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Conferência do Cardeal-Patriarca sobre Felicidade e Cultura
21 de Setembro de 2005
Conferência do Cardeal-Patriarca sobre Felicidade e Cultura

“Felicidade e Cultura”

Conferência no Colóquio

 “Literatura e Qualidade de Vida”

Auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro

Lisboa, 21 de Setembro de 2005

 

        1. A felicidade é o mais profundo anseio do coração humano. A busca da felicidade inspira todo o exercício da liberdade, sugere os valores que lhe fundamentam a exigência ética e moral, tende a harmonizar, em síntese vital, a infinita variedade das expressões da vida humana, motiva todas as lutas e batalhas que todo o homem tem de travar, torna-se o fundamento da relação entre a vida no tempo e a eternidade, pois não se consegue a definitiva felicidade no tempo curto da nossa vida terrena.

            A felicidade é uma experiência de unidade e harmonia, conseguida na dispersão das diversas dimensões da vida humana; é uma harmonia pacificadora e portadora de sentido, é, em última análise, uma experiência estética e contemplativa. Neste mundo, quando tocamos a felicidade, o nosso coração abre-se à esperança da sua plenitude. Essa experiência é a pérola encontrada ou o tesouro escondido no campo, de que nos falam as parábolas evangélicas (cf. Mt. 13,44).

            São variadas e, por vezes, aparentemente antagónicas, as manifestações da vida que devem entrar nessa harmonia: o indivíduo e a comunidade, a busca da verdade, da beleza e do amor, os diversos instintos do ser humano, tais como a inteligência, a ânsia de beleza e a busca do amor, a eficácia criativa e a necessidade de sentido contemplativo. A alegria e a dor, a vida e a morte, harmonizam-se nessa experiência estética a que chamamos felicidade.

            2. A sua natureza e o caminho que é preciso percorrer para alcançar a felicidade, situam-na, inevitavelmente, no âmago da cultura. O Concílio Vaticano II afirmou que é próprio da pessoa humana só atingir a “plenitude humana” através da cultura[1]. Estamos perante uma noção abrangente de cultura, composta por todas as expressões em que o homem afina e desenvolve as múltiplas capacidades do espírito e do corpo, na sua relação com a natureza, com os outros homens, com Deus. A cultura é o quadro que resulta da aventura do homem, no tempo e no espaço, em que ele tentou contemplar e compreender, transformar e aperfeiçoar, prosseguindo o ideal da harmonia e da perfeição. Uma relação sadia com a natureza e com a comunidade em que se está inserido, são elementos decisivos da cultura. No que à natureza diz respeito, a cultura é o cultivo dos bens e valores que lhe são próprios. O Concílio afirma: “em tudo o que diz respeito à vida humana, natureza e cultura devem estar tão unidas, quanto possível”[2]. Agir sobre a natureza, imprimindo a essa acção transformadora o ideal de perfeição humana, é tarefa de humanidade e não apenas de indivíduos. O verdadeiro sujeito da cultura é a comunidade humana, as diversas comunidades humanas, o que liga a cultura a uma “tradição” construída. Volto a citar o Concílio: “assim, a partir de usos herdados, forma-se um património próprio a cada comunidade humana. E assim se constitui um «meio» determinado e histórico, em que cada homem está inserido, sejam quais forem a sua nação ou século e no qual encontra os valores que lhe permitem promover a civilização”[3].

            A cultura é, assim, o quadro em que cada homem pode construir a sua harmonia, que o aproximará, progressivamente, da felicidade. Todos os atropelos à harmonia da cultura dificultam a conquista pessoal da felicidade, embora esta seja sempre possível como expressão da liberdade.

