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21 de Julho de 2018

Conferência no Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora

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A alegria do reencontro

Saúdo vivamente todos os participantes neste Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora e muito especialmente todos os que tanto trabalharam para a sua realização. Muito obrigado por tudo quanto fizeram e é tão importante para a Igreja e para o mundo.
É importante para a Igreja, porque ela é e deve ser cada vez mais tomada como “família de famílias”. Assim insiste o Papa Francisco na exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia. Onde lembra também que os primeiros trinta anos da vida de Jesus Cristo se passaram no âmbito doméstico da Família de Nazaré, que por isso mesmo é “Sagrada Família”. Família em que Deus nasce no mundo, da Virgem Maria e sob a proteção de São José. Família onde Jesus perfaz o seu percurso humano, crescendo em estatura, sabedoria e graça. Família onde recolhe uma experiência atenta e solidária, que depois alargará a todos na “família de Deus”, a que pertencemos nós e para a qual convidamos a todos. 
Do âmbito doméstico ao âmbito eclesial, é sempre a família o critério para nascer, crescer e conviver. Jesus não constituiu a sua família em sentido natural. Mas criou a família sobrenatural dos filhos de Deus, que somos nós, sublimando relações e afetos que humanamente experimentara na família de Nazaré. Não é por acaso que lhe surgem expressões familiares para designar sentimentos pastorais e eclesiais. Apresenta-se em termos de filiação, esponsalidade e fraternidade, verdadeiras matrizes do que havemos de ser como Igreja e Igreja no mundo.     
Tenhamos este ponto muito em conta, como o tiveram as duas últimas assembleias sinodais e o Papa Francisco retomou várias vezes. A relação dinâmica do âmbito familiar com o âmbito eclesial é o percurso cristão, vivido e aberto pelo próprio Jesus Cristo. Aliás, os Atos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo mostram-nos ter sido no âmbito familiar que o cristianismo encontrou lugar privilegiado para a sua primeira expansão. Nos primeiros séculos era difícil encontrar outros lugares para a reunião eclesial, a celebração e a catequese. E de então para cá, quer para a primeira evangelização, quer em tempos de perseguição, as famílias cristãs foram imprescindíveis para que o Evangelho acontecesse, como boa notícia e como prática. 
O tema desta conferência é a “alegria do reencontro”. Pois bem, estou convicto – com o Santo Padre e os padres sinodais de 2014-2015 – que a revitalização das famílias cristãs e a acentuação do seu lugar na Igreja são fundamentais para a nova evangelização que tanto urge, ou seja, para o reencontro com Cristo vivo. Cristo, autêntico “irmão mais velho”, que - muito ao contrário do que na parábola se desgostou com o regresso do irmão esbanjador - está absolutamente do lado do Pai e até nos vem buscar à “terra distante” onde estivermos. Mesmo que isso lhe custe a vida, mesmo que só assim nos ganhe e ressuscite. A alegria do reencontro é definitivamente pascal.
Quando São João Paulo II insistiu na “nova evangelização”, quis que esta fosse “nova no ardor, nova nos métodos e nova nas expressões”. Verificava que o quadro geral dos anos setenta apresentava três situações distintas: populações a que ainda não chegara o primeiro anúncio de Cristo, ou ainda não se tinham constituído “Igrejas locais” com tudo o que tal implica; populações em que isso já acontecera e prosseguia a ação pastoral, repartida pela pregação, os sacramentos e a caridade; e populações em que a tradição cristã definhara, ao ponto de quase se perder a memória viva da fé. 
Era a estas últimas que o Papa Wojtyla destinava a “nova evangelização” propriamente dita, contando também com a contribuição das famílias cristãs. E não foi por acaso que, especialmente durante o seu pontificado, se desenvolveram várias formas de missão familiar, inclusive de “partida em missão” de casais e famílias inteiras, para suscitar ou “ressuscitar” a vida cristã em muitos lugares por esse mundo além. Magnífica demonstração de ardor evangélico familiar, onde não faltou criatividade de métodos e expressões. De métodos, porque temos novas formas de comunicar; e de expressões, porque os conteúdos de sempre ganham as linguagens de hoje. O âmbito familiar revela-se particularmente fecundo e criativo para que tal aconteça. A comunidade cristã e a sociedade em geral têm tudo a ganhar com a sua contribuição evangelizadora. (Junto o meu testemunho pessoal ao da generalidade dos meus colegas sacerdotes, para agradecer a colaboração de muitos casais e famílias na missão de longe ou de perto, assim refazendo aquela colaboração apóstolo – famílias que tanto transparece em São Paulo, com Áquila e Priscila e outros mais.)

