DOCUMENTOS
“A Santidade da Igreja é proclamação da Glória de Deus”
Homilia na Solenidade da Santíssima Trindade
Dia da Igreja Diocesana
Mosteiro de São Vicente de Fora, 18 de Maio de 2008
1. Celebrar o Dia da Igreja Diocesana na Solenidade Litúrgica da Santíssima Trindade foi opção pastoral, plena de sentido e carregada de exigência. Trata-se de assumir o desafio de procurar edificar a Igreja como “um Povo que encontra a sua unidade na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (LG. nº4), sabendo que a Igreja é “o Povo que Deus adquiriu para louvor da Sua glória” (Efs. 1,14). Na sua vida e na oração, a Igreja proclama continuamente a glória de Deus, Trindade Santíssima. O seu canto, tantas vezes repetido, de Glória às três Pessoas Divinas é a expressão da sua busca da santidade. Esta é a mais autêntica e verdadeira proclamação da glória de Deus.
Toda a nossa actividade pastoral, todo o nosso esforço de fidelidade devem levar a Igreja de Lisboa a dizer com verdade: glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
2. Glória ao Pai! Para que esta proclamação tenha densidade cristã é preciso conhecer o que significa, na Sagrada Escritura, a Glória de Deus. O termo glória sugere a importância, o peso, que uma pessoa tem na vida de outra pessoa. Proclamar a glória de Deus é reconhecer a importância decisiva que Deus tem na nossa vida e na vida do Seu Povo. Antes de ser uma afirmação, é uma experiência, de quem vive com Deus, de quem crê e experimenta que a acção amorosa de Deus é determinante na nossa vida. Descobre-se que essa presença de Deus é importante, é decisiva, porque é amorosa e salvífica. No Antigo Testamento, são as intervenções salvíficas de Deus em favor do Seu Povo que são manifestação da Sua Glória: a passagem do Mar Vermelho (Ex. 14,18), o alimento miraculoso, o maná e as codornizes: “De manhã vereis a glória de Yhawé” (Ex. 16,7). O Deus da Aliança manifesta a Sua glória salvando o Seu Povo. A Sua glória é a manifestação do Seu poder, expressão do Seu amor e da Sua fidelidade. “Quando Yahwé reconstruir Sião, vê-lo-emos na Sua glória” (Sl. 102,17).
O esplendor desta glória, sinal do poder amoroso de Deus, manifesta-se sensivelmente, como fulgor da divindade, mostrando ao Povo que o mistério transcendente de Deus não o impede de ser próximo. Revela-Se no Sinai, sob a forma de uma nuvem de fogo envolvendo a montanha (cf. Ex. 21,15ss); envolve o Santuário, “que será consagrado pela Minha glória” (Ex. 29,43); encherá o Templo (cf. 1Rom. 8,10ss). A montanha santa, o Santuário, o Templo, símbolos da interacção entre Deus e o Seu Povo, são os lugares da manifestação da Sua Glória. Deus reina na Cidade Santa, regenerada pelo Seu poder e iluminada pela Sua presença. Isaías desafia Sião: “Levanta-te, brilha! Eis a tua luz, sobre ti se eleva a glória de Yahwé” (Is. 60,1). A salvação completamente realizada será a manifestação definitiva da glória de Deus. Esta plenitude será escatológica. O tempo definitivo é anunciado por Isaías: “venho reunir as nações de todas as línguas. Elas virão ver a Minha glória” (Is. 66,18ss).
3. Glória ao Filho! Para nós cristãos, a manifestação definitiva da Glória de Deus é o Seu Filho Jesus Cristo. Filho de Deus, Ele é “o resplendor da Sua glória e imagem da Sua substância” (He. 1,3). Ele é “o Senhor da Glória” (1Co. 2,8), a glória de Deus “brilha no Seu rosto” (2Co. 4,6). E São João, ao apresentar o mistério do Verbo encarnado diz: “e nós vimos a Sua glória, glória que Ele recebe do Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo. 1,14). A humanidade de Jesus, em que encarnou o Filho de Deus, é um sacramento de proximidade do Deus connosco. Glorificar o Filho é confessar a divindade de Jesus e reconhecer a importância fundamental que Ele tem na nossa vida, conduzindo-a à santidade, e em que se manifestará a própria glória de Deus. Por isso, a maior manifestação da glória do Filho é o Seu acto redentor; a Sua Cruz é um trono de glória; no Crucificado revela-se o “Senhor da Glória” (1Co. 2,8). Para São João, o Calvário é a maior teofania do Novo Testamento. Jesus consagra-Se ao Pai, na obediência até à morte, para a glória do Seu nome (cf. Jo. 12,28). A Cruz transfigurada torna-se o sinal da elevação do Filho do Homem (cf. Jo. 12,23.31). O Calvário manifesta aos olhares de todos o “Eu Sou”, afirmação da divindade de Jesus. A fecundidade salvífica da Sua morte é a Sua glória (cf. Jo. 7,37ss).
