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Saudação do Cardeal-Patriarca no Encontro Mundial de Comunidades Portuguesas
31 de Março de 2005
Saudação do Cardeal-Patriarca no Encontro Mundial de Comunidades Portuguesas

SAUDAÇÃO NA SESSÃO DE ENCERRAMENTO DO
ENCONTRO MUNDIAL DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS


Casa Diocesana do Vilar
Porto, 31 de Março de 2005
 

 

1. Saúdo Vossa Eminência que aqui torna presente a solicitude contínua do Santo Padre pela Pastoral dos Migrantes e por todos quantos as vicissitudes da vida deslocou. A Santa Sé é, em termos de Igreja, a única instância verdadeiramente universal e, por isso, a única que corporiza uma visão de conjunto e uma responsabilidade universal.
Saúdo a Comissão Episcopal e a Obra Portuguesa de Migrações, promotoras deste encontro. Órgãos da Conferência Episcopal, exprimem a solicitude dos Bispos Portugueses, nunca desmentida, pelos nossos irmãos emigrantes;
Saúdo os responsáveis da Nação por toda a política de migração e pela dinâmica das comunidades portuguesas sediadas em terra estrangeira;
Saúdo-vos a todos vós, caros participantes e, através de vós, envio uma saudação amiga a todos os portugueses e portuguesas que vós aqui representais.

2. O fenómeno migratório, inserido no fenómeno mais vasto da mobilidade das populações, é dos mais significativos e complexos do mundo contemporâneo. Expressão viva, por vezes dramática, da dimensão de “aldeia global”, que afirma a universalidade de uma mesma grande família humana, é portador de importantes desafios da história contemporânea: o diálogo inter-cultural e inter-religioso, a tensão entre integração social e originalidade cultural, a exigência de novas expressões no diálogo entre os países, os de origem e os de acolhimento, a urgência de legislação objectiva, mas criativa, que garanta os direitos inalienáveis de cada pessoa, no respeito pela sua dignidade, etc. Um dos palcos concretos, onde se podem aferir a justeza de políticas em prol da justiça, é oferecido ao mundo pelas comunidades migrantes. E temos de reconhecer que nesses palcos se representam, muitas vezes, dramas.
Mas não é nesse âmbito global de problemática que nos queremos situar agora. É a solicitude pastoral da Igreja pelos nossos irmãos migrantes que nos reúne aqui. E essa acção pastoral é uma concretização da solicitude pastoral da Igreja por todos os seus filhos. É uma pastoral específica, pois deve ter em conta as características próprias da população migrante: a responsabilidade partilhada entre as Dioceses de origem e as Igrejas de acolhimento; a conciliação das exigências da integração com a tradição cultural própria; as repercussões na vida da fé das consequências da “deslocação”.
Toda a acção pastoral deve encontrar a sua objectividade na dimensão teológica da Igreja, para a qual não há estrangeiros. E a estrutura central, em toda a compreensão desta solicitude pastoral é a Igreja particular em comunhão com todas as Igrejas, na comunhão universal. Em qualquer parte do mundo onde os cristãos estejam, eles pertencem a uma Igreja particular, a do lugar onde residem e é essa Igreja a primeira responsável por essa solicitude pastoral. A colaboração das Igrejas de origem, mais capazes de realizar a unidade entre fé e cultura, entre o momento presente e a história pessoal de cada um, só pode ser a expressão da colaboração dada à Igreja particular em que as pessoas se integram. É do Bispo local a jurisdição e a responsabilidade pastoral. Sabemos como é diversa a concretização desta responsabilidade das Igrejas de acolhimento e como, ao longo dos anos, se foram detectando tendências de extremos: as que mostraram a tendência de atribuir às Igrejas de origem a principal responsabilidade pelos cristãos migrantes e as que acentuaram de tal modo a integração na Igreja local, que minimizaram o contributo possível das Igrejas de origem.
Considerar a responsabilidade pastoral junto dos emigrantes como uma responsabilidade das Igrejas de origem, não respeita a compreensão teológica da Igreja e não facilita aquela que é, talvez, a dimensão mais exigente, que é a participação e a integração da Igreja de acolhimento. E isto continua válido mesmo quando as estruturas pastorais encontradas valorizam a cultura de origem, como são as paróquias linguísticas. Mesmo aí, a relação à eficácia sacramental da Igreja é com a Igreja local. As Igrejas de origem devem dar a sua colaboração, quando solicitada por quem de direito e na medida das possibilidades.