Um ponto me parece essencial para que a “alegria do reencontro” continue a acontecer no atual contexto social e eclesial: “Reencontro” significa retomar algo que se perdera, mas realmente existira e persistia como memória e promessa. A família é o lugar mais seguro para que tal memória se ative e reative. 
Não foi por acaso que Jesus se serviu dum contexto familiar para a parábola do amor misericordioso de Deus - que é o seu verdadeiro assunto, ainda mais do que a prodigalidade do filho mais novo. Fala de um “pai”, fala de dois irmãos, fala duma casa. Não menciona uma “mãe”, mas decerto que, a existir, compartilharia inteiramente e a seu modo do amor daquele pai. Não faltam, noutras passagens evangélicas, exemplos de mães profundamente desejosas do bem dos seus filhos, como a própria Virgem Maria procurara Jesus adolescente, tão ansiosa como José.
Convenhamos, porém, que este ponto encontra hoje dificuldades especiais. Reencontro significa recuperação dum encontro que efetivamente aconteceu. O filho pródigo da parábola perdera tudo: bens, relações e estatuto. Reduzira-se à última condição a que podia chegar um jovem judeu abastado: fora da sua terra e a guardar porcos, sem sequer lhes poder comer as bolotas… Não tinha nada, não era nada. Assim parecia e sofria; mas, de facto, conservava alguma coisa. Uma pequena grande coisa, que acabou por salvá-lo: a memória da casa familiar, onde certamente seria recebido e bem tratado, mesmo como o último dos trabalhadores…
Foi esta memória que o levantou e o fez regressar. Foi ela que possibilitou o reencontro. E a grande alegria do reencontro, que foi sobretudo a daquele pai, que não desistira de o esperar: Sai de casa mal o divisa ao longe, abrevia-lhe as palavras de arrependimento, restitui-lhe a filiação e os seus sinais e ordena a grande festa que o pródigo nunca imaginaria e tanto surpreendeu o irmão mais velho.
Escusado será lembrar que a imensa alegria que transborda da parábola é a constante alegria de Deus em reencontrar-nos - a nós, criados para sermos seus filhos e absolutamente reencontrados. Esta é a alegria de Jesus, que compartilha por inteiro os sentimentos do Pai, no Espírito que eternamente os une. De Jesus, que saindo do Pai e vindo ao mundo, agora nos leva consigo para o Pai, na vida que nos recupera e no Espírito que distribui.
Esta é também a memória cristã, que nos foi transmitida em família, quando tivemos a graça de nascer e crescer numa família crente, como Paulo lembrava ao seu discípulo Timóteo: «Trago à memória a tua fé sem fingimento, que se encontrava já na tua avó Loide e na tua mãe Eunice…» (2 Tm 1, 5). E quando tivemos a graça de a ampliar na comunidade cristã, como o mesmo Apóstolo verificava entre os tessalonicenses: «Devemos dar continuamente graças a Deus por vós, irmãos, como é justo, pois que a vossa fé cresce extraordinariamente e a caridade recíproca superabunda em cada um e em todos vós…» (2 Tes 1, 3). Esta é a primeiríssima memória que se ganha e transmite na família humana, conservando as palavras fundacionais do Génesis (cf. Gn 1, 27-28). Memória indispensável para alcançarmos uma segurança básica que nos realize e até recupere. Que nos reencontre mais à frente, com o essencial que conservarmos no mais íntimo de nós próprios e anela por acontecer plenamente um dia. 
Permito-me citar a propósito alguns versos duma grande poetisa portuguesa, que quase se podem rezar como encontro íntimo e pleno reencontro: «Um dia quebrarei todas as pontes / Que ligam o meu ser vivo e total / À agitação do mundo do irreal / E calma subirei até às fontes. / Irei até às fontes onde mora / A plenitude, o límpido esplendor / Que me foi prometido em cada hora / E na face incompleta do amor / Irei beber a luz e o amanhecer / Irei beber a voz dessa promessa / Que às vezes como um voo me atravessa / E nela cumprirei todo o meu ser» (Sophia de Mello Breyner Andresen, As fontes).                        
É muito belo, por ser inteiramente verdadeiro. Porém, as atuais condições de vida tornam-no particularmente difícil em muitíssimos casos. Sem idealizar outros tempos, que também não foram fáceis, o certo é que as condições de vida, aprendizagem e trabalho, assim como de habitação e pertença comunitária, oscilam entre a precariedade e a fluidez para grande número de pessoas e não só por razões financeiras. Nada disto ajuda à formação de memórias sólidas que garantam reencontros. Muito das atuais indefinições de personalidade e adiamentos de projetos familiares têm aqui o seu motivo, bem como a quantidade alarmante de frustrações e depressões precoces ou mais adiantadas em idade.
Há meio século, quando a geração que nasceu e cresceu depois da Segunda Guerra Mundial se afirmou, muitos acreditaram que, sobre os escombros culturais e civilizacionais acumulados, surgiria algo de novo, sem prisões antigas nem condicionamentos modernos. Verificamos agora, mesmo sem generalizar, que muito se reduziu a quase nada, ou simplesmente a um “eu” constantemente suscitado por consumismos vários, que tudo reduzem a objetos de gozo e descarte.       
A vida familiar foi naturalmente atingida na respetiva constituição e solidez. A frequência dos divórcios é mais sintoma do que causa, uma vez que deriva frequentemente de uniões pouco ou nada preparadas. E ninguém se preparará sem o testemunho dos que já pratiquem o ideal familiar cristão. A “nova evangelização” só acontecerá com famílias dinamicamente estabilizadas, onde ninguém desista de ninguém e os conflitos se previnam e superem pelo exercício de sucessivos reencontros. 
Reencontros onde, afinal, cada um se reencontre a si próprio e mais à frente, na prática da caridade conjugal e familiar. Lembra-o o Papa Francisco na Amoris Laetitia, num capítulo precisamente intitulado “O amor no matrimónio”: «Não podemos encontrar um caminho de fidelidade e doação recíprocas se não estimularmos o crescimento, a consolidação e o aprofundamento do amor conjugal e familiar. De facto, a graça do sacramento do Matrimónio destina-se, antes de mais nada, a aperfeiçoar o amor dos cônjuges» (AL, 89). E o Papa prossegue com um largo e sugestivo comentário ao Hino à Caridade da 1ª Carta de São Paulo aos Coríntios (13, 4-7), muito concretamente aplicado à vida familiar. É a base segura para viver e transmitir o ideal matrimonial cristão.
É certo que o atual condicionalismo sociocultural não facilita a realização deste ideal. Mas também o não fazia o contexto em que Jesus Cristo o apresentou há dois mil anos, com palavras tão claras e assertivas como as que reencontraremos sempre nos Evangelhos (cf. Mc 10, 1-12 e paralelos). 
A proposta matrimonial cristã é constante ingresso, regresso e progresso na vida divina, reencontrando-nos na misericórdia do Pai, na fidelidade do Filho e na união do Espírito. Por isso o Papa Francisco, além de toda a atenção que nos pede à situação concreta de cada casal e família, não deixa de insistir: «… lembro que, de modo algum, deve a Igreja renunciar a propor o ideal pleno do matrimónio, o projeto de Deus em toda a sua grandeza. […] A tibieza, qualquer forma de relativismo ou um excessivo respeito na hora de propor o sacramento seriam uma falta de fidelidade ao Evangelho e também uma falta de amor da Igreja pelos próprios jovens. A compreensão pelas situações excecionais não implica jamais esconder a luz do ideal mais pleno, nem propor menos de quanto Jesus oferece ao ser humano. Hoje, mais importante do que uma pastoral dos falhanços, é o esforço pastoral para consolidar os matrimónios e assim evitar as ruturas» (AL, 307).

