugar privilegiado é naturalmente ocupado pela Liturgia das Horas, a oração da Igreja por excelência, destinada a ritmar os dias e os tempos do ano cristão, oferecendo, sobretudo com o Saltério, o quotidiano alimento espiritual do crente. Juntamente com a Liturgia das Horas e as celebrações comunitárias da Palavra, a tradição introduziu a prática da Lectio divina, leitura orante no Espírito Santo, capaz de abrir ao crente o tesouro da Palavra de Deus, mas também de criar o encontro com Cristo, Palavra divina viva.

            A Lectio divina abre com a leitura (lectio) do texto, que provoca uma pergunta relativa ao conhecimento autêntico do seu conteúdo real: que diz o texto bíblico em si? Segue-se a meditação (meditatio), na qual a pergunta é: que nos diz o texto bíblico a nós? Desta forma chega-se à oração (oratio), que supõe esta outra pergunta: que dizemos nós ao Senhor em resposta à sua Palavra? E conclui-se com a contemplação (contemplatio), durante a qual assumimos como dom de Deus o seu próprio olhar para julgar a realidade e perguntamos: que conversão da mente, do coração e da vida nos pede o Senhor?

            Diante do leitor orante da Palavra de Deus ergue-se, como ideal, o perfil de Maria, a mãe do Senhor, que “guarda todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (Lc 2, 19; cf. 2, 51), isto é - como diz o texto original grego - encontrando o nó profundo que une os acontecimentos, os actos e as coisas, aparentemente desunidos, no grande desígnio de Deus. Ou também pode apresentar-se aos olhos do crente que lê a Bíblia, a atitude de Maria, irmã de Marta, sentada aos pés do Senhor na escuta da sua Palavra, impedindo que as agitações exteriores absorvam totalmente a alma, ocupando também o espaço livre para “a melhor parte” que não nos deve ser tirada (cf. Lc 10, 38-42).

 

            10. Eis-nos, finalmente, diante da última coluna que sustem a Igreja, a casa da Palavra: a koinonia, a comunhão fraterna, outro nome da agápê, isto é, do amor cristão. Como recordava Jesus, para nos tornarmos seus irmãos ou irmãs, precisamos de ser “aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8, 21). A escuta autêntica é obedecer e operar, é fazer florescer na vida a justiça e o amor, é oferecer na existência e na sociedade um testemunho na linha do apelo dos profetas, que constantemente unia Palavra de Deus e vida, fé e rectidão, culto e empenho social. Era isto que Jesus repetia várias vezes, a partir da célebre advertência no Sermão da Montanha: “Não é quem diz: «Senhor, Senhor!», que entrará no Reino dos Céus, mas quem faz a vontade do meu Pai que está nos céus” (Mt 7, 21). Nesta frase, parece ressoar a Palavra divina proposta por Isaías: “Este povo aproxima-se de mim só com palavras e invoca-me com os lábios, enquanto o seu coração está longe de mim” (29, 13). Estas advertências dizem respeito também às Igrejas, quando não são fiéis à escuta obediente da Palavra de Deus.

            Esta deve, pois, ser visível e legível já no próprio rosto e nas mãos do crente, como sugeria São Gregório Magno, que via em São Bento e noutros grandes homens de Deus testemunhas da comunhão com Deus e com os irmãos, com a Palavra de Deus feita vida. O homem justo e fiel não só “explica” as Escrituras, mas “estende-as” diante de todos como realidade viva e praticada. É por isso que viva lectio, vita bonorum: a vida dos bons é uma leitura/lição viva da Palavra divina. Já São João Crisóstomo tinha observado que os apóstolos desceram do monte da Galileia, onde tinham encontrado o Ressuscitado, sem qualquer tábua de pedra escrita, ao contrário do que havia sucedido com Moisés: a sua própria vida tornar-se-ia, desde aquele momento, o Evangelho vivo.

