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Monsenhor José de Freitas: “Um sacerdote santo”
01 de Julho de 2011
Monsenhor José de Freitas: “Um sacerdote santo”
“Homem de Deus, jovial, atento, humilde, compreensivo e carinhoso, um verdadeiro pai para todos”. Estas são algumas das características apontadas por amigos, antigos paroquianos, gente que foi passando ao longo dos anos pela vida e pelo ministério de monsenhor José de Freitas, padre do Patriarcado de Lisboa, falecido no passado dia 24 de Junho.
Da sua longa história, de 92 anos de vida, e 70 de ministério sacerdotal, a VOZ DA VERDADE assinala alguns traços da pessoa e do ministro de Deus, considerado pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, “um sacerdote santo”.


Embora os seus pais, Jerónimo e Deolinda, habitassem na cidade de Lisboa, José de Freitas, nasce na terra dos seus antepassados, em Vale da Clara, paróquia de Santa Maria de Arrifana, concelho de Vila Nova de Poiares, na Diocese de Coimbra. Era o dia 10 de Agosto de 1918. A entrada na Igreja pelo Baptismo acontece cerca de um ano depois.

 

Da sua infância recorda, numa das publicações que deixou escritas, a ausência dos avós, considerando-se um “neto desavozado”. “Desconhecia tal parentesco, os seus carinhos, os seus presentes! Cresci sem os mimos de avós ternurentos, privado dos seus presentes de que os outros miúdos faziam gala”, refere no livro ‘O Senhor Passou, Olhou e Chamou’, publicado pela Paulinas Editora, em Janeiro de 2010.

 

A infância foi vivida em Lisboa, no típico bairro da Mouraria, primeiro no Beco das Atafonas, depois na Rua das Farinhas a São Cristóvão e, finalmente, na Vila Almeida, no Socorro.

 

Frequentou a catequese paroquial e a das Doroteias do Largo de Santa Marinha, a São Tomé, e fez a Primeira Comunhão na Igreja da Graça. “A catequese fascinava-me: a estima dos catequistas, a amizade do sacristão, Sr. Alexandre, a admiração pelo Pároco, o ambiente agitado do grupo catequizando, os prémios da ‘Loja da Catequese’, tudo me entusiasmava e esbatia a influência nefasta dos compinchas do bairro”, escrevia.

 

“Não gostavas de ir para o Seminário?”

Como em qualquer história vocacional, há sempre algo ou alguém que faz despoletar a interrogação sobre o que Deus chama a fazer. E a partir daí, Deus começa a agir. “O sacristão descobriu as minhas réstias vocacionais e encarregava-me de alguns pequenos serviços da igreja; o pároco encarregou-me de levar o original do Mensageiro (folha paroquial) a imprimir na casa do padre Geada, na Rua de Santana à Estrela; pelo jornalzito, eu iria lá para o trazer para a paróquia”, conta monsenhor José de Freitas.

 

A pergunta surge então de forma directa e incisiva: “Não gostavas de ir para o Seminário? Fiquei cilindrado, sem resposta; mas esta foi-se avolumando no meu subconsciente e, em dada altura, respondi ‘não’ à pergunta da pessoa amiga, mas perante o desafio de Deus que ela expressava, encontrei-me a responder a mim mesmo: ‘gostava’. E ainda hoje, passado tanto tempo, vou respondendo ao eco da chamada de Deus, através da Tia Maria dos Gatos, da Rua do Cavaleiros”, escreve no segundo volume do livro ‘Ressonâncias do Silêncio’.

 

A resposta à pergunta

Aos 11 anos, respondendo à pergunta que lhe tinha sido, então, feita, entra no Seminário de Santarém, um lugar que o remete para o seu bairro de meninice. “Fui marcado sobretudo, pelo Seminário de Santarém, cidade venerada pelas pedras, ruelas, monumentos, muralhas e castelo: era o prolongamento do meu bairro (Mouraria)”, revela em entrevista publicada no jornal de Sesimbra em 1998, citada na obra ‘Monsenhor José de Freitas, Uma fotobiografia’, também de Janeiro de 2010.

