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DOCUMENTOS

07 de Setembro de 2017

Discurso do Papa Francisco aos participantes na 68ª Semana Litúrgica Nacional de Itália (PT)

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Caros irmãos e irmãs, bom dia. 

Dou-vos as boas-vindas e agradeço ao Presidente, Sua Excelência Mons. Claudio Maniago, pelas palavras com que apresentou esta Semana Litúrgica Nacional, a 70 anos do nascimento do Centro de Ação Litúrgica. 

Este arco de tempo é um período em que, na história da Igreja e, em particular, na história da Liturgia, aconteceram eventos substanciais e não superficiais. Tal como não se poderá esquecer o II Concílio do Vaticano, assim será recordada a reforma litúrgica que dele brotou.

São dois acontecimentos diretamente ligados, o Concílio e a reforma, que não floresceram de improviso mas foram longamente preparados. Testemunha-o aquilo a que se chamou movimento litúrgico, e as respostas dadas pelos Sumos Pontífices às dificuldades percebidas na oração eclesial; quando se adverte uma necessidade, ainda que a solução não seja imediata, é preciso pôr-se em movimento. 

Penso em São Pio X que dispôs um reordenamento da música sacra e a recuperação celebrativa do domingo, e instituiu uma comissão para a reforma geral da liturgia, consciente de que isso comportaria «um trabalho tão grande quanto demorado; e por isso – como ele próprio reconhecia – é necessário que passem muitos anos antes que este, por assim dizer, edifício litúrgico […] reapareça de novo esplendoroso na sua dignidade e harmonia, após ter sido como que limpo da degradação do envelhecimento». 

O projeto reformador foi retomado por Pio XII com a Encíclica Mediator Dei e a instituição de uma comissão de estudo; também ele tomou decisões concretas acerca da versão do Saltério, da atenuação do jejum eucarístico, do uso da língua viva no Ritual, da importante reforma da Vigília Pascal e da Semana Santa. Deste impulso, seguindo o exemplo de outras Nações, surgiu na Itália o Centro de Ação Litúrgica, guiado por Bispos solícitos pelo povo que lhes foi confiado e animado por estudiosos que amavam a Igreja para além da pastoral litúrgica. 

O II Concílio do Vaticano fez depois amadurecer, como bom fruto da árvore da Igreja, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium (SC), cujas linhas de reforma geral correspondiam a necessidades reais e à concreta esperança de uma renovação: desejava-se uma liturgia viva para uma Igreja totalmente vivificada pelos mistérios celebrados. Tratava-se de exprimir de modo renovado a perene vitalidade da Igreja em oração, tendo a preocupação de que «os fiéis não assistam como espectadores alheios e mudos a este mistério da fé, mas, compreendendo-o bem por meio dos ritos e das orações, participem na ação sagrada de modo consciente, piedoso e ativo» (SC 48). Recordava-o o Beato Paulo VI ao explicar os primeiros passos da reforma anunciada: «É bem que se advirta de que foi precisamente a autoridade da Igreja a querer, a promover, a acender esta nova maneira de rezar, dando assim maior incremento à sua missão espiritual […]; e nós não devemos hesitar em tornarmo-nos primeiro discípulos e depois promotores da escola de oração que está para começar». 

A direção traçada pelo Concílio encontrou forma, segundo o princípio do respeito da sã tradição e do legítimo progresso (cf. SC 23), nos livros litúrgicos promulgados pelo Beato Paulo VI, bem acolhidos pelos mesmos Bispos que estiveram presentes no Concílio, e já há quase 50 anos universalmente em uso no Rito Romano. A aplicação prática, guiada pelas Conferências Episcopais para os respetivos Países, está ainda a acontecer, porque não basta reformar os livros litúrgicos para renovar a mentalidade. Os livros reformados segundo a norma dos decretos do Vaticano II desencadearam um processo que requer tempo, receção fiel, obediência prática, sapiente atuação celebrativa por parte, antes de mais, dos ministros ordenados, mas também dos outros ministros, dos cantores e de todos aqueles que participam na Liturgia. Na verdade, sabemo-lo, a educação litúrgica de Pastores e fiéis é um desafio a enfrentar sempre de novo. O próprio Paulo VI, um ano antes da morte, dizia aos Cardeais reunidos em Consistório: «Chegou o momento, agora, de deixar cair definitivamente os fermentos desagregadores, igualmente perniciosos num ou noutro sentido, e de aplicar integralmente, nos seus justos critérios inspiradores, a reforma por Nós aprovada aplicando os votos do Concílio». 

