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Carta do Cardeal-Patriarca de Lisboa aos Párocos e Comunidades Cristãs do Patriarcado de Lisboa
11 de Janeiro de 2007
Carta do Cardeal-Patriarca de Lisboa aos Párocos e Comunidades Cristãs do Patriarcado de Lisboa
Carta aos Párocos e Comunidades Cristãs do Patriarcado de Lisboa


Rev.mo Senhor,
            O Referendo do dia 11 de Fevereiro próximo trouxe, mais uma vez, para o debate público, o drama do aborto voluntário, que implica sérias questões morais, e desafia a Igreja e a sociedade a encontrar respostas positivas, na linha do amor fraterno, na ajuda a todas as mulheres que vão ser mães, particularmente aquelas que, perante uma maternidade não desejada, passam por dificuldades acrescidas. Neste contexto, convém determinar com clareza a maneira como os sacerdotes e as comunidades cristãs podem participar activamente neste período de esclarecimento das consciências.
 
            1. A doutrina da Igreja sobre a vida, inviolável desde o seu primeiro momento, obriga em consciência todos os católicos. Estes, para serem fiéis à Igreja, não devem tomar posições públicas contrárias ao seu Magistério. O esclarecimento que os católicos são chamados a fazer sobre esta questão tem de ter em conta também os critérios de fidelidade à Igreja.
 
            2. Os sacerdotes, enquanto presidentes das assembleias litúrgicas, devem limitar-se, durante as mesmas, à apresentação da doutrina da Igreja sobre o respeito pela vida. A celebração litúrgica não pode ser lugar de campanha, rebatendo argumentos contrários, analisando vertentes políticas e sociológicas do problema. A celebração litúrgica é momento para escutar apenas a Palavra de Deus e a palavra da Igreja. Procurem enquadrar o problema do aborto no conjunto de toda a exigência do respeito pela vida, em todas as circunstâncias, desde a concepção à morte natural, campo vasto do exercício da caridade.
 
            3. Isto não impede que o Pároco e a comunidade cristã organizem, noutros momentos e espaços, debates de esclarecimento mais abrangentes, para os quais podem pedir a colaboração de pessoas preparadas para esclarecer acerca das variadas questões que este referendo levanta.
 
            4. Que a caridade fraterna repasse todas estas acções: o amor a todas as mães, mesmo aquelas que perante dramas pessoais fraquejaram. É momento de esclarecimento das consciências e não de exclusão de ninguém do nosso amor fraterno.
 
            5. Lembro, resumidamente, os principais pontos da doutrina da Igreja sobre a vida:
 
            5.1. Toda a vida é dom de Deus. Mesmo na procriação natural, actua o poder criador de Deus. Os pais colaboram com Deus nesse mistério da criação continuada.
 
            5.2. A vida humana é um todo inseparável, desde a fecundação até à morte natural. O respeito pela vida e o amor fraterno incidem em todos os momentos deste processo, ajudando-nos uns aos outros a crescer para atingir a maturidade, prenúncio da plenitude escatológica.
 
            5.3. O respeito pela vida dos outros, em todos os seus momentos, é dever imposto pela lei natural e universal, base da exigência ética e da cultura. O judeo-cristianismo assumiu como dever religioso esse imperativo da Lei natural, no mandamento do Decálogo “não matarás”. Isso significa, para os crentes, que respeitar a vida é também mandamento expresso pelo Senhor, que respeitá-lo é adorá-l’O, e que podemos contar com a Sua graça para sermos fiéis a mandamento tão exigente e tão permanente.
 
            5.4. A resposta cristã para os problemas e para os pecados no cumprimento deste mandamento está no perdão e na ajuda de Deus e no mandamento do amor fraterno. Dizer “Não” a uma lei facilitante do aborto, tem de significar dizer “Sim” às exigências do amor fraterno, pondo em prática aquilo a que João Paulo II chamou a “fantasia da caridade”, inventando formas de ajudar todas as mulheres para quem a maternidade se torna difícil, momento de desorientação e tentação.
 
            O Referendo acontece no dia de Nossa Senhora de Lourdes e Dia Mundial do Doente. Peçamos à Virgem Mãe que fortaleça todas as mulheres-mães, inspire, como só ela sabe fazer, as consciências e nos ensine a todos a dar uma prioridade total, na nossa vida, à caridade cristã.
            Saúdo toda a comunidade cristã a que preside, abençoando-os em nome do Deus amor.
 
            Lisboa, 11 de Janeiro de 2007

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

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