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Mensagem do Cardeal-Patriarca de Lisboa para a Quaresma
17 de Fevereiro de 2010
Mensagem do Cardeal-Patriarca de Lisboa para a Quaresma

Acolher o Papa é aceitar o desafio da Redenção


Irmãos e Irmãs,


    Aproxima-se a Quaresma. É um tempo litúrgico que nos propõe, no realismo do presente da nossa vida, a radicalidade da Redenção. Celebremos a Páscoa, não apenas como uma rotina adquirida, mas como um assumir, com verdade e generosidade, aquela “passagem”, aquela mudança na nossa vida, que nos permita sentir a alegria da vida nova que começa na ressurreição de Cristo, aquela luz que aponta novos caminhos e dá à nossa vida um sentido novo. Em cada Páscoa devemos sentir que a morte de Cristo não foi em vão, que ela continua a ser a fonte abundante donde jorra a água que fecunda e transforma, capaz de mudar o coração do homem e o tornar digno da vida eterna.
    Com esta Mensagem, pretendo, como Patriarca de Lisboa, dinamizar os cristãos da nossa Diocese, a aceitarem o realismo e a actualidade da redenção, a abrirem os seus corações à misteriosa fecundidade da Cruz de Cristo, que levou o amor por nós ao extremo de sacrificar a sua própria vida. Com esta Mensagem, não pretendo substituir ou relativizar aquela que o Santo Padre Bento XVI, para a Quaresma deste ano, dirigiu a toda a Igreja; pretendo, apenas, situar, na realidade actual da nossa Igreja diocesana, a palavra que o Papa dirige a toda a Igreja. Assim perceberemos melhor que a Páscoa é uma festa de toda a Igreja, e que a “passagem” que ela nos sugere é desafio para toda a comunidade humana.
Não posso esquecer que nos preparamos para receber a visita pastoral de Sua Santidade Bento XVI à nossa diocese, no próximo dia 11 de Maio. A Quaresma será, também, um tempo forte de preparação dessa visita. Para que ela seja, para os cristãos de Lisboa, um momento de graça, ela tem de significar um reencontro de cada um de nós com Nosso Senhor Jesus Cristo, com a Sua Páscoa libertadora.

    1. O Santo Padre centrou a sua Mensagem no fruto precioso da redenção, que é a justiça. Cristo é o Justo, diante de Deus e diante dos homens, e mereceu, na sua morte, poder tornar-nos justos, segundo a linguagem de São Paulo, ser justificados. Só em Cristo o homem se torna completamente justo, ele que pagou um preço pesado à injustiça, porque deixou o pecado endurecer o seu coração, isto é, manchar a sua inteligência e a sua liberdade. Esta visão sobre a verdadeira justiça significou uma revolução no pensamento acerca dos caminhos da justiça. Não basta mudar as leis, corrigir desequilíbrios sociais; é preciso mudar o coração do homem. Este não pode limitar-se a esperar que lhe seja feita justiça; tem de aceitar uma mudança interior para que os novos caminhos da justiça sejam os novos caminhos da liberdade. E, para os cristãos, o caminho desta mudança interior, está claramente indicado: participar na Páscoa de Cristo, acreditando n’Ele e na sua ressurreição. “A justiça de Deus manifestou-se mediante a fé em Jesus Cristo” (cf. Rom. 3,21-22), porque “o justo viverá da fé”, porque nele a justiça de Deus revela-se na fé (cf. Rom. 1,17). Essa conversão interior do homem a que São Paulo chama justiça, só pode ser fruto do amor. O amor é a força que realiza a justiça. O Santo Padre termina assim a sua Mensagem: No Tríduo Pascal “celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autêntica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça”.
    A justiça, obra do Espírito de Deus em nós, à qual nos abrimos pela fé, coincide com a santidade. Esta é a plenitude da justiça, porque nos torna semelhantes a Deus e participantes da sua vida de amor. Desejamos muito que a proposta da santidade seja o grande desafio que nos lança a visita do Santo Padre.

