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02 de Setembro de 2017

Intervenção no encontro comemorativo dos 50 anos do Renovamento Carismático Católico

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O que esperam os Bispos e a Igreja do Renovamento Carismático Católico

Caríssimos irmãos e amigos do Renovamento Carismático Católico em celebração jubilar:
Neste feliz encontro convosco e querendo corresponder de algum modo ao que me foi pedido, começo por retomar algumas palavras do Papa Francisco no recente jubileu romano do Renovamento Carismático Católico. 
Assim no seu discurso no Circo Máximo, a 3 de junho último: «Obrigado, Renovamento Carismático Católico, pelo que haveis dado à Igreja nestes 50 anos. A Igreja conta convosco, com a vossa fidelidade à Palavra, com a vossa disponibilidade para o serviço e com o vosso testemunho de vidas transformadas pelo Espírito Santo!» E no dia seguinte, na homilia da Missa de Pentecostes, na Praça de São Pedro: «Então a nossa oração ao Espírito Santo é pedir a graça de acolhermos a sua unidade, um olhar que, independentemente das preferências pessoais, abraça e ama a sua Igreja, a nossa Igreja; pedir a graça de nos preocuparmos com a unidade entre todos, de anular as murmurações que semeiam discórdia e as invejas que envenenam, porque ser homens e mulheres da Igreja significa ser homens e mulheres de comunhão; é pedir também um coração que sinta a Igreja como nossa Mãe e nossa casa: a casa acolhedora e aberta, onde se partilha a alegria multiforme do Espírito Santo» (in Pneuma 303, junho 2017, p. 13 e 15).   
Não são palavras genéricas e de mera circunstância. Na verdade, podem e devem constituir um índice do que - não só o primeiro dos Bispos de todo o mundo, mas também nós os que, com ele, exercemos tal ministério em Portugal - podemos esperar do Renovamento Carismático Católico. E do que o RCC pode esperar de nós, em confirmação e estímulo.
Detalhemos então 6 pontos, no que disse o Papa Francisco: 


1º) A Igreja conta com a fidelidade do RCC à Palavra de Deus. Não podia ser doutro modo, num movimento que se quer intensamente do Espírito Santo, pois a Palavra de Deus é precisamente o som do Espírito e o lugar da Vida. Garantiu-o o próprio Jesus Cristo, como certamente lembramos, esclarecendo alguns discípulos ainda duvidosos: «É o Espírito quem dá a vida; a carne não serve de nada: as palavras que vos disse – no chamado “discurso do Pão da vida” – são espírito e são vida» (Jo 6, 63).  
Quem se queira discípulo de Cristo, não vive do que deseja ou conjetura só por si, com as limitações próprias da “carne” que começa por ser. Abre-se às infinitas dimensões divinas que a Palavra de Deus lhe oferece, se constantemente ouvida, relida e meditada. Cheia de Espírito, preenche-o de Vida. 
Em toda a vida da Igreja e para quem atenda muito especialmente à ação do Espírito, tudo partirá da Palavra de Deus, reconhecidamente inspirada e inspiradora. Que não haja reunião ou encontro do RCC sem predominância da Palavra de Deus, não como complemento, mas como base de tudo o mais. É o lugar certo e certificador da ação do Espírito Santo.
Quando o RCC o faz entre nós, grupo a grupo, também os Bispos de Portugal lhe ficam reconhecidos; e ainda pelo influxo que tal terá certamente na comunidade em geral.