A dimensão individual e comunitária da cultura

            3. Os indivíduos podem interferir, positiva ou negativamente, no processo cultural, mas não decidem, de forma decisiva, na cultura, nem sequer na sua própria cultura. O verdadeiro sujeito da cultura é a comunidade. Só assim se compreende a cultura enquanto “tradição” e civilização. Falamos da cultura dos Povos e das Nações e não dos indivíduos. Só assim a cultura se torna quadro inspirador da liberdade, é garantia de harmonia e continuidade, fundamenta o sentido ético da existência. Não sendo radicalmente impossível, é muito difícil aceder à harmonia que gera a felicidade, fora de um quadro cultural.

            No Ocidente, a partir das filosofias do indivíduo, da sua liberdade, dos seus direitos, da sua dignidade, tende a dar-se prioridade à dimensão individual da cultura. Cada um tem o direito de construir a sua própria verdade, decidir da ordem ética da sua liberdade, imaginar a sua própria felicidade. Esta visão estritamente subjectiva da vida, tende a criar um quadro cultural em que não há lugar para a objectividade da verdade, da beleza, do amor, em última análise, em que não há lugar para um quadro de valores, que só subsistem, se tiverem dimensão comunitária. A perspectiva cultural a que alguém chamou de “nova idade”, é a negação de qualquer objectividade, mesmo na verdade individual. O que hoje é verdade, categoria cultural, amanhã pode não o ser. Isto leva à completa “des-estruturação” da harmonia do ser humano. Só há lugar para perspectivas individuais, tão precárias como o devir, que não constituem civilização.

            A recente polémica acerca da identidade da cultura europeia trouxe sinais preocupantes, numa escala alargada, da abdicação de um quadro civilizacional que possa inspirar a harmonia de um futuro colectivo. Alguns falam de conflito de civilizações; temo que seja, sobretudo, o choque de culturas acentuado com o vácuo da “anti-cultura”. Espero que não se trate de uma batalha definitivamente perdida. Há já sintomas de uma revalorização do sentido de Povo, de Nação, de Tradição, até podermos exclamar espontaneamente como o comandante da caravela diante do “mostrengo”, no poema de Fernando Pessoa: “Aqui ao leme sou mais do que eu; sou um Povo que quer o mar que é teu”[4].

            4. Chegou o momento de fazer uma primeira referência à dimensão cultural do cristianismo. Mais à frente consideraremos a importância do fenómeno religioso, em geral, no processo cultural.

            A fé cristã tende, naturalmente, a transformar-se em cultura. A visão transcendente da objectividade da verdade, do amor a Deus e ao próximo como síntese da ordem moral, a síntese entre a dimensão histórica e meta-histórica da felicidade, constituem um quadro de valores inspiradores da perfeição humana, que se concretizam no sentido da dignidade do homem, imagem do próprio Deus, a renovação contínua do coração, a construção de uma civilização do amor. Porque a fé se torna cultura, os cristãos assumem-se como um “Povo”, gérmen anunciador de uma futura unidade de toda a família humana. Uma visão estritamente individualista da verdade dificilmente encontra lugar no cristianismo. Na Liturgia rezamos todos os dias a Deus: “Não olheis para os nossos pecados, mas para a fé da Vossa Igreja”. Há, assim, um confronto inevitável entre algumas atitudes culturais da época presente e a cultura de inspiração cristã. E isso não é algo que se resolva pela via da mera adaptação da Igreja aos tempos novos. Hoje os aspectos mais árduos das relações da Igreja com o mundo travam-se no campo da cultura. Este pano de fundo inspirará todas as considerações que farei a seguir.

            5. A busca da felicidade exige do homem que equacione dimensões fundamentais, as mesmas que são decisivas na elaboração de uma cultura de rosto humano: a busca da verdade, através do pensamento e da contemplação da beleza, caminhos de uma compreensão da existência, que encontra no amor a sua harmonia definitiva. Não é por acaso que essas são, também, as dimensões estruturantes de uma visão do homem e da história.

