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DOCUMENTOS

01 de Janeiro de 2008

Homilia do Cardeal-Patriarca de Lisboa na Missa do Dia Mundial da Paz

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“A Paz construída na Esperança”

 

Homilia na Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus,

Dia Mundial da Paz

Lisboa, Paróquia de Santa Isabel,

1 de Janeiro de 2008

1. Nas últimas semanas, vivemos acontecimentos de grande relevo, todos eles portadores de uma esperança de paz: a Cimeira entre a União Europeia e a África, buscando as bases de uma cooperação da Europa no desenvolvimento do continente africano; a assinatura do Tratado de Lisboa; a Cimeira Mundial em Bali, que procurou concordar caminhos e esforços de salvação do planeta Terra, casa comum da única família humana. Todos eles foram alvo de louvores e de críticas. São, de facto, passos limitados, perante o objectivo de construir uma paz sólida e duradoira; mas são sinais de esperança, porque representam uma consciência colectiva e esforços reais para construir a paz. Se considerássemos os seus resultados suficientes e definitivos, seríamos ingénuos; não reconhecer a esperança que eles encerram é ser negativista e utópico. Eles sublinharam aspectos cruciais na luta pela paz: o papel insubstituível da Europa na construção da paz, não tanto pelo seu contributo para o progresso material, mas pela sua cultura humanista, também alicerçada na visão cristã do homem e da sociedade; a urgência de introduzir nos mecanismos da economia e do progresso decisões corajosas e ponderadas para salvar o Planeta, já tantas vezes e de tantos modos, ameaçado de destruição pelo homem.

De pouco servirão todos os outros esforços de progresso e de civilização, se o preço a pagar por eles for a destruição do equilíbrio ecológico do planeta que habitamos, tão generosamente dotado de todos os recursos de que os homens precisam para o seu desenvolvimento, devido à sabedoria de Deus que nos criou e nos deu a Terra para habitarmos. Este é hoje um problema principal, com consequências decisivas na construção da harmonia e da paz; denunciado pelos efeitos que já se sentem, clarificado pela investigação científica, é problema político central, a exigir opções corajosas e os sacrifícios necessários. Como problema político é natural que suscite reacções estremadas, dos ecologistas contra os políticos, destes a medir as consequências das possíveis medidas a adoptar nos equilíbrios económicos, dos líderes de opinião a dramatizarem as primeiras conclusões da ciência. Na sua Mensagem que dirigiu à Igreja para este Dia Mundial da Paz, Bento XVI escreveu: “Actualmente a humanidade teme pelo futuro equilíbrio ecológico. Será bom que as avaliações a este respeito se façam com prudência, no diálogo entre peritos e cientistas, sem acelerações ideológicas para conclusões apressadas e sobretudo pondo-se conjuntamente de acordo sobre um modelo de “progresso sustentável”, ou seja, do progresso possível para o bem comum da humanidade”.

Como em tudo, o homem, a sua dignidade e plena realização, é o centro inspirador dos princípios éticos que devem inspirar as soluções propostas. Volto a citar o Santo Padre na sua Mensagem: “O ser humano tem um primado de valor sobre toda a criação. Respeitar o ambiente não significa considerar a natureza material ou animal mais importante do que o homem; exige que não consideremos a natureza egoisticamente, à completa disposição dos próprios interesses”. Não tem, pois, sentido procurar salvar a natureza à custa do próprio homem. Ao salvar a natureza, o que se pretende salvar é o homem, toda a família humana.

Tudo isto convida-nos a reflectir sobre o que Bento XVI designa por “progresso sustentável”, que só será progresso se contribuir para a plena realização do homem e de toda a comunidade humana, na paz. A busca do “progresso sustentável” tem consequências políticas, para quem tem a responsabilidade de conduzir os destinos dos povos.

2. Mas em que consiste um “progresso sustentável”? Bento XVI, na sua recente Carta Encíclica “Salvos pela esperança”, ajuda-nos a defini-lo: não pode ser só material. “Se ao progresso técnico não corresponde um progresso na formação ética do ser humano, no crescimento do homem interior, então aquele não é um progresso, mas uma ameaça para a humanidade e para o mundo”[1].

Esta dimensão ética exige a abertura para a riqueza e complexidade da realidade humana, em que as dimensões espirituais inspiram os processos de desenvolvimento da matéria. Essa dimensão espiritual inclui dimensões como: a relação com Deus, que não depende da decisão do homem; o desejo do amor; a construção da comunhão e da solidariedade; a responsabilidade de cada um por todos; o diálogo humilde e lúcido entre razão e fé; o discernimento entre o bem e o mal. Diz o Santo Padre: “Se o progresso, para ser digno deste nome, necessita do crescimento moral da humanidade, então a razão do poder e do fazer deve, de igual modo, ser integrada urgentemente mediante a abertura da razão às forças salvíficas da fé, ao discernimento entre o bem e o mal”[2].