2º) A Igreja conta com a disponibilidade do RCC para o serviço. E conta com muita confiança e justificada esperança. Quanto mais Espírito em nós, maior é o serviço à Igreja e ao mundo. 
Quem vive do Espírito serve os irmãos. Coincide desse modo com o próprio serviço de Deus, que sempre cria e recria espiritualmente as coisas. - Abrimos a Bíblia e quais são as primeiras palavras que lemos, no poema da criação? São estas: «No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo, e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas» (Gn 1, 1-2). 
– Quando Deus incarna e nos refaz em Cristo, não é também pelo Espírito que tudo acontece, como aconteceu em Maria? Assim é de facto, nas próprias palavras do Anjo da Anunciação: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus» (Lc 1, 35). 
– Quando começa o anúncio evangélico, Quem o motiva e expande? É ainda e sempre o Espírito, esclarece o próprio Jesus “Cristo” (= ungido pelo Espírito), apropriando palavras proféticas. Oiçamos o trecho de São Lucas, que é um magnífico prólogo à evangelização que queremos continuar: «Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e todos os elogiavam. Veio a Nazaré, onde tinha sido criado.
Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para a anunciar a Boa Nova aos pobres” […] Começou, então, a dizer-lhes: “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» (Lc 4, 14 ss).
- Quando Jesus Cristo por todos morre e para todos ressuscita, alargando a sua obra na ação da Igreja, como pode e poderá acontecer tal coisa? Unicamente pelo Espírito, logo partilhado, escreve o quarto Evangelho: «Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, […] veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco! […] Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós”. Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem o retiverdes, ficarão retidos”» (Jo 20, 19 ss). 
Cinquenta dias depois, o mesmo Espírito possibilitou-lhes o anúncio evangélico em todas as línguas, como desde então continua a acontecer: «Viram então aparecer umas línguas de fogo, que se foram dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem» (Act 2, 3-4). 
Também para isso contam os Bispos de Portugal com o RCC. O serviço evangélico ao mundo, pela palavra dita e feita, tem de continuar a chegar a todos, na grande variedade de línguas, linguagens e culturas da sociedade que hoje somos. Como muito bem pretende a Nova Evangelização, tão oportunamente lançada por São João Paulo II: Nova no ardor, nova nos métodos, nova nas expressões. 
Onde houver um membro do Renovamento Carismático Católico tem de evidenciar-se sempre e mais o anúncio forte e criativo do Evangelho da paz, da reconciliação e da vida. Esse mesmo que esperam os pobres de tantas e tão variadas pobrezas, começando pelas mais básicas e sem descurar as mais profundas. E é sempre e só pelo Espírito que a criação se sustenta e o mundo se renova.


3º) A Igreja conta também com os membros do RCC enquanto vidas transformadas pelo Espírito Santo. 
Lembrava o Beato Paulo VI, num texto que permanece absolutamente fundamental para a evangelização, que «o homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas» (Evangelii Nuntiandi, nº 41). Sabemo-lo bem, quando estamos saturados de palavras que, sendo tantas vezes ocas, já só podem encontrar orelhas moucas… 
O exemplo de Jesus é sempre convincente, porque nele tudo é dito e feito, sem discrepância alguma, plenamente no Espírito que com Deus Pai compartilha. Esse mesmo Espírito que nos doa também e produz um efeito que São Paulo assim detalha aos gálatas, como nos detalha agora a nós: «É este o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio» (Gl 5, 22-23).
Também isso os Bispos de Portugal esperam dos membros do RCC. Que sejam testemunhas constantes de virtudes imprescindíveis para a Igreja e para a sociedade em geral, quando não desistimos de crescer e efetivamente melhorar. Que a todos amem, com um amor real e prestável, experimentando a verdadeira alegria, pois «a felicidade está mais em dar do que em receber» (Act 20, 35). Que construam a paz, com paciência e bondade a toda a prova, no Espírito de Cristo, que dá a vida por todos, mesmo pelos inimigos. Que sejam fiéis, pois vivem dum Espírito que não deixa de os manter assim. Que vivam a bem-aventurança da mansidão - não num conformismo qualquer, mas naquele autodomínio que dá oportunidade aos outros para se admirarem e converterem também. Afinal será a mansidão a possuir a terra (cf. Mt 5, 5). Como Deus nos quer a nós e o seu Espírito ensina. 


