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02 de Dezembro de 2018

Homilia na Ordenação de Diáconos

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«Vigiai e orai em todo o tempo, para terdes a força de vos livrar de tudo o que vai acontecer e poderdes estar firmes na presença do Filho do homem»
Irmãos caríssimos: Esta última frase que ouvimos há de preencher todo o Advento, insistentemente.
“Vigiai!” – É a palavra de ordem, para ser atitude constante de cada discípulo de Cristo, como os que hoje recebem o diaconado. Da parte deles é um exercício de vigilância, para acolherem o Senhor que os tomará sinais vivos, sacramentos, do seu serviço. É neles e através deles que o Senhor continuará a dizer: «Eu estou no meio de vós como aquele que serve» – como um “diácono” na letra evangélica (Lc 22, 27).    
A vigilância espiritual e prática define-nos também a nós, como os que esperam o Senhor e divisam a sua vinda, com tudo quanto Ele nos traz de sentido absoluto e conversor. Converte-nos o desejo e exige a coerência. Viver como quem realmente O espera, impele-nos ao seu encontro, descobre-lhe a presença, sobretudo onde mais se aproxima e nos reclama: na Palavra em que ressoa, no sacramento em que se oferece, nos outros em que nos pede o que precisa, para nos dar muito mais.
É como um movimento mútuo, que Ele próprio suscita. Como João apresenta no Apocalipse: «Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo» (Ap 3, 20). E Tiago resume assim na sua Epístola: «Aproximai-vos de Deus e Ele aproximar-se-á de vós» (Tg 4, 8). Desde a primeira geração, os cristãos vivem em Advento, quando autenticamente o são.

As leituras ouvidas insistem muito neste ponto. E é também assim que o Evangelho se traduz como “boa nova”. Parece contraditório, entre tantas imagens do fim, mas nós cristãos sabemos que o não é. Parece contraditório… De facto, como podemos considerar “boa nova” um tal cenário de coisas graves, que mais provocariam medo do que esperança?
Por duas razões principais: A primeira é Jesus insistir naquilo de que já devíamos estar certos. O mundo, este mundo como o vemos e vivemos, é uma realidade magnífica, mas também frágil, caduca e perecível. Não tem a consistência garantida, nem a perenidade que só a Deus pertence. Foi criado diferente do seu Autor, como única possibilidade de existirmos distintos de Deus, ainda que para Deus. Conserva as marcas da autoria divina que o sustenta, mas também as nossas, que tantas vezes o desfiguram e destroem. 
Àquelas imagens fortes que Jesus usou – sinais na lua e nas estrelas, rugido e agitação do mar, forças celestes abaladas – podemos acrescentar as que hoje nos alertam, como a desertificação, a falta de água potável e os cataclismos que o descuido humano provoca, ou os intermináveis conflitos que eliminam tantas vidas e desfiguram a terra.
Alertar-nos Jesus para realidades assim é já Evangelho, como lição e apelo. Mas é também “boa nova”, como segunda razão, pois nos garante que, se correspondermos positivamente, se nos convertemos e mudarmos as coisas, poderemos soerguer-nos e levantar a cabeça, libertando-nos com Ele na cruz deste mundo. Trata-se de viver já pascalmente o Advento. 
Sobretudo porque, estando vigilantes e atentos aos sinais da sua presença ressuscitada e ressuscitadora, ganharemos firmeza diante do Filho do Homem. Venha o que vier e aconteça o que acontecer, Ele está connosco e continuará a fazer Páscoa. Connosco e para os outros. Nele, Verbo divino que em tudo ressoa, n’Ele Verbo divino em quem tudo se refaz.

Este Evangelho vivo para um Advento pleno, exige da nossa parte a vigilância pronta, que desperta o mundo que levamos connosco. Desperta-o para o que na verdade importa. Para distinguirmos o que vale do que não vale, o que persiste do que decai e desaparece. 
Viver o Advento é concentrar-se no essencial da vida e no substancial das coisas. Para nós cristãos, tudo se concentra numa relação pessoal absoluta, como a podemos e devemos ter com Cristo. Resumindo a nossa vida com as palavras de Paulo, quando já vivia em Advento: «Para nós, um só é Deus, o Pai, de quem tudo procede e para quem nós somos, e um só é o Senhor Jesus Cristo, por meio do qual tudo existe e mediante o qual nós existimos» (1 Cor 8, 6). 
Tantas vezes o repetimos no Credo: «Creio em um só Senhor Jesus Cristo … consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas … Também por nós foi crucificado … Ressuscitou ao terceiro dia... De novo há de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim … E espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir». Do princípio ao fim, um completo Advento. Advento da vida, que recebemos em Cristo; e da vida eterna, revivendo-Lhe a Páscoa. 
Pelo meio está a Cruz, nossa e alheia, como Cristo a tomou, para a preencher de vida. Viver em Advento é sê-lo para os outros, que são sinais de Cristo, que nos toca e reclama. Repetindo a sua proximidade em relação a quem mais sofra fragilidades e ruínas. A cor litúrgica do Advento induz-nos à conversão, que se traduz em caridade, sentida e praticada.
Depois do Advento virá o Natal. Porém, como aconteceu na sua primeira vinda, Jesus continuará a “nascer” no lugar que encontrar. Há dois mil anos só pôde ser num presépio, pois «não havia lugar na hospedaria» (Lc 2, 7). Preparemos-lhe agora um lugar melhor, no nosso coração e na nossa vida.
- Certamente o fareis, caríssimos ordinandos. E todos nós convosco, como o mundo espera!  

Santa Maria de Belém, 2 de dezembro de 2018

+ Manuel, Cardeal-Patriarca



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