Caríssimos participantes neste feliz Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora: Deus encontrou-Se connosco no ambiente familiar de Belém e Nazaré. O reencontro atual com Deus há de acontecer também em contexto familiar, em famílias que vivam e testemunhem o ideal matrimonial cristão. Assim para nascer, crescer e viver; assim para aprender sentimentos e condutas que, alargados da família de cada um à “família de Deus” (cf Ef 2, 19), realizem hoje, com novo ardor e com os métodos e expressões que mais convenham, o Evangelho de Cristo.
Esta configuração familiar da Igreja e da missão foi realçada pelo Sínodo dos Bispos e claramente proposta pelo Papa Francisco. Oiçamo-lo: «A Igreja é família de famílias, constantemente enriquecida pela vida de todas as igrejas domésticas» (AL, 87). E ainda: «As famílias cristãs são, pela graça do sacramento nupcial, os sujeitos principais da pastoral familiar, sobretudo oferendo o testemunho jubiloso dos cônjuges e das famílias, igrejas domésticas» (AL, 200).
O Encontro Internacional destes dias, sob o manto protetor de Nossa Senhora de Fátima, realça a grande verdade destas indicações papais. Em cada uma das vossas famílias, pela graça sacramental que as sustenta, revive-se com a Mãe da Igreja o ambiente da Sagrada Família, em que Deus se encontrou connosco. Como agora, pelo vosso testemunho, O hão de reencontrar muitos mais!

Fátima, 21 de julho de 2018

+ Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa


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