            Na casa da Palavra divina encontramos também os irmãos e as irmãs das outras Igrejas e comunidades eclesiais que, apesar das separações ainda existentes, se reencontram connosco na veneração e no amor à Palavra de Deus, princípio e fonte de uma primeira e real unidade, ainda que não plena. Este vínculo deve ser permanentemente reforçado através das traduções bíblicas comuns, a difusão do texto sagrado, a oração bíblica ecuménica, o diálogo exegético, o estudo e a comparação das diferentes interpretações das Sagradas Escrituras, o intercâmbio dos valores inerentes às diversas tradições espirituais, o anúncio e o testemunho comum da Palavra de Deus num mundo secularizado.

 

IV. OS CAMINHOS DA PALAVRA: A MISSÃO

            “De Sião sairá a Lei e de Jerusalém a Palavra do Senhor” (Is 2, 3). A Palavra de Deus personificada “sai” da sua casa, o templo, e encaminha-se pelas estradas do mundo para encontrar a grande peregrinação que os povos da terra empreenderam em busca da verdade, da justiça e da paz. Até na moderna cidade secularizada, nas suas praças e nas suas ruas – onde parecem dominar a incredulidade e a indiferença, onde o mal parece prevalecer sobre o bem, criando a impressão da vitória de Babilónia sobre Jerusalém – até aí há, de facto, um anelo escondido, uma esperança em gérmen, um frémito de expectativa. Como se lê no livro do profeta Amós, “dias virão em que enviarei fome sobre a terra, não uma fome de pão nem uma sede de água, mas de escutar a Palavra do Senhor” (8, 11). É a esta fome que quer responder a missão evangelizadora da Igreja.

            Também Cristo ressuscitado lança aos apóstolos, ainda hesitantes, o apelo a que saiam dos confins do seu horizonte protegido: “Ide e fazei discípulos todos os povos [...], ensinando-os a observar tudo o que eu vos mandei” (Mt 28, 19-20). Toda a Bíblia está permeada de apelos a “não calar”, a “gritar com força”, a “anunciar a Palavra oportuna e inoportunamente”, a ser sentinelas que rompem o silêncio da indiferença. Os caminhos que hoje se abrem diante de nós, não são apenas aqueles pelos quais caminhavam São Paulo ou os primeiros evangelizadores e, após eles, todos os missionários que avançam ao encontro das gentes em terras longínquas.

 

            11. A comunicação estende-se hoje por uma rede que envolve todo o globo. E adquire um novo significado o apelo de Cristo: “O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao ouvido, proclamai-o sobre os terraços” (Mt 10, 27). É certo que a Palavra sagrada deve ter uma primeira transparência e difusão através do texto impresso, com traduções que correspondam à variada multiplicidade das línguas do nosso planeta. Mas a voz da Palavra divina deve ressoar também através da rádio, das artérias informativas da Internet, dos canais de difusão virtual on line, dos CD, dos DVD, dos "ipods" (MP3), etc.; deve aparecer nos ecrãs da televisão e do cinema, na imprensa, nos eventos culturais e sociais.

            Esta nova forma de comunicação, em comparação com a tradicional, adoptou uma específica gramática expressiva, e, por isso, é necessário estar equipado, não apenas tecnicamente, mas também culturalmente, para esta imprensa. Num tempo dominado pela imagem, proposta particularmente por esse meio hegemónico de comunicação que é a televisão, é ainda hoje significativo e sugestivo o modelo privilegiado por Cristo. Ele recorria ao símbolo, à narrativa, ao exemplo, à experiência quotidiana, à parábola: “Falava-lhes de muitas coisas em parábolas… e, fora de parábolas, nada dizia às multidões” (Mt 13, 3.34). No anúncio do Reino de Deus, Jesus jamais passava por sobre as cabeças dos seus interlocutores com uma linguagem vaga, abstracta e etérea, mas conquistava-os, partindo justamente da terra onde assentavam os pés, para conduzi-los, do quotidiano, para a revelação do Reino dos Céus. Torna-se, assim, significativa a cena evocada por João: “Alguns queriam prender Jesus, mas ninguém lhe deitou as mãos. Os guardas voltaram então para junto dos príncipes dos sacerdotes e dos fariseus, e estes perguntaram-lhes: «Porque não o trouxestes?» Responderam os guardas: «Nunca homem algum falou assim»” (7, 44-46).