            O amor concebido como fruto da harmonia entre o pensamento e a beleza, entre a razão e o coração, supõe a descoberta da complementaridade entre a exactidão do pensamento lógico e a expressão simbólica da realidade. O símbolo não é a negação da objectividade da realidade, é antes o seu anúncio e expressão de forma mais envolvente e consentânea com a complexidade do coração humano. Tentar transformar a realidade em símbolo, esvaziando-a da objectividade do seu significado, como parece ser tendência de algumas correntes culturais contemporâneas, não é caminho para a profundidade da cultura. O cristianismo sempre tentou conciliar, em síntese harmónica, a busca racional da verdade com a sua expressão simbólica, a única que mobiliza o coração para a busca da felicidade. Nenhuma outra religião aceitou tão frontalmente, ao longo dos séculos, o confronto com a racionalidade, sem nunca abdicar da expressão simbólica, através da qual deu realismo histórico aos mais insondáveis mistérios.

            Depois da época constitutiva da Escritura, que privilegia a linguagem simbólica, o cristianismo aceitou o confronto com a racionalidade clássica, também ela portadora de uma síntese conseguida entre o pensamento filosófico e a linguagem simbólica de poetas, escultores e dramaturgos. Se em Aristóteles encontramos o antecessor de toda a racionalidade lógica, nos poetas, chamados os “teólogos”, porque só eles tocavam o divino, e nos dramaturgos, encontramos a abordagem do mistério do homem pelo lado da estética e da linguagem simbólica.

            A época áurea da racionalidade cristã, aceitando o desafio da lógica aristotélica, tenta, a partir dela, pensar o homem cristão, completando esse pensamento com uma forte expressão estética, afirmando claramente que entre a verdade e a beleza não podem existir fronteiras dicotómicas. Lançam-se, assim, os fundamentos de uma racionalidade envolvente, mais consentânea com o mistério do homem e a sua busca da verdade. A Filosofia e a Teologia tornam-se aliadas inseparáveis, na consciência da sua complementaridade com a arte, a liturgia, a expressão contemplativa e mística.

A busca científica da verdade

            6. A lógica aristotélica teve, na revolução cartesiana, uma reviravolta decisiva. A inteligência racional apetrechou-se com métodos de análise da realidade, que originaram o moderno processo científico que esteve na origem, é preciso reconhecê-lo, da mais profunda transformação cultural da humanidade, porque possibilitou as transformações tecnológicas que transformaram a história. O processo científico também busca a compreensão do homem e do universo, e nesse sentido ele é um caminho de busca da verdade. Mas essa compreensão não é um fim em si mesma, visa a transformação da própria realidade, proseguindo objectivos úteis e pragmáticos. O grande objectivo da ciência post-cartesiana não foi compreender o homem e o mundo, mas sim transformar o mundo para o homem e hoje já não exclui a transformação do próprio homem.

            A cultura inebriou-se com os resultados da ciência, pensou poder desvendar todos os mistérios antigos, guardados no coração dos homens e valorizados pelas religiões, assumindo-se como único caminho, com monopólio da verdade. Aqui e acolá ousou mesmo declarar a “morte de Deus”, assumindo-se como fundamento do ateísmo. “Nova religião” praticada por um grupo restrito de “crentes”, não satisfez os anseios de verdade do comum dos mortais. Não quero, com estas palavras, minimizar a importância da ciência, mas afirmar que também ela precisa de se enquadrar no horizonte mais vasto da cultura. É que a ciência sem a cultura não é, necessariamente, um elemento decisivo na busca da felicidade. Não deixa de ser impressionante verificar como a mentalidade científica, assumida mesmo por aqueles que não são capazes de praticar nenhuma ciência, transformou os anseios de verdade e de felicidade.

            Começam a existir sintomas de uma visão da ciência mais humilde e aberta a outras abordagens da verdade. Mas subsistem ainda atitudes de quem pretende fundamentar nos resultados científicos a felicidade do homem, decidir da orientação ética da sua liberdade, traçar o quadro definitivo da sua existência transformada. São evidentes os enormes benefícios que a ciência trouxe ao homem. No entanto o seu contributo foi ineficaz para acabar com a guerra e com a pobreza e construir a felicidade. O que leva alguns a exclamar que, nesta civilização, só a beleza nos salvará.