4º) A Igreja conta com o vosso olhar abarcante e amistoso sobre a totalidade dos crentes, independentemente das preferências pessoais.
É um ponto exigente, este, bem o sabemos. Por natureza e percurso pessoal, somos mais propensos a um certo modo de ver e sentir as coisas, como nos educaram ou como nos convenceram nalgum momento, em experiências e encontros que, por isso mesmo, chamamos “marcantes”. 
Tão marcantes que podemos não aceitar facilmente outros modos de ver e sentir, nem estar disponíveis para os acolher e nos completarmos com eles, na totalidade da Igreja que pelo batismo somos todos.
Não é dificuldade nova, antes tão antiga como a própria Igreja. Sempre nos custou ascender das diferenças de sensibilidades e ideias à unidade maior da graça em que, não deixando de ser cada um, nos enriquecemos no todo. 
Logo nas primeiras comunidades assim foi. É o caso paradigmático dos coríntios. Há pouco evangelizados por São Paulo, outros chegaram depois e não tardaram as divisões… Assim lhes escreve o apóstolo: «Fui informado pelos da casa de Cloé, que há discórdias entre vós. Refiro-me ao facto de cada um dizer: “Eu sou de Apolo”, ou “Eu sou de Cefas”, ou “Eu sou de Cristo”. Estará Cristo dividido?» (1 Cor 1, 11-13). 
Um grande estudioso dos escritos paulinos explica-nos o que eram estas divisões. Permitam-me citá-lo, num trecho tão elucidativo como ainda oportuno: «O maior dano fora a cisão da comunidade em três fações. Apolo de Alexandria (Act 18, 24-28) tinha, rapidamente, encontrado o seu nicho, no mundo competitivo da Igreja de Corinto. A pregação de Paulo era minimalista: proclamava um Cristo crucificado como modelo de uma autêntica humanidade (1 Cor 2, 1-5) e não via necessidade de mais nenhum desenvolvimento teológico especulativo. Estava mais preocupado com a demonstração do poder transformante da graça, na sua vida e na dos outros (1 Cor 3,2). […] Sendo o ser humano como é, as aspirações intelectuais daqueles que se reuniam à volta de Apolo afastavam, certamente, outros, talvez os que tinham menos formação e que, como reação, insistiam na importância do radicalmente simples, inculcado pelo fundador da Igreja [Paulo]. O mais importante era, mantinham eles, o amor pelo próximo. Era inevitável a formação de um grupo de Apolo e outro de Paulo, logo que aquele surgiu em cena. Mas havia, aparentemente, um terceiro grupo, que Paulo identifica com Cefas (1 Cor 1, 12) […]. Assim, devemos considerar um grupo de judeus convertidos, que teria dificuldade em se integrar numa Igreja predominantemente gentílica» (Jerome Murphy-O’Connor, Paulo. Um homem inquieto, um apóstolo insuperável, Prior Velho, Paulinas, 2008, p. 213-214).
Em suma: Cristãos mais radicais, cristãos mais intelectuais e cristãos mais tradicionalistas, poderíamos dizer sem forçar muito o trecho, ontem como hoje. Face a isto, unamo-nos no essencial, também hoje como ontem, ainda nas palavras de Paulo: «Peço-vos, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estejais todos de acordo e que não haja divisões entre vós; permanecei unidos num mesmo espírito e num mesmo pensamento» (1 Cor 1, 10). É o que vos pedem agora os Bispos e a Igreja de Portugal, caros membros do Renovamento Carismático Católico. Sede, nos vossos grupos e na comunidade em geral, colaboradores do Espírito na união de todos, para além das legítimas diferenças de sensibilidade e opinião.