A dimensão cultural é essencial para a qualidade humana do progresso e dela fazem naturalmente parte integrante as tradições religiosas, grande fonte de sabedoria e de inspiração ética dos povos. Este é um grande desafio para a cultura contemporânea: integrar, sem medo e sem preconceitos passados, os contributos da fé religiosa para a sabedoria que há-de inspirar e conduzir o desenvolvimento da humanidade. Bento XVI afirma corajosamente a este propósito: “É necessária uma auto-crítica da idade moderna, feita em diálogo com o cristianismo e com a sua concepção de esperança. Neste diálogo, também os cristãos devem aprender de novo, no contexto dos seus conhecimentos e experiências, em que consiste verdadeiramente a sua esperança, o que é que temos para oferecer ao mundo e, ao contrário, o que é que não podemos oferecer. É preciso que, na auto-crítica da idade moderna, conflua também uma auto-crítica do cristianismo moderno, que deve aprender, sempre de novo, a compreender-se a si mesmo, a partir das próprias raízes”[3].

O grande contributo dos cristãos para o “progresso sustentável” é o vigor da sua esperança que brota da profundidade de uma fé harmonicamente integrada na razão. A própria vivência da fé, nas várias circunstâncias da vida da sociedade, onde se decide a natureza do progresso, é a afirmação de que “o ser humano tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado de esperança”, do Deus verdadeiro que é preciso escutar: “para Deus entrar verdadeiramente nas realidades humanas, não basta ser pensado por nós, requer-se que Ele mesmo venha ao nosso encontro e nos fale. Por isso a razão necessita da fé para chegar a ser totalmente ela própria; razão e fé precisam uma da outra para realizarem a sua verdadeira natureza e missão”[4].

3. O Dia Mundial da Paz, iniciativa do Santo Padre Paulo VI, celebra-se no primeiro dia do ano, dia da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. São Paulo, na Carta aos Gálatas, diz que o nascimento de Cristo inaugura o tempo definitivo: “Quando o tempo chegou ao seu termo, Deus enviou o Seu Filho, nascido de uma mulher” (Gal. 4,4). O que significa esta plenitude do tempo, atingida em Jesus Cristo? É o tempo em que a humanidade, vencidos o pecado e o mal, readquire toda a capacidade de construir a harmonia e a paz. E essa é a situação actual da humanidade: se os homens quiserem e se abrirem à força do Espírito de Jesus, podem construir um mundo justo e fraterno. É o tempo das escolhas lúcidas, das opções corajosas, da generosidade e da fidelidade. Se o mal existe, se as escolhas dos homens acabam por se voltar contra eles mesmos, é porque não se abriram à plenitude de Jesus Cristo. Maria, a Mãe, que guarda no seu coração todos os segredos dos homens, continua no centro de todos os encontros com Jesus Cristo.

A maternidade salvífica de Maria convida-nos a olhar para a família, lugar privilegiado do amor, da escolha generosa do bem e das opções também generosas que fazem desejar a paz e a constroem. O Santo Padre, na sua Mensagem, fala da família e do seu lugar imprescindível na construção da paz. Quem destrói a família, afasta-se da paz. Ouçamos as suas próprias palavras: “numa vida familiar sã, experimentam-se algumas componentes fundamentais da paz: a justiça e o amor entre irmãos e irmãs, a função da autoridade manifestada pelos pais, o serviço carinhoso aos membros mais débeis, porque pequenos, doentes ou idosos, a mútua ajuda nas necessidades da vida, a disponibilidade para acolher o outro e, se necessário, perdoar-lhe. Por isso, a família é a primeira e insubstituível educadora para a paz.

Neste dia, destinado a aprofundar uma consciência de paz, rezemos por todos os que têm responsabilidades na condução dos povos e na formação das pessoas: as famílias, os governantes, os profissionais da comunicação, os agentes económicos. Façamos, por eles, a oração ensinada por Deus a Moisés: “O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a Sua face e te seja favorável. O Senhor dirija para ti o Seu olhar e te conceda a paz” (Num. 6,22.27).

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


 
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[1] BENTO XVI, Spe Salvi, nº 22

[2] Ibidem, nº 23

[3] Ibidem, nº 22

[4] Ibidem, nº 23


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