    Santidade e Missão
    2. Escolhemos para lema da visita do Papa a Lisboa “Santidade e Missão”. A santidade é exigência da nossa identificação com Cristo e dinamismo mobilizador para a missão. A santidade começa na fé profunda e sincera, exprime-se na caridade, torna-nos família de Deus. Só ela cria em nós o desejo e a força para a missão, para anunciar o Senhor, para viver de tal forma que sejamos a inauguração do Reino de Deus no meio do mundo. Só o ardor e a inquietação do amor nos mobiliza para a missão. Só a caridade cria em nós a urgência do Reino de Deus, ajudando a instaurar a justiça na cidade dos homens. Sem essa motivação da caridade a missão só é programa, porventura estratégia, mas não é aquele fogo devorador que o próprio Senhor sentiu. “Eu vim lançar o fogo à terra e só desejo que ela se incendeie” (Lc. 12,49).
    Foi esse ardor da caridade, que leva a perceber a vida como um dom, que fez partir missionários para longes terras para anunciarem essa descoberta inaudita da fé que nos salva; é esse fogo da caridade que ajudará os cristãos a serem, no meio do mundo tão repassado de injustiças e tão carente de amor, testemunhas da verdadeira justiça, expressão de um amor radicado na verdade; é essa força da fé que dá coragem aos esposos para serem fiéis, no seu amor, ao amor com que Cristo nos amou; é esse desejo de testemunhar a fé que leva hoje, tantos homens e mulheres, jovens e adultos, a não cederem ao espírito do mundo e a serem, na Igreja, obreiros da evangelização.

    3. A presença dos cristãos na sociedade, a agirem e a reagirem à realidade com as exigências da justiça é elemento decisivo para a transformação da sociedade na linha do Reino de Deus. Só “homens justos” podem ajudar a transformar a sociedade na linha da justiça. Há uma fecundidade da presença dos justos na sociedade. É que o ideal do “justo” é a santidade, sabe que a sua luta será estéril se não assentar na verdade, tem a humildade de reconhecer que não se torna justo só a partir de si, mas precisa da ajuda do “Outro”, “o Justo”, para vencer a injustiça no seu coração. Ele sabe que a grande causa das injustiças da sociedade estão no coração dos homens. E esse, só Cristo o pode redimir. A luta pela justiça é a aceitação humilde da Redenção.

    4. Para a celebração presidida pelo Santo Padre, no dia 11 de Maio, no Terreiro do Paço, convoco todos os cristãos da diocese que se deixaram tocar por este desejo de mudar o coração, para serem “justos” e obreiros da justiça. Os esposos, pais e mães das nossas crianças e dos nossos jovens, para que lhes comuniquem o verdadeiro horizonte da justiça, ensinando-lhes a liberdade; os catequistas, para que, com o seu testemunho sincero, ajudem os outros a descobrir a vida como obra de justiça e de amor; todos os que, na realidade quotidiana da nossa sociedade, no trabalho, na empresa, na política, sentem o contraste de uma ideia de justiça à medida do homem e das suas forças, com o ideal da justiça que é obra do Espírito, que se recebe para se comunicar, e começa pela transformação interior, fazendo-os perceber que só os “justos” constroem a justiça. E só são verdadeiramente justos os que foram justificados. Convoco, de um modo particular, os jovens da nossa diocese. Venham, para aprender com o Santo Padre, a luta pela justiça, que é luta pela verdade e, só possível com fé, confiança sem limites na força de Jesus Cristo.
    Espero que todos preparem na Quaresma o seu coração para a surpresa de Deus na Páscoa deste ano; só isso os tornará acolhedores à palavra do Papa. A celebração do Terreiro do Paço tem de ser a Páscoa continuada.

    5. A justiça é obra de amor. A vida é um dom: tudo o que somos e temos pode transformar-se em dom. A verdadeira partilha é obra de justiça. Convido todos os católicos da diocese a partilharem generosamente o que são e o que têm. A nossa Renúncia Quaresmal permitirá ao “Fundo Diocesano de Ajuda Inter-Eclesial” responder aos imensos pedidos de ajuda material vindos de Igrejas irmãs. Há já muitos pedidos a que ainda não pudemos responder. Para além do ofertório específico que já foi feito para os irmãos do Haiti, o Patriarcado continuará atento à necessária ajuda à Igreja local, no exigente período de reconstrução e da criação de condições para o exercício da sua missão.

    Caminhemos para a Páscoa, escutando a Palavra de Deus; fortaleçamos a nossa fé no encontro renovado com Cristo Pascal e isso tornar-nos-á mais preparados para sermos obreiros da justiça, na edificação do Reino de Deus.

    Lisboa, 17 de Fevereiro de 2010, Quarta-Feira de Cinzas


† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


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