A beleza e a cultura

            7. A racionalidade lógica não é a única fonte do conhecimento, nem a única expressão da interioridade do homem. A beleza, fazendo parte da realidade, enquanto esta é contemplada na sua harmonia, é também uma sua importante expressão. Se o conhecimento científico convence, a beleza atrai; a verdade racional disseca a realidade; a beleza revela-a na gratuidade da sua harmonia. E é indiscutível que a cultura, concebida como tradição recebida, tem uma forte componente estética, através das várias expressões artísticas. Já não é tanto assim se considerarmos a cultura como processo em contínua mutação.

            Põe-se em relação à beleza o mesmo problema que se põe em relação à verdade: o da sua objectividade. Parece ir-se perdendo a noção do belo objectivo, tanto o que está impresso na natureza, como o que é expressão criativa. O homem é capaz de produzir beleza, como é capaz de comunicar a que lhe é pré-existente. Embora reconhecendo a importância da subjectividade estética na contemplação da beleza, não me conformo com a negação da beleza objectiva, dom de Deus ao homem, que este é convidado a contemplar e a exprimir.

            O prestígio do método científico levou muitas expressões da verdade, para se credenciarem, a reivindicá-lo para si mesmas, como se só aí encontrassem a sua credibilidade cultural. A própria Teologia não fugiu à tentação. Se ganharam exactidão metodológica, perderam em liberdade simbólica para dizer o indizível e exprimir o inexprimível. E nem sequer conseguiram a credenciação que procuravam, pois os cultores das chamadas ciências exactas sempre as olharam com uma certa desconfiança. Para nosso alívio, não me consta que os poetas tenham cedido a essa tentação.

            O caminho cultural tem de ser outro: o do encontro da exactidão do método científico, com a liberdade do artista, para que toda a expressão da verdade não procure apenas convencer, mas também encantar. Para que a cultura se transforme no quadro fecundo da liberdade e da felicidade, tem de encontrar na beleza o invólucro de todas as abordagens da realidade. As políticas de cultura têm de ter isto em conta, na conservação e fruição do património que nos foi legado, na criatividade artística presente enquanto expressão maior da alma humana. Disse atrás que a felicidade é, no fundo, uma experiência estética, porque ser feliz é, sempre, deixar-se atrair pela beleza. Para nós os crentes, a suma felicidade é deixar-se atrair pela beleza de Deus, que já brilha para nós no rosto do Seu Filho Jesus Cristo e no coração de cada homem, também ele filho de Deus.

            Sinto que começamos a trilhar o bom caminho. Os “artistas” já não são aquela reserva, aberta à visita de curiosos. Mas ainda estamos longe de considerar os poetas tão importantes como os cientistas. E se olharmos para o dinheiro que se investe para promover a arte, a discrepância é ainda maior. Tem-nos valido que o artista é espontaneamente generoso, e a sua luta é, tantas vezes, um voluntariado corajoso.

            A produção artística constitui elemento decisivo da humanização da cultura e no criar o ambiente propício à felicidade das pessoas. Esta importância da arte, seja qual for a sua expressão, constitui para o artista um desafio e responsabilidade acrescida: vencer a perspectiva estritamente individualista, para exprimir, na arte, a alma de um Povo. Os artistas são porta-vozes da “tradição”, luzeiros para o presente e profetas do futuro. Depende muito deles a criação de um ambiente onde desabroche espontaneamente um ideal colectivo, das pessoas e das comunidades. Há anseios que só o artista capta; há dimensões da realidade de que só o artista se apercebe e que só ele transmite.

A aprendizagem do amor

            8. Em geral as culturas ligam a felicidade ao amor. A busca do amor está unida à busca da verdade e da beleza e torna-se, assim, elemento estruturante da cultura. O cristianismo introduziu a perspectiva da unidade entre a verdade e o amor, porque a verdade precisa de ser amada, e só o amor guarda e revela os segredos mais profundos da verdade.