 

            12. Cristo avança pelas vias das nossas cidades e detém-se à soleira das nossas casas: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, irei ter com ele, cearei com ele e ele comigo” (Ap 3, 20). A família, por detrás dos muros domésticos com as suas alegrias e os seus dramas, é um espaço fundamental para nele entrar a Palavra de Deus. A Bíblia está toda ela constelada de pequenas e grandes histórias familiares, e o Salmista pinta com vivacidade o quadro sereno de um pai sentado à mesa, rodeado pela sua esposa, semelhante a uma videira fecunda, e pelos filhos, como “rebentos da oliveira” (Sl 128). Os cristãos das origens celebravam a liturgia no quotidiano de uma casa, assim como Israel confiava à família a celebração da Páscoa (cf. Ex 12, 21-27). A transmissão da Palavra de Deus é feita exactamente através das gerações, pelo que os pais se tornam os “primeiros arautos da fé” (LG 11). O Salmista lembrava ainda que “aquilo que ouvimos e aprendemos e os nossos pais nos contaram, não o esconderemos aos nossos filhos; tudo contaremos às gerações futuras: as glórias do Senhor e o seu poder, as maravilhas que Ele realizou; (…) e também eles se levantarão, para contá-las aos seus filhos” (Sl 78, 3-4.6).

            Cada casa deverá, então, ter a sua Bíblia, guardá-la de modo concreto e digno, lê-la e rezar com ela; a família deverá propor formas e modelos de educação orante, catequética e didáctica, relativos ao uso das Escrituras, para que “jovens e donzelas, anciãos juntamente com crianças” (Sl 148, 12) escutem, compreendam, louvem e vivam a Palavra de Deus. Em especial, as novas gerações, as crianças e os jovens, deverão ser destinatários de uma pedagogia apropriada e específica, que os leve a experimentar o fascínio da figura de Cristo, abrindo a porta da sua inteligência e do seu coração, nomeadamente através do encontro e do testemunho autêntico do adulto, da influência positiva dos amigos e da grande companhia da comunidade eclesial.

 

            13. Jesus, na parábola do semeador, recorda-nos que existem terrenos áridos, pedregosos e sufocados pelos espinhos (cf. Mt 13, 3-7). Quem se aventura pelos caminhos do mundo descobre também os baixios, onde se aninham sofrimentos e pobrezas, humilhações e opressões, marginalizações e misérias, doenças físicas e psíquicas e solidões. Com frequência, as pedras dos caminhos estão ensanguentadas por guerras e violências, nos palácios do poder a corrupção cruza-se com a injustiça. Eleva-se o grito dos perseguidos pela fidelidade à sua consciência e à sua fé. Há os que são apanhados pela crise existencial ou sentem a alma privada de um significado que dê sentido e valor ao própria viver. Semelhantes a “sombra que passa, a um sopro que esmorece” (Sl 39, 7), muitos sentem também abater-se sobre si o silêncio de Deus, a sua aparente ausência e indiferença: “Até quando, Senhor, continuarás a esquecer-me? Até quando esconderás de mim o teu rosto?” (Sl 13, 2). E, no fim, ergue-se diante de todos o mistério da morte.

