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Comunicação do Cardeal-Patriarca aos Jornalistas
19 de Maio de 2005
Comunicação do Cardeal-Patriarca aos Jornalistas

MORTE DE JOÂO PAULO II – ELEIÇÃO DE BENTO XVI

ENCONTRO COM JORNALISTAS



O Cardeal Patriarca de Lisboa convidou para um Encontro meia centena de jornalistas que se evidenciaram na cobertura mediática da morte do Papa João Paulo II, o Conclave que se lhe seguiu, e a eleição do novo Papa Bento XVI, afim de agradecer-lhes o seu apreciado trabalho jornalístico, como ainda informá-los sobre eventos que terão lugar brevemente, no Patriarcado de Lisboa, como o Congresso Internacional da Nova Evangelização em Novembro de 2005.

 

 

COMUNICAÇÃO DO CARDEAL PATRIARCA

 

Queria, por um lado, agradecer-vos e mostrar-vos apreço pela forma como foi feita a cobertura mediática destes diversos acontecimentos que tanto marcaram a vida da Igreja nos últimos dois meses: a morte do Santo Padre João Paulo II, o Conclave, a eleição e início de pontificado de Bento XVI.

Sabemos teoricamente que aquilo que move os comunicadores e os grandes órgãos de comunicação, são os acontecimentos. Quando estes são fortes e carregados de significado, espontaneamente mobilizam a comunicação, embora também saibamos que os comunicadores têm a sua perspectiva interpretativa desses acontecimentos e, por vezes, até, uma visão cultural, filosófica, das realidades sociais que querem veicular. Mas há casos em que os acontecimentos são de tal maneira fortes que, de certo modo, envolvem o próprio comunicador e o conduzem na maneira de fazer essa interpretação. E estes foram acontecimentos dessa natureza.

Duma forma geral, a impressão que me ficou, foi a de que essa cobertura foi de grande qualidade, não só técnica e comunicacional, mas sobretudo de grande envolvimento humano dos próprios comunicadores que nela estiveram presentes. E isto constitui um enriquecimento para a própria comunicação. O comunicador que não se distancia do acontecimento, não fica diante dele simplesmente numa posição crítica, mas entra nele e deixa-se envolver. Foi o que senti que aconteceu à maior parte dos comunicadores. Aconteceu, até com uma grande emoção, de que às vezes fui testemunha, e que notei não só na comunicação portuguesa, mas também na grande comunicação internacional.

Como sabem, passei grande parte desse período em Roma e, portanto, acompanhei não apenas a comunicação italiana, mas também a internacional, e testemunhei esse envolvimento e essa emoção, o que foi importante para o destinatário da comunicação. Com esta atitude, os comunicadores sublinharam o acontecimento e levaram-no até ao coração das pessoas.

Não tenho dúvidas de que foi um momento forte da visibilidade da Igreja em termos mundiais e, no nosso caso concreto, em termos da sociedade portuguesa. A Igreja apareceu, subitamente – para alguns, inesperadamente –, como uma realidade da humanidade, o que é incontornável. Aliás, a humanidade é verdadeiramente a sua razão de ser. A Igreja é enviada à humanidade com uma mensagem, uma mensagem positiva, às vezes, exigente. Ela é sinal de esperança mas, por vezes, é sinal de contradição. As grandes causas da humanidade, como são a dignidade do homem, a justiça, a paz, a defesa dos mais pobres e dos mais fracos, o desafio ao entendimento e ao diálogo e, como João Paulo II gostava de dizer, levar cada homem e mulher do mundo contemporâneo a descobrir que somos todos uma grande família humana, estas são a razão de ser da Igreja, que as exerce, a partir da sua fé em Jesus Cristo e da sua mensagem radical, porque ela faz a ligação do tempo presente com o futuro, da história com a eternidade.

Quero manifestar-vos, da minha parte, a gratidão e apreço pelo trabalho realizado na cobertura dos acontecimentos. No que toca à minha pessoa, acho que exageraram um bocado. Propositadamente, não quis gastar muito tempo a ocupar-me do que se me referia… para não estragar esta opinião que vos estou a comunicar. Mas também por isso, pela amizade que isso significou, pelo apreço pela minha pessoa, também vai a minha gratidão para cada um de vós.

Vai seguir-se a apresentação duma síntese das linhas de força da acção dos media, as quais poderão provocar um diálogo, sobre a forma como, a partir dos nossos serviços, fizemos a análise.

Esta questão põe-nos um problema de fundo que pode, porventura, ser motivo do nosso diálogo, que será bastante livre, porque hoje não há uma agenda temática. Põe o problema da nossa relação convosco e da vossa relação com o fenómeno Igreja, no seu conjunto. Há muito que temos consciência de que se a Igreja não disser algo de chocante, dificilmente passa e tem lugar na grande comunicação. Mas a Igreja não é só isso, é acontecimento também. E, tem-se estabelecido já há vários anos, um diálogo muito construtivo. Foi-me dito que não é essencial, embora seja justificável e útil, que a Igreja tenha os seus próprios meios de comunicação. É importante, sim, que as pessoas que estão nos meios de comunicação sejam sensíveis à Igreja, como pessoas, porventura, como crentes, e esta fase que atravessámos mostrou bem que a grande comunicação, no seu todo, foi sensível e, de certo modo, colaborou connosco, foi protagonista connosco no passar de uma mensagem de esperança, de beleza e de interpelação para a humanidade.

Seguem-se agora alguns acontecimentos, não com o relevo dos mencionados. Aproxima-se um momento forte da Igreja de Lisboa. Terá momentos altos, até do ponto de vista mediático, o Congresso Internacional da Nova Evangelização, que se realizará em Novembro próximo. Portanto, de certo modo, esta experiência é um ponto de partida para uma esperança e, porventura, para um diálogo ainda mais estruturado e mais dialogado entre nós e a grande comunicação.

Haverá alguns acontecimentos mediáticos significativos, que se passarão sobretudo à volta do Mosteiro dos Jerónimos. Calculamos cerca de 2000 congressistas inscritos. Teremos representantes não apenas das cinco cidades envolvidas, mas tem-se alargado progressivamente o leque de Igrejas interessadas.

Todos temos consciência de que o eco, que este acontecimento tiver, dependerá muito da mediatização que se lhe fizer. Concebo este momento como um diálogo da Igreja com a Cidade. Temos uma Cidade simpática onde todos nós crentes, descrentes e malcrentes, nos entendemos todos, temos uma grande convivência espontânea. Penso que poderíamos ir um pouco mais longe em convergências culturais, num diálogo cultural profundo. Mas é um ambiente muito simpático, com pequenos exemplos de agressividade, mas que não chegam a marcar o ritmo de nada. E, nesse aspecto, temos um ambiente mais propício que outras capitais da Europa, onde as tensões são mais acentuadas e mais fortes entre uma perspectiva cultural cristã e uma perspectiva cultural laica ou outra.

O Congresso vai ter duas componentes, duas matrizes, relativamente às quais estamos a fazer um esforço muito grande de conciliação: há uma vertente, ‘carismática’, e que está na origem da iniciativa, e que é constituída por Movimentos que privilegiam na evangelização do mundo contemporâneo o ir para a rua e falar abertamente de Jesus Cristo, interpelando as pessoas… Tem o seu lugar. A outra matriz, é uma matriz muito mais cultural que passa por um diálogo de fundo entre a Igreja e a Cidade.

Era esta a mensagem que vos queria deixar.

Muito obrigado e este obrigado, como sabem, é carregado de amizade.

Mosteiro de S. Vicente de Fora, 19 de Maio de 2005


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