            A maneira como se trata o amor torna-se, assim, elemento importante na definição de uma cultura, não apenas porque no amor a pessoa humana se encontra com o indizível de si mesma, mas também porque o amor é o mais sólido fundamento da ordem moral, e esta é constitutiva da cultura. As culturas elevam-se ou degradam-se na maneira como concebem o amor. E as culturas, e aqui incluo as próprias religiões, progridem e aperfeiçoam-se na medida da profundidade do amor. Jesus Cristo desafia os seus seguidores para um estádio de amor até aí desconhecido. Ouviste o que foi dito aos antigos! Eu porém digo-vos… amai os vossos inimigos, amai-vos uns aos outros como Eu vos amei.

            Do egoísmo ao amor-caridade, há um longo caminho a percorrer, que exige continuamente a transformação do coração, onde se situam diversas expressões da bondade generosa para com o próximo: a convivência, a amizade, a solidariedade, a capacidade de perdoar, a comunhão íntima entre as pessoas que se amam, a comunhão com Deus, no amor.

            Na revelação bíblica judaico-cristã a perfeição do amor é concebida como “in-habitação”, isto é, a pessoa que ama habita a pessoa amada e exprime nessa relação inter-pessoal o mais profundo do seu mistério. A realização mais forte desta “in-habitação” de amor entre as criaturas, situa-a a Sagrada Escritura na comunhão esponsal entre o homem e a mulher. Na narração da criação, o autor sagrado diz que Deus criou o homem à Sua Imagem, também porque os criou homem e mulher (cf. Gen. 1,26-28). E segundo a mesma narração, a mulher é a matriz da vida, aquela que acolhe, o lugar de encontro que gera comunhão. No mais intimo de si mesma, toda a mulher que se entrega ao seu esposo num acto de amor e o acolhe no seu corpo e no seu espírito, deseja que ele fique para sempre, e esse desejo torna-se exigência da perenidade do amor.

            Esta visão do amor como “in-habitação” das pessoas que se amam, aplica-a a Escritura à revelação do mistério de Deus e das relações de amor de Deus com o Seu Povo e com cada um dos crentes. Deus é uma comunhão inter-pessoal, onde cada uma das pessoas habita e se exprime totalmente no outro, mantendo a alteridade numa unidade que só o amor realiza. Por isso o Evangelista São João diz que “Deus é amor” (cf. 1Jo.4,8).

            Este dinamismo de “in-habitação” aplica-se, também, ao amor de Deus pelo Seu Povo e por cada um dos crentes. A força de Israel é a certeza de que Deus habita no meio deles, através da nuvem de fogo, a que chamam a “Glória de Yahwé”. E com que tristeza o Profeta vê a “Glória de Yahwé” afastar-se do templo de Jerusalém, na altura em que este é profanado pelas tropas invasoras do Rei de Babilónia. Jesus Cristo, encarnação da Pessoa Divina, é a realização mais completa e perene desta habitação de Deus no meio do Seu Povo. Ele vive na Igreja e quer que a Igreja viva n’Ele; considera-a o Seu Corpo e ama-a como uma esposa.

            Esta “in-habitação” aplica-a Cristo aos Seus discípulos: “Como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que também eles sejam um em Nós… Eu neles e Tu em Mim, para que eles sejam perfeitamente um, para que o mundo saiba que Tu Me enviaste, e que Eu os amei como Tu Me amaste” (Jo. 17,21-23). E noutra altura promete àqueles que se uniram a Ele: “Nós (as Pessoas Divinas) viremos a ele e faremos nele a Nossa morada” (Jo. 14,23). A Eucaristia é o momento em que esta “in-habitação” de amor se realiza. “Este é o Meu Corpo… tomai e comei”. João Paulo II afirmou na Encíclica “Igreja da Eucaristia”, que nela não nos limitamos a encontrar-nos com Cristo; somos em Cristo e Cristo é em nós.