            Este imenso respiro de dor que sobe da terra ao céu é ininterruptamente representado pela Bíblia, que propõe precisamente uma fé histórica e encarnada. Bastaria só pensar nas páginas assinaladas pela violência e pela opressão, no grito amargo e contínuo de Job, nas veementes súplicas dos salmos, na subtil crise interior que percorre a alma de Qohelet, nas vigorosas denúncias proféticas contra as injustiças sociais. Sem atenuantes, há depois a condenação do pecado radical que aparece com todo o seu poder devastador desde os exórdios da humanidade, num texto fundamental do livro do Génesis (c. 3). De facto, o “mistério da iniquidade” está presente e actua na história, mas é descoberto pela Palavra de Deus que, em Cristo, assegura a vitória do bem sobre o mal.

            Mas, nas Escrituras, a dominar está sobretudo a figura de Cristo, que abre o seu ministério público precisamente com um anúncio de esperança para os últimos da terra: “O Espírito do Senhor está sobre mim; por isso me consagrou com a unção e me enviou a levar a Boa Nova aos pobres, a proclamar a libertação aos cativos e a vista aos cegos, a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar o ano de graça do Senhor” (Lc 4, 18-19). As suas mãos poisam repetidamente sobre carnes doentes ou infectadas, as suas palavras proclamam a justiça, infundem coragem aos infelizes, concedem perdão aos pecadores. No fim, ele próprio se aproxima do nível mais baixo, “despojando-se a si mesmo” da sua glória, “assumindo a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens… humilhando-se a si mesmo, feito obediente até à morte, e morte de cruz” (Flp 2, 7-8).

            Assim, ele prova o medo de morrer (“Pai, se é possível, afasta de mim este cálice!”), experimenta a solidão com o abandono e a traição dos amigos, penetra na obscuridade da mais cruel dor física com a crucifixão e, até ao extremo, nas trevas do silêncio do Pai (“meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”), e atinge o abismo último de todo o homem, o da morte (“lançando um forte grito, expirou”). Pode, verdadeiramente, aplicar-se a ele a definição que Isaías reserva para o Servo do Senhor: “homem das dores que bem conhece o sofrimento” (53, 3).

            E no entanto, nem nesse momento extremo, ele deixa de ser o Filho de Deus: na sua solidariedade de amor e pelo sacrifício de si mesmo, deposita, no limite e no mal da humanidade, uma semente de divindade, ou seja, um princípio de libertação e de salvação; ao fazer-nos o dom de si próprio, ilumina de redenção a dor e a morte, que ele assumiu e viveu, e abre também para nós a aurora da ressurreição. O cristão tem, então, a missão de anunciar esta palavra divina de esperança, através da sua partilha com os pobres e os que sofrem, através do testemunho da sua fé no Reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz, através da proximidade amorosa que não julga nem condena, mas sustem, ilumina, conforta e perdoa, na esteira das palavras de Cristo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt 11, 28).

 

            14. Nos caminhos do mundo, a Palavra divina gera para nós, cristãos, um encontro intenso com o povo hebraico, ao qual estamos intimamente ligados através do comum reconhecimento e amor pelas Escrituras do Antigo Testamento, e porque de Israel “procede Cristo segundo a carne” (Rm 9, 5). Todas as páginas sagradas hebraicas iluminam o mistério de Deus e do homem, revelando tesouros de reflexão e de moral, delineando o longo itinerário da história da salvação até ao seu pleno cumprimento, ilustrando com vigor a encarnação da Palavra divina nas vicissitudes humanas. Permitem-nos compreender plenamente a figura de Cristo, que tinha declarado “não ter vindo para abolir a Lei e os Profetas, mas para dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5, 17); são a via do diálogo com o povo da eleição que recebeu de Deus “a adopção de filhos, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas” (Rm 9, 4); e deixam-nos enriquecer a nossa interpretação das Sagradas Escrituras com os recursos fecundos da tradição exegética judaica.