5º) Consequentemente – e sempre com o Papa Francisco -,  pedimos ao Espírito Santo a graça, especialmente para os membros do RCC, de se preocuparem com a unidade entre todos, de serem homens e mulheres de comunhão.
Graça sempre necessária e hoje particularmente requerida. Com efeito, vivemos tempos muito contraditórios a este respeito. Nunca como hoje tivemos tanta possibilidade de nos interessarmos positivamente uns pelos outros, na sociedade em geral e na Igreja que somos. Nunca dispusemos de tanta informação do que se passa e de tanto previsão do que se poderá passar. Nunca foi tão fácil intervir e “interagir” como agora se diz. E no entanto…
No entanto, acumulamos dissensões graves e negatividades pesadas. Porque tanto mediatismo nos transforma mais em espetadores do que em atores. Porque tanta tecnologia aumenta as possibilidades de nos entretermos individualmente e de nos afastarmos pessoalmente uns dos outros. Porque a realidade se torna assim mais virtual e menos consistente. Porque reduzimos a reação mediática ao “gosto” ou “não gosto” e ao comentário apressado que nos deseduca do diálogo que devíamos aprender e praticar, porque…
Os cristãos em geral e os membros do RCC muito em particular, devem ser os primeiros noutra linha de reação e ação. Precisamente aquela em que o Espírito de Cristo nos coloca. Os primeiros no acolhimento interpessoal, os primeiros na verdadeira escuta do outro, os primeiros na integração ou recuperação de quem quer que seja.
Na vida da Igreja, que é “templo do Espírito Santo”, esta é a maior urgência e o sinal mais autêntico. Não era por acaso que os antigos pagãos estranhavam o modo como os cristãos se amavam e persistiam no amor. Não num sentimentalismo vago e fugidio, que tanto aparece como desaparece, mas no cuidado de todos por todos, com particular incidência nos mais fracos e desprotegidos. Não seria sempre assim, infelizmente; mas foi suficientemente assim, para que os pagãos pudessem admirar-se e dizer: «Vejam como eles se amam!» 
Não faltaram divisões e cismas, que tanto desfiguraram a Igreja, a “túnica inconsútil de Cristo”, como deve permanecer. Mas o padrão estava alcançado e mantém-se, como realidade a recuperar, sempre e em qualquer circunstância. É o da comunidade criada pelo Espírito, como aprendizagem do que havemos de ser com a unitrindade divina, um em todos e todos num só. 
Recordemos o trecho de São Lucas nos Atos dos Apóstolos, livro certeiramente chamado o “Evangelho do Espírito”: «Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum… Como se tivessem um só coração e uma só alma… Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo…» (Act 2, 44 ss). Nas várias formas de concretizar este ideal, com tudo quanto a Doutrina Social da Igreja propõe em torno dos seus quatro princípios permanentes – dignidade da pessoa humana, bem comum, subsidiariedade e solidariedade - importa cumpri-lo. 
Antes de mais nas nossas comunidades e famílias, para sermos realmente o que Deus quer e o seu Espírito origina, alargando a obra de Cristo no mundo e para o mundo. Isso mesmo que o Concílio Vaticano II tão bem expressou, falando da natureza e da missão da Igreja «que, em Cristo, é como que o sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (Lumen Gentium, nº 1). E nunca esquecendo a correção fraterna, que não ultrapassa etapas para recuperar o outro até ao limite do possível e começa pela advertência direta e interpessoal: «Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e repreende-o a sós…» (cf. Mt 18, 15 ss)
Caros membros do RCC. Permitam e queiram que os Bispos de Portugal contem convosco na primeira linha da construção da unidade e da comunhão na Igreja, e da Igreja para sociedade. Nisso mesmo assinalareis a obra do Espírito em vós e através de vós.


6º) Finalmente, pediu-vos o Papa Francisco - e pedimos nós com ele - que sintais a Igreja como Mãe e Casa de todos. Uma casa acolhedora e aberta, onde se partilha a alegria multiforme do Espírito Santo.
Sentir a Igreja como casa de todos requer um coração tão largo como o próprio coração de Deus, Pai comum, Redentor universal e Espírito de reconciliação e de paz.
Requer igualmente a oração constante e convicta de cada um de nós, para nada apreciarmos individualmente, ao gosto subjetivo ou imediato, mas sempre a partir de Deus e na lógica do Pai Nosso e das Bem-aventuranças, tão exigente como aberta. Assim nos foi demonstrado no percurso humano que Deus quis ter connosco em Jesus. Assim nos foi ganho e oferecido quando deu a sua vida por nós e para nós - e nesse momento «expirou», doando-nos o Espírito (cf. Jo 19, 39). Aquela Cruz começou então a alargar os braços que nos envolvem agora, como casa de todos. Senti-lo é dom de Deus, que pedimos especialmente para vós, no jubileu que celebrais. São Paulo disse-o claramente, atribuindo tal graça ao Espírito divino: «O amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5, 5).
- Contamos convosco, caros membros do RCC em Portugal, como connosco contareis também. Que a graça do Espírito vos faça sentir o que Deus sente e a vontade forte de fazer da Igreja a casa fraterna da multiforme alegria! 

Fátima, 2 de setembro de 2017, Cinquentenário do Renovamento Carismático Católico

+ Manuel Clemente    


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