            Esta “in-habitação” de Deus no crente e do crente em Deus, é a base da vida mística, também ela uma experiência estética de grande profundidade. Só a partir deste conceito de amor se pode definir a gravidade da solidão. Esta não é, sobretudo, o estar sozinho, mas o não estar “habitado” pela pessoa amada.

            É a este grau de amor que a linguagem cristã designa por “caridade”, “agapê”. Entre criaturas esta profundidade de amor só acontece se se cruza com a “in-habitação” de Deus. A caridade como forma máxima de amor entre pessoas é sempre fruto fecundo da presença do espírito de Deus que habita em nós.

            9. Temos de reconhecer que o que se pensa do amor na nossa cultura contemporânea anda, tantas vezes, longe desta profundidade, o que faz parecer a linguagem da Igreja sobre o amor um discurso incompreensível, porventura diálogo de surdos. Mas há pessoas que vivem silenciosamente esta beleza do amor, talvez sem o saberem exprimir, mas que são, no seio da cidade dos homens, sementes fecundas, nesta aprendizagem do amor. Nelas está, verdadeiramente, a germinar a felicidade. É a misteriosa fecundidade dos “justos” na cidade.

A religião e a cultura

            10. Por todas as referências que fiz ao cristianismo, ficou claro, assim o espero, que considero toda a religião autêntica um elemento constitutivo de cultura. As grandes culturas do mundo, quer históricas, quer actuais, caldearam-se à volta do factor religioso, talvez com excepção da cultura chinesa em que o factor decisivo foi uma filosofia moral, o confucionismo. Não é minha intenção fazer agora a análise dessas grandes culturas, embora elas se apresentem, com uma força peculiar, no palco da história contemporânea. Todas elas têm em comum a importância da fé em Deus na compreensão da vida humana, do seu presente e do seu futuro, da sua busca da felicidade.

            No que ao cristianismo diz respeito, ele originou um duplo fenómeno: aculturou-se, isto é, integrou outras culturas, e acabou por imprimir a sua visão do homem e da felicidade na própria cultura. O respeito pela vida e pela dignidade da pessoa humana, a dignidade da mulher, a construção da justiça e da paz, o conceito de igualdade em dignidade, são marcas claras do ideal cristão na cultura. Sobretudo porque o cristianismo não desmobiliza os cristãos da luta por um mundo melhor; antes os envia, para o seio da sociedade, a lutar, desde já, por esse progresso da humanidade.

            11. A recente discussão acerca da referência ao cristianismo como uma das matrizes da cultura europeia, no proémio do Tratado Constitucional Europeu, foi, para nós, um momento doloroso. Tratava-se de reconhecer a objectividade histórica de uma componente da cultura europeia que, todos o reconhecemos, é plural nos elementos que a estruturaram. Não se tratava da afirmação de qualquer forma de confessionalidade da cultura europeia, mas apenas de identificação de uma componente matricial. Não é o mesmo reconhecer, em geral, a influência das religiões, porque os grandes valores que fizeram a Europa são judaico-cristãos, que assimilaram a própria herança da época clássica. Mas estamos no tempo da laicidade, arvorada sub-repticiamente numa espécie de religião sem Deus. Confunde-se a laicidade dos Estados, hoje pacificamente aceite enquanto obrigação de respeito pelas consciências, com a laicidade da sociedade. O Estado laico não pode desconhecer a importância do factor religioso, no homem e na sociedade.

            No centro está sempre uma das questões perenes para os homens de todos os tempos: Deus existe, mesmo para aqueles que O negam e a vida do homem é uma ou outra, se é vivida com Deus ou sem Deus.

            Não é fácil construir uma cultura que enquadre as pessoas na busca da felicidade. Mas tal como a felicidade, essa cultura é um anseio profundo do coração humano.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


 
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[1] Gaudium et Spes, nº 53

[2] Ibidem

[3] Ibidem

[4] Fernando Pessoa, in “A Mensagem”


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