            “Bendito seja o egípcio meu povo, o assírio obra das minhas mãos, e Israel minha herança” (Is 19, 25). O Senhor estende, portanto, o manto protector da sua bênção sobre todos os povos da terra, desejoso de que “todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento pleno da verdade” (1 Tm 2, 4). Também nós cristãos, ao longo dos caminhos do mundo, somos convidados – sem cair no sincretismo que confunde e humilha a própria identidade espiritual – a dialogar respeitosamente com os homens e as mulheres de outras religiões, que escutam e praticam fielmente as indicações dos seus livros sagrados, começando pelo Islão que na sua tradição acolhe inumeráveis figuras, símbolos e temas bíblicos, e nos oferece o testemunho de uma fé sincera no Deus único, compassivo e misericordioso, Criador de todo o ser e Juiz da humanidade.

            O cristão encontra, além disso, sintonias comuns com as grandes tradições religiosas do Oriente que nos ensinam, nos seus textos sagrados, o respeito pela vida, a contemplação, o silêncio, a simplicidade, a renúncia, como acontece no Budismo. Ou então, como no Hinduísmo, exaltam o sentido do sagrado, o sacrifício, a peregrinação, o jejum, os símbolos sagrados. Ou que, como no Confucionismo, ensinam a sabedoria e os valores familiares e sociais. Também às religiões tradicionais, com os seus valores espirituais, expressos nos ritos e nas culturas orais, queremos prestar a nossa cordial atenção e entabular com elas um respeitoso diálogo. A quantos não crêem em Deus, mas se esforçam por “respeitar o direito, amar a bondade e caminhar com humildade” (Mi 6, 8), também com eles devemos trabalhar por um mundo mais justo e pacífico, e oferecer-lhes, em diálogo, o nosso genuíno testemunho da Palavra de Deus, que pode revelar-lhes horizontes novos e mais elevados de verdade e de amor.

 

            15. Na sua Carta aos Artistas (1999), João Paulo II recordava que “a S. Escritura se tornou numa espécie de «imenso vocabulário» (P. Claudel) e de «Atlas iconográfico» (M. Chagall), do qual auriram a cultura e a arte cristãs” (n. 5). Goethe estava convencido de que o Evangelho era a “língua materna da Europa”. A Bíblia, como agora se costuma dizer, é o “grande código” da cultura universal: os artistas mergulharam idealmente os seus pincéis nesse alfabeto colorido de histórias, símbolos, figuras, que são as páginas bíblicas; os músicos, tem sido em volta dos textos sagrados, sobretudo dos Salmos, que teceram as suas harmonias; os escritores retomaram, durante séculos, aquelas antigas narrações, que se tornavam parábolas existenciais; os poetas interrogaram-se sobre os mistérios do espírito, sobre o infinito, sobre o mal, sobre o amor, sobre a morte e sobre a vida, recolhendo com frequência os frémitos poéticos que animavam as páginas bíblicas; os pensadores, os homens da ciência e a própria sociedade tinham, não raramente, como referência, ainda que eventualmente por contraste, as concepções espirituais e éticas (pensemos no Decálogo) da Palavra de Deus. Mesmo quando a figura ou a ideia presente nas Escrituras era deformada, reconhecia-se que era imprescindível e constitutiva da nossa civilização.

            É por isso que a Bíblia – que nos ensina também a via pulchritudinis, isto é, o percurso da beleza para compreender e chegar até Deus (“cantai salmos a Deus com toda a arte!”, convida-nos o Sl 47, 8) – é necessária, não só ao crente, mas a todos, para descobrir os significados autênticos das várias expressões culturais e, sobretudo, para reencontrar a nossa própria identidade histórica, civil, humana e espiritual. Está nela a raiz da nossa grandeza e é através dela que podemos apresentar-nos com um nobre património às outras civilizações e culturas, sem nenhum complexo de inferioridade. A Bíblia deveria, pois, ser de todos conhecida e estudada sob este extraordinário perfil de beleza e de fecundidade humana e cultural.