Porque a glória de Jesus está ligada ao triunfo definitivo do Seu amor redentor, a Sua glória só se manifestará completamente na Pátria celeste, quando “o Filho do Homem vier na Glória do Seu Pai, com os Seus Anjos” (Mc. 8,38). Toda a vida cristã aspira por esse momento da “manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tit. 2,13ss).
A Igreja, Corpo de Cristo e esposa do Senhor, deve ser a mais bela proclamação da glória de Jesus Cristo. O próprio Jesus o afirma em oração ao Pai, antes da Sua Paixão: “Eu dei-lhes a glória que Tu Me destes, para que eles sejam um como Nós somos um” (Jo. 17,22).
4. Glória ao Espírito Santo! O Espírito Santo manifesta a glória de Deus Pai e do Seu Filho Jesus Cristo, edificando a Igreja e conduzindo-a à santidade. Podemos mesmo dizer que a manifestação do Espírito e da Sua acção na Igreja é a proclamação perfeita da Glória do Pai e do Filho, porque essa glória reside no Seu amor criador e santificador e o Espírito é esse amor em acção até ao fim dos tempos. Libertar o homem do pecado e torná-lo semelhante ao Filho de Deus, a agradecer o amor com que é amado e a amar como o Senhor nos ama, é o triunfo do amor salvífico de Deus, é a manifestação da Sua glória, afirmação da importância decisiva desse amor na nossa vida e na vida da Igreja. Ser amados por Deus, no mesmo acto de amor com que Ele ama o Seu Filho, leva a Igreja a proclamar, no dizer de São Paulo, “que é por Ele que nós dizemos o nosso Ámen à Glória de Deus” (2Co. 1,20).
A glória do Espírito Santo exprime-se na santidade da Igreja. A sua plenitude é cantada no livro do Apocalipse, no Cântico das Núpcias do Cordeiro (19,7). A Igreja é então a esposa, sem mancha, nem ruga, esplendorosa, “vestida com vestido de linho brilhante” (19,8). A glória da esposa é a glória de Cristo, Seu esposo. O Espírito é a força de amor que a recria e transforma. Por isso, ambos, nesta peregrinação da fé e de aprendizagem da caridade, clamam pela manifestação da glória definitiva de Cristo. “O Espírito e a esposa clamam: vem Senhor Jesus” (22,17). A glória do Espírito Santo é o triunfo do amor, é o juntar a sua voz à da Igreja, pedindo a manifestação desse triunfo na última vinda de Cristo. Esse momento será a proclamação definitiva da glória da Santíssima Trindade e todos em uníssono cantarão: “Glória ao Pai, glória ao Filho, glória ao Espírito Santo”.
5. Glorificar as três Pessoas Divinas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, exige à Igreja uma maneira sobrenatural de se definir, assumindo-se como Povo do Senhor, obra do Espírito Santo, chamada à santidade. Exige, antes de mais, reconhecer a importância decisiva da acção de Deus, na Igreja e em cada um de nós, escutando as palavras do Senhor. “Sem Mim nada podeis fazer”. Supõe que assumimos na compreensão da nossa vida que a perfeição humana não é o fruto das nossas capacidades humanas, mas da força criadora da acção de Deus. Supõe dar prioridade absoluta aos meios da graça, através dos quais nos abrimos à acção de Deus. Glorificar é reconhecer a importância de Deus na nossa vida.
Glorificar o Filho é reconhecer a Sua divindade, na proximidade da Sua humanidade. É escutá-l’O como Palavra eterna de Deus. Cristo, Verbo do Pai, resume em Si e dá plenitude de sentido a toda a aventura de escuta da Palavra de Deus ao longo da história: escutar a Palavra humana inspirada e a Palavra da Igreja, como caminho que nos levará à escuta da Palavra viva de Deus. Esta escuta da Palavra é a primeira etapa para estabelecer uma intimidade de amor entre Deus e o Seu Povo.
Glorificar Jesus Cristo é tornar toda a nossa vida digna da Eucaristia que celebramos, porque a morte e a ressurreição de Cristo são a grande manifestação da Sua glória de Filho.
Só há uma maneira de louvar dignamente o Espírito Santo: deixarmo-nos devorar pela voragem do amor divino que Ele é, que dá à caridade um lugar central nas nossas relações com Deus e com os irmãos. Glorificar o Espírito Santo é abandonar-se ao ritmo do amor, é confiar na eficácia transformadora do amor de Deus, é confiar que, em todas as circunstâncias, a santidade é sempre possível, se nos abandonarmos a essa acção do Espírito.
Cada vez que rezamos “Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo”, assumimos uma atitude de vida e um programa de acção pastoral. É isso que pedimos hoje ao Senhor para a Igreja de Lisboa: que possa glorificar a Santíssima Trindade na verdade da sua vida e na fidelidade do seu percurso; que seja uma Igreja que bebe a sua unidade na unidade entre as Pessoas Divinas. Só assim ela será uma Igreja fiel que vive da comunhão de amor.
† JOSÉ, Cardeal-Patriarca