 

Antes de entrar no Seminário há que fazer todos os preparativos. Muitas coisas ficam para trás para ir ao encontro do essencial. “Todo um mundo ia ficar para trás! Mas um mundo de imaginação, de fantasia e de descobertas ia começar a abrir-se à minha frente! Um mistério que era desejado, uma aventura por um mundo novo, cheio de fantasia e imaginação e, sobretudo, de vontade nova e decidida, embora em descoberta contínua. À minha frente, porém, ia o Senhor a abrir caminho!”.

 

Em 1935, com 17 anos de idade, transita para o Seminário dos Olivais. Sobre esta casa de formação afirma ao jornal de Sesimbra: “As disciplinas que mais me encantaram foram a História e a Geografia: ajudaram-me a continuar a sonhar, a imaginar, e a criar. No Curso Teológico, sem desprimor para as outras, foram as aulas do grande mestre Monsenhor Pereira dos Reis: homem optimista e intérprete sereno da História. Uma personalidade que nos fazia penetrar, de uma maneira simples e elevada, no mistério da Igreja, no Cristo total. É impossível esquecê-la”.

 

A ordenação sacerdotal acontece a 6 de Julho de 1941. Celebraria nesta semana que começa, 70 anos de ordenação. A primeira missa do neo-sacerdote José de Freitas é celebrada na Igreja do Socorro, a 13 de Julho de 1941. “Celebrei-a rodeado por muitos colegas dos grupos de infância e até pelo Chefe da Esquadra da Polícia da Mouraria, Sr. Lopes, que chorava de alegria ao recordar que, muitas vezes, me tinha puxado as orelhas e conversado comigo na esquadra”.

 

«Ser tudo para todos»

Em Setembro desse mesmo ano assume a sua primeira missão. O jovem padre, com 23 anos de idade, é nomeado por D. Manuel Gonçalves Cerejeira, pastor da paróquia do Castelo de Sesimbra. Uma missão que abraça de alma e coração: “Senhor, tu já lá estás à minha espera, não é verdade?”, lembra manifestando a sua confiança em Deus. Na primeira visita que realiza àquela que seria a sua paróquia de missão, à chegada, depara-se com um panorama de sensações mistas. Se por um lado estava rodeado de uma bela paisagem, desfrutando dos encantos da Serra da Arrábida, por outro tinha a proximidade do cemitério daquele lugar. “Ao silêncio dos vivos veio juntar-se o silêncio dos mortos, únicos habitantes que me acolheram nesse dia. Passariam a ser os meus vizinhos mais próximos, a poucos metros das janelas da residência. Pedi-lhes que, diante de Deus, se lembrassem de mim no contacto que me estaria reservado com as suas famílias”, escreve em ‘Salpicos de uma Caminhada’. Hoje, por desejo próprio, também monsenhor José de Freitas jaz naquele lugar.

 

Apenas a 5 de Outubro de 1941 entra oficialmente na paróquia do Castelo de Sesimbra. Uma experiência pastoral que, confessa num encontro com seminaristas em Janeiro de 2000, “iniciou-se e desenrolou-se num contexto difícil e adverso: física, social, material, religiosa e psicologicamente complicado”. No entanto, as dificuldades são meio de crescimento e, talvez, por isso, o padre José de Freitas considere que “aqueles primeiros anos foram os mais belos” da sua vida sacerdotal e pastoral. “Eles ajudaram-me a consolidar as três grandes linhas de força que têm norteado os caminhos da minha vocação: a certeza de estar em nome de Alguém; a liberdade face aos interesses materiais; os desafios à criatividade”. Desta forma “o padre Freitas conseguiu concretizar o seu sonho: «Ser tudo para todos!»”, testemunha-se na fotobiografia publicada.