            Todavia, a Palavra de Deus – para usar uma significativa imagem paulina – “não está acorrentada” (2 Tm 2, 9) a uma cultura; pelo contrário, aspira a ultrapassar as fronteiras, e justamente o Apóstolo foi um artífice excepcional da inculturação da mensagem bíblica dentro de novas coordenadas culturais. É isso que a Igreja é chamada a fazer também hoje, através de um processo delicado mas necessário, que recebeu um forte impulso do magistério do Papa Bento XVI. Deve fazer penetrar a Palavra de Deus na multiplicidade das culturas e exprimi-la segundo as suas linguagens, as suas concepções, os seus símbolos e as suas tradições religiosas. Mas deve sempre ser capaz de conservar a genuína substância dos seus conteúdos, vigiando e controlando os riscos de degeneração.

            A Igreja deve, pois, fazer brilhar os valores que a Palavra de Deus oferece a outras culturas, para que assim sejam purificadas e fecundadas por ela. Como disse João Paulo II ao episcopado do Quénia durante a sua viagem a África em 1980, “a inculturação será realmente um reflexo da encarnação do Verbo, quando uma cultura, transformada e regenerada pelo Evangelho, produz na sua própria tradição expressões originais de vida, de celebração, de pensamento cristão”.

 

CONCLUSÃO

            “A voz que eu tinha ouvido do céu disse-me: «Toma o livro aberto da mão do anjo…». E o anjo disse-me: «Toma-o e devora-o; encher-te-á as entranhas de amargura, mas na tua boca será doce como o mel». Tomei o livrinho das mãos do anjo e devorei-o; na boca senti-o doce como o mel; mas, quando o engoli, senti nas entranhas toda a amargura” (Ap 10, 8-11).

            Irmãos e irmãs de todo o mundo, acolhamos também nós este convite; aproximemo-nos da mesa da Palavra de Deus, de modo a nutri-nos e a vivermos “não só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor” (Dt 8, 3; Mt 4, 4). A Sagrada Escritura – como afirmava uma grande figura da cultura cristã – “tem passagens adequadas para consolar todas as condições humanas e passagens adequadas para intimidar em todas as condições” (B. Pascal, Pensieri, n. 532 ed. Brunschvicg).

            A Palavra de Deus é, de facto, “mais doce que o mel, mais que um favo destilante” (Sl 19, 11), é “lâmpada para os passos e luz sobre o caminho” (Sl 119, 105); mas é também “como o fogo e como um martelo que tritura a rocha” (Jr 23, 29). É como uma chuva que irriga a terra, a fecunda e a faz germinar, fazendo assim florir também a aridez dos nossos desertos espirituais (cf. Is 55, 10-11). Mas também é “viva, eficaz e mais cortante que toda a espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o espírito, as junturas e as medulas, e discerne os sentimentos e os pensamentos do coração” (Hb 4,12).

            O nosso olhar dirige-se com afecto a todos os estudiosos, aos catequistas e aos outros servidores da Palavra de Deus, para exprimir-lhes a nossa mais intensa e cordial gratidão pelo seu precioso e importante ministério. Dirigimo-nos também aos nossos irmãos e às nossas irmãs que são perseguidos ou que são sujeitos à morte por causa da Palavra de Deus e do testemunho que dão do Senhor Jesus (cf. Ap 6, 9).         Como testemunhas e mártires contam-nos “a força da Palavra” (Rm 1, 16), origem da sua fé, da sua esperança e do seu amor por Deus e pelos homens.

            Façamos agora silêncio para escutar com eficácia a Palavra do Senhor e mantenhamos o silêncio após a escuta, para que ela continue a habitar, a viver em nós e a falar-nos. Façamos com que ela ressoe no princípio do nosso dia, para que Deus tenha a primeira palavra, e deixemo-la retinir à noite, para que a última palavra seja de Deus.

            Caros irmãos e irmãs, “saúdam-vos todos aqueles que estão connosco. Saudai todos aqueles que nos amam na fé. A graça esteja com todos vós!” (Tt 3,15).

Roma, 24 de Outubro de 2008

 

(Tradução não oficial)


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