3. Reside aqui uma diferença fundamental na atitude pastoral da Igreja para com os imigrantes e os emigrantes. O nosso país está, há alguns anos, a viver essa situação nova, de, mesmo continuando a ser país de emigração, tornou-se país de destino e pátria de acolhimento para centenas de milhares de emigrantes. Não é um bom caminho estar a comparar a solicitude das Igrejas de Portugal para com uns e para com outros. Para aqueles que acolhemos, nós Pastores das Igrejas de acolhimento, temos a responsabilidade directa pelo seu acolhimento e integração eclesial. Para os que são católicos, nós somos, para todos os efeitos, o seu Bispo. Precisamos da colaboração das Igrejas de origem, sobretudo nos casos em que a dificuldade da língua, ou a diversidade de Rito marcam diferenças acentuadas. E essas Igrejas de origem têm respondido aos nossos pedidos, na medida das suas possibilidades. A pastoral dos migrantes acaba por exigir e proporcionar um diálogo inter-eclesial fecundo. Sou Bispo de uma Diocese que acolheu cerca de 200.000 imigrantes, a maioria dos quais de tradição católica. Considero-me o seu Bispo, com toda a responsabilidade que isso implica e estou muito grato aos meus irmãos das Igrejas de origem pela solicitude mostrada em colaborarem com o Bispo de Lisboa em pessoas e troca de perspectivas e preocupações pastorais.

4. É, igualmente, de referir as diferenças de perspectiva existentes entre a atitude pastoral da Igreja e as políticas dos diversos Estados no que aos migrantes diz respeito. Para a Igreja, em termos de acção pastoral, não há estrangeiros, nem clandestinos; são todos igualmente objecto da solicitude pastoral da Igreja. Compete aos Estados estabelecerem políticas de migração e na medida em que sejam justas, podem ser convergentes com a acção pastoral da Igreja. No caso concreto dos emigrantes portugueses, são de louvar os esforços do Estado Português em reforçar o sentido global da Nação portuguesa, composta por quantos falam a nossa língua e beberam a nossa cultura, sem esquecer a vertente da sua inserção nas comunidades de acolhimento, o que exige o reforço da estrutura consular e do diálogo bilateral entre os Estados.

5. Na carta que me foi dirigida, convidando-me para estar presente aqui, neste momento, o Secretário da Comissão Episcopal traçava como objectivo deste encontro: “responder à sensação crescente, confessada por muitos emigrantes às estruturas católicas, de estarem «esquecidos» pelo País e «desprezados» pela Igreja”. No que à Igreja diz respeito, a crítica parece-me injusta. As estruturas criadas e o número de sacerdotes disponibilizados, ao longo de meio século, para o trabalho pastoral com os emigrantes, são disso sinal eloquente.
É certo que a diminuição do número de sacerdotes tem dificultado a disponibilização de um tão grande número para o trabalho pastoral junto dos emigrantes. Mas há outras dimensões a ter em conta, como por exemplo, a evolução das orientações pastorais das Igrejas de acolhimento. É preciso aprofundar o diálogo entre as estruturas pastorais das Igrejas de origem e das Igrejas de acolhimento e suscitar vocações entre as comunidades portuguesas emigradas. Só na serenidade e objectividade com que se encaram as realidades presentes, necessidades e possibilidades, poderemos olhar o futuro com esperança.


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