 

Construtor de igrejas

Uma das características muito frequentemente apontada a monsenhor José de Freitas é a de construtor de igrejas. O pastor constrói e cuidas das comunidades, mas o padre Freitas realizou uma obra significativa no que diz respeito à edificação de templos para congregar as suas ovelhas. “A construção de uma igreja que permitisse uma presença sacerdotal e uma acção pastoral no meio das pessoas, «as pedras vivas», continuava nos planos do padre Freitas. Contudo, os obstáculos eram imensos: falta de meios económicos e reacções contrárias. No entanto, a persistência do jovem Prior do Castelo foi superior”. O lançamento da primeira pedra da igreja da Corredoura acontece a 19 de Outubro de 1952, e a inauguração a 15 de Agosto de 1955.

 

A missão continua… em Arroios

Quinze dias depois, a 30 de Agosto de 1955, o padre Freitas é nomeado pároco de São Jorge de Arroios, em Lisboa. A 2 de Outubro desse mesmo ano, D. António de Campos, Bispo Auxiliar de Lisboa, preside à tomada de posse na paróquia onde iria permanecer por 47 anos. Nesses anos de missão pastoral, o “Prior Freitas sente a urgência de dar forma, sentido e vivência comunitária à Paróquia”. “As suas homilias apelam à unidade cristã e à corresponsabilidade de todos”. Apelos que encontram eco em muitos fiéis.

 

Em 1958, surge um novo sonho. A construção de mais uma igreja. Era a terceira, dado que depois de deixar o Castelo de Sesimbra ainda acompanhou a construção da igreja do Poceirão, no concelho de Palmela.

 

Porém, agora o sonho era o de uma igreja para Arroios. Diante das dificuldades económicas com que a comunidade se deparava, afirma numa reunião do Conselho Paroquial: “Homens de pouca fé! A Deus nada é impossível!”. A 8 de Dezembro de 1970, é lançada a primeira pedra da nova Igreja e dois anos mais tarde, a 8 de Dezembro, o Cardeal-Patriarca D. António Ribeiro preside à bênção daquele novo templo. “Com a nova igreja, um novo fôlego do Espírito parece surgir em Arroios. Tudo cresce rapidamente, formando uma espiral de espírito cristão, consciente e corresponsável”.

 

Em Abril de 1961 participa no 3º Cursilho de Cristandade, movimento que virá a acompanhar mais tarde enquanto Director Espiritual Nacional. Uma missão que vai desenvolver por 20 anos.

 

A 19 de Junho de 1981 é nomeado ‘Capelão de Sua Santidade’ obtendo, assim, a dignidade de Monsenhor.

 

A caridade, a acção social, a juventude, a espiritualidade, são algumas das muitas dimensões que estiveram presentes no ministério sacerdotal de um homem que é apresentado por D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa, como alguém que viveu “a radicalidade do abandono a Jesus”. Na homilia da celebração das exéquias de monsenhor José de Freitas, o Patriarca de Lisboa não receia afirmar que “estamos a celebrar a morte de um sacerdote santo. E a sua graça própria foi certamente essa silenciosa que passava de vez em quando num sorriso, numa palavra amiga, num conselho que dava, numa atitude concreta diante das dificuldades. Mas foi mais visível aquela outra dimensão da vida do sacerdote, que é a fé e a devoção com que distribuiu aquilo que não era seu, mas que era dom de Deus”.

 


Num testemunho escrito pelo próprio em 1991, monsenhor José de Freitas afirma: “Quero acusar-me de um grande pecado que arrastei toda a minha vida: o meu falhanço em despertar, directamente, as vocações sacerdotais e religiosas. É algo que, hoje, me faz sofrer imenso. Que eu saiba, apenas meia dúzia de religiosas e 4 ou 5 padres: 1 jesuíta, 1 comboniano, 1 franciscano, 1 Opus Dei e ainda um quinto que pertence a outra Diocese. Penso que foi uma riqueza que desperdicei e que, por isso, deixo a Igreja mais pobre. Mas como ninguém sabe o que semeia, nem onde um gesto seu pode chegar, espero ao menos, que o meu testemunho ao longo da vida, tenha aberto caminho vocacional a muitos que desconheço. Pelo menos foi a confirmação com que, há dias, um grupo de padres tentou consolar-me. Que seja verdade! Espero que sim!”.


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