E hoje há ainda que trabalhar nesta direção, particularmente redescobrindo os motivos das decisões tomadas com a reforma litúrgica, superando leituras infundadas e superficiais, receções parciais e práticas que a desfiguram. Não se trata de repensar a reforma revendo as suas escolhas, quanto de conhecer melhor as razões que lhe estão subjacentes, inclusive mediante a documentação histórica, bem como de interiorizar os seus princípios inspiradores e de observar a disciplina que a regula. Depois deste magistério, após este longo caminho, podemos afirmar com segurança e com autoridade magisterial que a reforma litúrgica é irreversível. 

O encargo de promover e defender a liturgia está confiado pelo Direito à Sé Apostólica e aos Bispos Diocesanos, com cuja responsabilidade e autoridade conto muito no momento presente; estão implicados também os organismos nacionais e diocesanos de pastoral litúrgica, os Institutos de formação e os Seminários. Neste âmbito formativo distinguiu-se, na Itália, o Centro de Ação Litúrgica com as suas iniciativas, entre as quais a Semana Litúrgica anual. 
Depois de ter repercorrido com a memória este caminho, gostaria agora de tocar alguns aspetos à luz do tema sobre o qual refletistes nestes dias, a saber: “Uma Liturgia viva para uma Igreja viva». 
– A liturgia é “viva” em virtude da presença viva d’Aquele que «morrendo destruiu a morte e ressuscitando restaurou a vida» (Prefácio pascal I). Sem a presença real do mistério de Cristo, não há nenhuma vitalidade litúrgica. Tal como sem o batimento cardíaco não há vida humana, assim também sem o coração pulsante de Cristo não há ação litúrgica. O que define a liturgia é, com efeito, a atuação, nos sinais sagrados, do sacerdócio de Jesus Cristo, ou seja a oferta da Sua vida até estender os braços na Cruz, sacerdócio tornado presente de modo constante através dos ritos e das orações, de modo supremo no Seu Corpo e Sangue, mas também na pessoa do sacerdote, na proclamação da Palavra de Deus, na assembleia reunida em seu Nome (cf. SC, 7). Entre os sinais visíveis do invisível Mistério está o altar, sinal de Cristo pedra viva, rejeitada pelos homens mas que se tornou pedra angular do edifício espiritual em que é oferecido ao Deus vivo o culto em espírito e verdade (cf. 1 Pd 2, 4; Ef 2, 20). Por isso o altar, centro para o qual nas nossas igrejas a atenção converge, é dedicado, ungido com o crisma, incensado, beijado, venerado; para o altar se orienta o olhar dos orantes, sacerdote e fiéis, convocados para a santa assembleia em seu redor; sobre o altar é deposta a oferta da Igreja que o Espírito consagra como Sacramento do Sacrifício de Cristo; do altar nos são concedidos o pão da vida e o cálice da salvação «para que nos tornemos em Cristo um só Corpo e um só espírito» (Oração Eucarística III). 

