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17 de Julho de 2017

Bairro 6 de Maio - Por “Fidelidade à população”

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Vivendo em barracas “por opção”, fizeram “pontes”, foram o “rosto da Igreja” e da “caridade” nos bairros degradados da Amadora, durante mais de 40 anos. Atualmente, as Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário acompanham as últimas famílias do Bairro 6 de Maio, que aguardam realojamento, e alertam para o “drama humano” que a droga gerou.

“Já não há bairro. O bairro acabou”. É um misto de sentimentos que se percebe ao escutar a população do Bairro 6 de Maio, na Amadora, situado às portas de Lisboa. Se, por um lado, um grande número de famílias que vivia em barracas foi, finalmente, realojado; por outro, sobra hoje uma realidade muito diferente de há 40 anos, mas com um “drama humano” que parece não ter fim. “Atualmente, são centenas ou milhares que vêm aqui todos os dias, dia e noite, para traficar e consumir. Quem ocupou agora algumas barracas do bairro foi gente de fora. Não sabemos o número. Em termos de saúde, isto é um drama e ninguém está a olhar para este problema sério”, regista, com desagrado, a irmã Deolinda Rodrigues, responsável pelo Centro Social 6 de Maio e profunda conhecedora das mudanças sociais que este bairro foi sofrendo ao longo das últimas décadas.

Por opção
“Opção” e “fidelidade à população do bairro” são os motivos que ligam a religiosa dominicana ao 6 de Maio, na Venda Nova, concelho da Amadora. A história da irmã Deolinda, nos últimos anos, é também a história do bairro onde decidiu viver, a partir de 1986, apesar de ter acompanhado de perto o início da missão das Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário naquele bairro, pouco depois de 1974. Durante alguns anos, a religiosa intercalou a presença no bairro com o trabalho no Conselho Provincial da congregação. Juntamente com a irmã Paz, a irmã Joana e a irmã Isabel, formam atualmente esta missão na “periferia”, que consideram não ter chegado ainda ao final, mesmo com a demolição e o realojamento de centenas de famílias. “Estamos ainda no bairro porque aqui continuam pessoas debilitadas e a precisar de acompanhamento. São cerca de 70 famílias”, refere a irmã Deolinda, explicando como ainda se mantém a necessidade de “uma presença” no meio do povo. “A população que agora nos procura não é a mesma do início do bairro. Os prédios ao lado do Centro Social 6 de Maio estão a ser habitados, quase todos, por africanos. É uma população carenciada, é gente que precisa de ajuda”, aponta a irmã Deolinda Rodrigues.

Pontes
A presença das Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário junto da população cabo-verdiana que chegou a Portugal deu-se após a revolução do 25 de abril de 1974. O atual Bairro 6 de Maio era pequeno para a “explosão” de famílias de Cabo Verde que procuravam uma vida melhor num país que tinha acabado de depor um regime ditatorial. A ocupação prolongava-se pelo Bairro das Fontaínhas e pelo o Bairro Estrela d’África, ambos atualmente demolidos. “As irmãs concluíram que era necessário vir e chegaram com a população. Aperceberam-se que era um número considerável e não começaram a residir logo no Bairro das Fontaínhas, junto às Portas de Benfica, porque não encontraram uma casa”, refere a irmã Deolinda, lembrando que foi emprestada às religiosas, ali perto, a “casa do motorista” de um colégio que pertencia às Irmãs Dominicanas do Bom Sucesso.
A população africana que chegava a Portugal, há mais de 40 anos, enfrentava várias dificuldades. Além da necessidade de alojamento, era urgente garantir trabalho, sobretudo para os homens. “Acontecia que a maioria das pessoas que chegava era analfabeta. Era urgente que garantissem, pelo menos, a 4ª classe para poderem arranjar trabalho. Por isso, uma das primeiras coisas que fizemos foi organizar a alfabetização. Foi um projeto que nunca acabou e continua até hoje! Chegou a ser uma referência para muitos, que até vinham cá para ver como funcionava. Neste projeto, houve muita gente voluntária, alguns até politicamente comprometidos”, explica a irmã Deolinda.
Quando, em 1978, as irmãs Dominicanas conseguiram uma habitação no Bairro das Fontaínhas, a irmã Deolinda visitou a habitação e guarda daí memória do que viu: “Lembro-me de lá ir uma vez e ver montanhas de processos em cima da mesa para pedirem água e luz à câmara municipal e até processos de legalização”. A ponte entre a população e as entidades estatais foi, muitas vezes, feito pelas comissões de moradores e pelas religiosas que tinham como missão inicial “viver com a população”. “Queríamos simplesmente para estar com o povo e ser presença da Igreja junto dos que estavam a chegar”, garante.
A chegada de muitas crianças cabo-verdianas, com os seus pais, fez com que as religiosas procurassem soluções para garantir uma melhor integração e que evitasse o desvio por outros caminhos. “Outra das necessidades era o ensino do Português. As escolas não conseguiam abranger a quantidade de crianças que chegavam. Então, as irmãs tiveram que fazer, juntamente com voluntários, o que depois se chamaria de ATL (Atividades de Tempos Livres). Foi-se também trabalhando, com as mulheres, a questão da economia doméstica”, explica a irmã Deolinda.

  • Leia o texto completo na edição do dia 16 de julho do Jornal VOZ DA VERDADE.


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