– A Liturgia é vida para todo o povo da Igreja. Por sua natureza a Liturgia é, com efeito, “popular” e não “clerical” sendo – como ensina a etimologia – uma ação para o povo, mas também do povo. Como recordam tantas orações litúrgicas, é a ação que o próprio Deus realiza em favor do seu povo, mas também a ação do povo de Deus que escuta Deus que fala e reage louvando-o, invocando-o, acolhendo a inesgotável fonte de vida e de misericórdia que flui dos sinais sagrados. A Igreja em oração recolhe todos aqueles que têm o coração à escuta do Evangelho, sem descartar nenhum: são convocados pequenos e grandes, ricos e pobres, crianças e velhos, sãos e doentes, justos e pecadores. À imagem da “multidão imensa” que celebra a liturgia no santuário do céu (cf. Ap 7, 9), a assembleia litúrgica supera, em Cristo, todos os confins de idade, raça, língua e nação. O alcance “popular” da liturgia recorda-nos que ela é inclusiva e não exclusiva, fautora de comunhão com todos sem, todavia, homologar, porque chama cada qual, com a sua vocação e originalidade, a contribuir para edificar o Corpo de Cristo: «A Eucaristia não é um sacramento “para mim”, é o sacramento de muitos que formam um só corpo, o santo povo fiel de Deus». Não devemos esquecer, portanto, que é antes de mais a liturgia a exprimir a pietas de todo o povo de Deus, prolongada depois nos exercícios de piedade e devoções que conhecemos com o nome de piedade popular, a valorizar e encorajar em harmonia com a liturgia. 
– A liturgia é vida e não uma ideia a compreender. Leva, com efeito, a viver uma experiência iniciática, ou seja, transformativa do modo de pensar e de se comportar, e não a enriquecer a bagagem pessoal de ideias sobre Deus. O culto litúrgico «não é acima de tudo uma doutrina a compreender ou um rito a realizar; é naturalmente também isso mas de um outro modo; é essencialmente diverso: é uma fonte de vida e de luz para o nosso caminho de fé». As reflexões espirituais são uma coisa diferente da liturgia, a qual «é, precisamente, entrar no mistério de Deus; deixar-se levar ao mistério e estar no mistério». Há uma bela diferença entre dizer que existe Deus e sentir que Deus nos ama, tal como somos, agora e aqui. Na oração litúrgica experimentamos a comunhão significada não por um pensamento abstrato mas por uma ação que tem por agentes Deus e nós, Cristo e a Igreja. Os ritos e as orações (cf. SC, 48), por aquilo que são e não pelas explicações que deles damos, tornam-se portanto uma escola de vida cristã, aberta a todos os que têm ouvidos, olhos e coração abertos para aprender a vocação e a missão dos discípulos de Jesus. Isto está em linha com a catequese mistagógica praticada pelos Padres, retomada também no Catecismo da Igreja Católica que trata da Liturgia, da Eucaristia e dos outros Sacramentos à luz dos textos e dos ritos dos livros litúrgicos atuais. 

A Igreja é verdadeiramente viva se, formando um só ser vivo com Cristo, é portadora de vida, é materna, é missionária, sai ao encontro do próximo, solícita em servir sem ir atrás dos poderes mundanos que a tornam estéril. Por isso, celebrando os santos mistérios recorda Maria, a Virgem do Magnificat, contemplando nela «como numa imagem puríssima, aquilo que ela inteiramente deseja e espera ser» (SC, 103). 

Enfim, não podemos esquecer que a riqueza da Igreja em oração enquanto “católica” vai para além do Rito Romano o qual, embora seja o mais difundido, não é o único. A harmonia das tradições rituais, de Oriente e de Ocidente, pelo sopro do mesmo Espírito, dá voz à única Igreja orante por Cristo, com Cristo e em Cristo, para glória do Pai e para a salvação do mundo. 

Caros irmãos e irmãs, agradeço-vos pela vossa visita e encorajo os responsáveis do Centro de Ação Litúrgica a prosseguir mantendo-se fiéis à inspiração original, de servir a oração do povo santo de Deus. Com efeito, o Centro de Ação Litúrgica sempre se distinguiu pelo cuidado posto na pastoral litúrgica, na fidelidade às indicações da Sé Apostólica e dos Bispos e gozando do seu apoio. A longa experiência das Semanas Litúrgicas, realizadas em numerosas dioceses de Itália, juntamente com a revista “Liturgia”, ajudou a renovação litúrgica a descer à vida das paróquias, dos seminários e das comunidades religiosas. Não falaram fadigas nem alegrias! É ainda este compromisso que hoje vos peço: ajudar os ministros ordenados, tal como os outros ministros, os cantores, os artistas, os músicos, a cooperarem para que a liturgia seja “fonte e cume da vitalidade da Igreja” (cf. SC, 10). Peço-vos, por favor, que rezeis por mim e concedo-vos, de coração, a Bênção Apostólica. 


Papa Francisco 
Quinta-feira, 24 de Agosto de 2017


(tradução: Secretariado Nacional de Liturgia)


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